Viagens...(cont.)
Barcelona
A cadência lenta do comboio, das rodas metálicas a chocarem contra as folgas dos carris, dos amortecedores da carruagem que rangem regularmente, dos sopros dos travões que sibilam pontualmente. Tirando tudo isso é só silêncio que me rodeia, só deserto de gente. A luz intensa dos corredores que contrasta com as trevas profundas da rua e nem percebo se chegámos a passar alguma estação ou se pairamos na noite como um pássaro-comboio, como na história do Sepúlveda em que o mesmo pássaro se fica a pousar entre o nevoeiro. Talvez esteja a olhar sem ver; talvez esteja a viajar de outra forma, para além deste movimento físico, desta sensação de gravidade que é mais do que o mundo que gira a todo o momento. O meu corpo é mais que células ou será só muita energia que vagueia pelo espaço, que se dilui no ar artificial que sai dos ventiladores. Não se vê ninguém e posso voar sem ter fronteiras físicas e humanas que me parem a viagem, que me façam condensar de novo em células, em fibras, em músculo, nervos, órgãos, carne e sangue. Não vou à procura disso. Não quero ir à procura disso. Desta vez vou viajar sem que para já queira esses contactos, esses momentos de crescimento com os outros e para os outros. Terei tempo para tudo sendo que o tempo já deixou de existir; voltará daqui por cinco dias para me envelhecer de novo, para me marcar o ritmo da respiração, que agora é só energia como o corpo.
Não te ouço ao longe, não te vejo nem leio de perto e não preciso, porque também és energia, porque também te diluis no espaço e no tempo. Esse suspiro breve que ameaça acordar-me é tão só o choque das nossas correntes, quando te toco ao de leve nos ombros-energia, quando percorro alguns pontos luminosos de ti, mas sem luz; nem quentes nem frios; nem leves nem pesados.
O jogo de sombras em que te apresentaste, como leitora de alcofa oitocentista, de palidez dissimulada por raios de sol beneméritos. O coração que pula como se nascesse, como se tudo fosse novo em meu redor. A brutalidade de sentimentos formais tocados pela sombra com que as nuvens cobrem o mundo matam este momento, permitindo alguma breve troca de impressões sem nexo, perdidas na imensidão de todas as probabilidades de realidades futuras e consequentes de um Presente.
Durmo.
O desayuno pela manhã com um companheiro português a reforçar o café com leite por três vezes. A sala-vagão de aparência luxuosa, de um verde sóbrio como se a esperança tivesse o travo amargo do café com leite que aqui se bebe. Percebo que não oferece a mais ninguém e aproveito a cumplicidade demonstrada – talvez por qualquer noção patriótica que não demonstra aos seus colegas espanhóis e de que estou a gostar – para que me oriente em Madrid. Informa-me das ligações entre transportes, das linhas em devo apanhar os ditos, do tempo de espera e dos procedimentos. Retoma os seus afazeres, para com a família feliz que chega e se senta com uns Buenos dias. Desaparece mais tarde sem que o torne a ver para agradecer e talvez fosse só um dos anjos que me protegem, me vigiam e me guardam. Foi a primeira pessoa que conheci nesta viagem e nem soube o seu nome. Não é preciso, passa a ser o tipo dos “três serviços de café com leite”; o tipo incaracterístico que não me contou nada da sua história, nem eu da minha disse uma palavra. Imagem pouco animadora da viagem que se quer frutífera em conhecimentos, sobretudo da experiência dos outros que comigo se cruzam.
Acordo do limbo e da digestão do pequeno-almoço farto e dou contigo a vaguear pela carruagem, sem que estivesses perto, sem que sentisse o teu cheiro a sono. No entanto, estás perto e quase sinto o calor que sai dos teus poros em vagas que acompanham a respiração. Talvez estejas apenas sentada num banco em frente, repousando o pensamento na paisagem árida, na planície imensa.
A pele de aparência macia e suave com que surges no segundo encontro, talvez pela sua ocasionalidade, talvez porque tenhas sempre esse ar primaveril de frutas coloridas e sumarentas, de festa dos sentidos em Natureza transbordante de vida. Será o sol que te ilumina o sorriso dessa forma ou será o teu sorriso que dá ao sol o brilho que tem nesta tarde, no ecoar dessa imagem que fará parte de mim, a partir deste momento?
Para além da simpatia, hoje temos um novo silêncio familiar, uma breve troca de impressões sobre o novo livro que devoras. Fala de paisagens europeias, que me aborrecem pela dose de civilização que contêm; de personagens perdidos em mundos interiores, como se o mundo fosse tão vasto e ao mesmo tempo tão concentrado numa única natureza humana. Não quero saber o que dizem, mas como os lês, como os interpretas; para que mundo te transportam, de que cores é ele feito e, afinal, de que forma consolidam essa frieza inabalável que te compõe.
As pessoas que cruzam comigo nas carruagens, as pessoas que vão à minha frente e ao meu lado alimentam uma imagem negativa, transposta para todos os castelhanos e sinto falta dos meus irmão galegos, bascos e catalães. Talvez seja apenas a falta das paisagens emocionais, com eles partilhadas longe da planura da Meseta Sul, longe da regularidade do relevo e do pensamento destes imperialistas.
Sinto também falta do teu telefonema, das nossas conversas ocasionais, das nossas conversas que não fazem bem nenhum aos dois. Sinto falta pelo teu timbre doce de voz como se me afagasses o cabelo enquanto falas, como se toda tu fosses só ternura, apesar da distância que impões aos nossos contactos; sinto falta pela atenção que me dás quando ouves, do cuidado que tens quando falas; quando, sem pretensão, me ensinas o teu mundo que vou aprendendo aos poucos.
Rapidamente concluímos que as nossas vidas se cruzaram no momento errado, no contexto mais desadequado. Então pensamos de que serve termo-nos conhecido, se quando nos encontramos as conversas ocasionais tem um peso relativo, apenas atribuído pelas mesmas sensações que damos um ao outro. O sorriso expresso de quem se sente bem com a presença do outro; o mesmo bater de coração que essa presença traz consigo; os mesmos sentimentos que nos fazem apenas recuar mais e mais, de não nos concebermos de outra forma, que não a de amantes e disso, nem falar.
O pensamento em espiral em que torno a cair, mesmo estando longe de ti, leva a que me levante, que percorra os vagões de gente que olha desconfiada. Leio o jornal no vagão-bar e arrisco falar de política com quem está ao lado, em jeito de perguntas sobre um artigo que resume a mais recente questão do país Basco. Respostas breves e fugidias, tocadas pelo medo esclarecido do personagem, que logo fogo afirmando não ter trazido os óculos. O medo é de facto um inimigo poderoso e pergunto-me de que terás tu medo.
Porque tens tu tanto medo?
Estamos longe um do outro, para que todo esse medo se justifique, temos mundos demasiado distantes. No entanto, a proximidade da tua voz traz o doce timbre de carícias sussurradas ao de leve, junto à face, ao ouvido.
Agora quero só fugir.
Na carruagem tipo comboios pendulares – que aqui chamar-se-ão qualquer outra coisa – ecrãs espalhados pelo tecto do corredor, que espelham o símbolo da companhia de transporte, por vezes os mapas com o itinerário, com as horas reais, as horas previstas de chegada às estações, a velocidade e a temperatura. Será de remontar o texto às estações de caminhos-de-ferro que parecem os nossos aeroportos. Lembro-me dos meus irmãos outra vez; do meu irmão Lois, que diz que vivo na Tanzânia. De facto, as coisas aqui funcionam com outro grau civilizacional, o que não quer dizer que tenham a piada das nossas coisas. Penso que os espanhóis vivem para trabalhar e nós trabalhamos para ir vivendo. É toda uma diferença que se nota nos produtos, no modo de vida, na arquitectura das cidades, nas caras todas iguais dos passantes.
Em Saragoza entram duas nórdicas, que ficam a fazer companhia à inglesa que está ao meu lado. Nenhuma fala e não sei se dará para conversar nas próximas três horas, nas derradeiras últimas horas da viagem solitária marcada pela falta de contactos. Limito-me a jogar ao jogo do “descobre a nacionalidade das pessoas”. Para melhorar sai um filme, logicamente dobrado em castelhano e a paisagem, monótona até agora, torna-se mais acidentada. Azar; vêm os túneis e os taludes, que só me deixam olhar de novo para a carruagem e seus ocupantes. Quero os comboios regionais do meu país, para poder fumar na esquina mais próxima e não ter de atravessar o comboio todo para o fazer; ouvir militares a berrar as suas aventuras; ver idosos com os seus sacos de batatas e galinhas que levam para a cidade, para os filhos urbanocas.
Voltemos aos figurantes. Em frente o casal idoso espanhol; ele dorme de vez em quando e mantém-se em silêncio o tempo todo; ela lê a revista de gente famosa durante todas as horas da longa viagem e deve ler lentamente, caso contrário já teria acabado. A este ritmo o Guerra e Paz do Tolstoi durava-lhe a vida inteira. A restante maioria é constituída por castelhanos de cabeça erguida, a olhar o filme sem expressão alguma – o que não dá para entender uma vez que se trata de uma comédia. As nórdicas, que descubro serem holandesas, colocam os auriculares duvidando eu que cheguem a perceber castelhano. Chega.
Os teus lábios. Sim. Os teus lábios e o teu sabor a nada porque nada sei sobre o seu sabor. A paisagem árida a toda a volta e os teus lábios secos pelo calor da estação. O céu azul agora e fico por aqui; porque acho que não tens muito de azul, mas muito de verde. Nada contra o azul, que é a minha cor favorita, mas tu tens muito de verde, não sendo dos olhos, ou da roupa, ou da pele. Talvez a alma seja verde; talvez a forma como olho para ti seja verde, por saber as tuas origens amazónicas, por saber desse Minho onde vives.
Uma das holandesas lê um livro que diz nas costas “lost your virginity?” e rio-me por achar ridículo que as pessoas leiam sobre esses assuntos, como um católico vai à bíblia para aprender como se faz bem ao próximo. Então e sentir as coisas?
Então e ser simplesmente natural?
Correndo o risco, obviamente, de que nem tudo corra bem, que não façamos sempre o bem sem que não nos magoemos de quando em vez. A vida será mesmo feita disso, de riscos. Quando aprendemos a andar temos de cair para sabermos que é melhor não correr; quando aprendemos a viver, talvez infelizmente, temos de nos dar mal, de vez em quando para que aprendamos o que é o mal, como o poderemos evitar, escapar sempre que nos encarar.
Afundo-me no pensamento de que não te conheço, de que não te deste a conhecer e que se calhar eu também não. Vou ler mais um pouco, ouvir música clássica no canal 3 e esperar, pensar um pouco nisso de não te conhecer, do querer conhecer, no pensar se quero realmente arriscar conhecer. Sim. Também tenho medo, desde que caí a primeira vez ao andar e parti a cabeça, facto que me deu a cicatriz por cima da sobrancelha esquerda. O chão do comboio é de alcatifa verde e azul e voltamos às cores, ao assunto de que não te conheço, de que te quero muito conhecer, que não te posso conhecer como eu quero, correndo riscos de cair, de me ferir, de te ferir a ti também. Barcelona dista a duas horas e tu estás longe, mais do que todos os quilómetros que nos separam, muito mais que toda a distância física real. Não aceito muito bem o facto de ganhar uma amiga e de não a poder amar livremente. Não posso falar de defeitos que não conheço, mas que sei existirem; de virtudes que apenas adivinho, por entre os breves segundos que me foram dados ao teu lado, ou a falar contigo. Posso falar apenas do que penso e do que vou sentindo; ou melhor, nem disso posso escrever e o pensamento, que é livre a todo o momento, torna-se um carrasco da vontade, remetendo-me para o monge que na cela do seu convento se auto-flagela, em noites como a que tive ontem ao adormecer; em manhãs como a de hoje em que surgiste com mais força de presença do que em qualquer outra.
Deveria continuar a escrever a história que já tinha começado, mas nessa história não entra Barcelona, só tu. Na história de Barcelona estás tu também, mas esta história é só para ti, nem chegando a ser história, sendo só mais uma viagem, com a companhia do pensamento de ti. Esse, está sempre aqui, mas por agora não me apetece escrever mais, pisar mais as vontades com palavras incertas. Vou fazer uma pausa e tu deves estar agora cansada, a trabalhar ou prestes a almoçar, longe da minha viagem e comigo ao mesmo tempo.
O resto da viagem até Barcelona, com a paisagem muito idêntica à nossa, à Estremadura onde nasci e vivo. O mar dá-me sono e denuncia o cansaço da viagem, que acaba por vencer e que se transforma num sono solto até à estação de Saints. O ritual do viajero típico que segue para o Metro, até à praça mais próxima, até ao primeiro Centro de Informações e para as respectivas informadoras; desta vez, uma simpática e outra nem tanto. Metro de novo, até aos bairros centrais da cidade, onde se localizam os albergues da juventude. Percebo que não sou tão jovem, mas que há sempre alguém que não o é e que continua a insistir; é o meu caso e tenho de viver com o que sou. Percebo ainda que a cidade é bem mais cara do que tinham falado. À saída do Metro duas italianas perguntam se quero quarto por 20 €, o que eu recuso por estar confiante de que consigo mais barato, ou que alguém me dará guarida, pessoas simpáticas, como estas que me tentam cobrar dinheiro. Ao fim de uma breve volta pelo Bairro Gótico e Cidade Velha; por uma dezena de albergues e outra dezena de hostais, corro desesperado à procura das duas italianas do Metro. Pois bem. Por ali ficaremos na casa de duas italianas, um argentino, com franceses e alemães também lá albergados. Já é uma boa mistura. O argentino, que é o ocupante mais regular da casa ou mesmo o seu dono, é artista plástico e a casa está coberta de arte por todos os cantos. Quadros de estilo próprio de que gosto em algumas telas, não chegando a ter conhecimentos para avaliar se é bom ou não. Está-se bem por aqui e é quanto baste para uma noite e decido ir amanhã cedo até ao Parque de Campismo dos arredores.
Pelo dia ainda dá para correr o Bairro Gótico com mais atenção e umas exposições e Museus que existem por todo o lado. Em Las Ramblas encontro uma Avenida cheia de artistas de rua e percebo que todos os habitantes de Barcelona devem ser artistas de rua, ou de casa sendo só importante que sejam artistas. A cidade quente e húmida cheia de luz e praças enormes, cheia de gente por todos os lados e, definitivamente, isto é Europa, é mundo inteiro, é tudo menos Espanha, tudo menos fronteiras políticas, tudo menos fronteiras de ideias e conceitos. A cidade quente e o Mediterrâneo à noite, o quarto minguante e o porquê da Lua e Estrelas do Miró.
- Por aqui à noite?
Sim, estou por aqui, olhando o mar próximo, pelo que as luzes da marginal permitem ver. Afinal, tenho férias aqui por estes locais, por este mar revolto que me cospe sal quando a ele me chego. Não te esperava encontrar, nem agora, nem quando saí de casa com o intento de calar o pensamento com o barulho das ondas, com o frio da costa, com a multidão que percorre o passeio não se atrevendo a descer à areia. Mas chegaste, como se o destino teimasse em gozar connosco, em nos colocar lado a lado.
- Estou a passear com a família e pareceu-me que te via aqui na areia.
Não sorrias assim, como tu toda fosses felicidade por me ver, como se tu toda fosses a luz que eu evitava, aqui, pelo meio da penumbra. Segue para perto da tua família e não olhes sequer para trás.
- Estás à espera de alguém?
- De ti. Daqui para a frente, a vida toda, se para isso tiver forças.
Deve ser da noite ou da aragem que o mar transforma em cheiro a sal que todos precisamos para a vida; deve ser de o poder dizer frontalmente sem que ninguém interrompa, sem que ninguém ouça tal barbaridade.
- Estás bem?
Sim estou; agora que falei contigo, que te consegui surpreender com palavras, talvez mais fortes que as dessa ficção de que falavas há pouco. Quero silêncio agora. Quero que te vás e que não me voltes a olhar na cara, se não te apetecer mais.
- Encontramo-nos amanhã?
Quando quiseres. Talvez precises que te explique melhor a loucura que disse à instantes; talvez precises de esclarecer toda a confusão que julgas que tenho no meu pensamento, desconhecendo que nunca estive tão lúcido, que nunca vi nada de uma forma tão clara.
Um sono pesado e o madrugar para que corra para o parque, logo perceber que errei, porque dois parques estão cheios e o que não está é mais caro que o quarto de onde saí. Como não admito logo os meus erros e o desespero congela o pensamento lógico, decido ficar por uma noite. Volto à cidade e percorro freneticamente todas as exposições em que consigo entrar, tudo o que me é dado a ver. Na primeira exposição esbarro contigo; com o mundo da América do Sul, com as estátuas e objectos de época Pré-columbiana e logo associo as imagens às tuas origens. Salto depois de exposição em exposição, atordoado pelo pensamento de ti, até à hora do autocarro do fim do dia para o Parque de Campismo. Uma pizza fina como fiambre, italianos barulhentos por todo o lado, achando eu que o problema é mesmo da língua que falam e não dos decibéis.
Um sono de rastos e um acordar de noite para que veja o Sol a nascer no mar; uma visão diferente, uma visão arco-íris para começar bem o dia. Uma praia suja como toda a Barcelona o é, por ser o sítio onde todos se sentem livres para fazer o que não fazem nos seus países. Daí parecer um pouco com o Cairo, mesmo com os edifícios de arquitectura colonial, com o calor húmido, que deve ser mais do tipo Alexandria.
Volto à cidade e ao mundo louco, pela última vez ando com os sacos de um lado para o outro, espero eu. Volto a casa do Fernando argentino onde todos os espaços de chão estão ocupados. Uma breve viagem ao vizinho de cima que se encontra nas mesmas condições, mas que tem uma erva plantada no terraço cujo aroma ecoará na minha cabeça pela tarde fora. A cidade que aos poucos se vai mostrando em mais e mais exposições, depois do almoço no Mercat de St. Josep.
A arte e chocolate no museu a isso dedicado, mais artistas de rua, igrejas góticas e uma tentativa de assalto no Metro. Fico furioso quando isto acontece; quando os seres humanos me lembram que podem ser maus, muito maus, para além da bondade que também sabem inventar. Toda a Barcelona transpira humidade, como respira a maldade, a guerra, a fome e doenças. Afinal é um sítio como os outros, ou os humanos é que acabam por ser iguais em todo o lado. Só mais um Museu, mas que agora é o Museu Miró; um dos pintores que tenho de exorcizar nesta viagem, juntamente contigo.
Já está.
A Lua e as Estrelas; a cor e a simplicidade do traço de criança, de adulto que nunca deixou de ser criança; a infantilidade que nunca quis perder como tu queres perder a tua; os pássaros a voarem em todo os seus quadros e as mulheres também. As paixões escondidas em pinceladas de azul, rosa e amarelo vivos. Espera aí. Encontro um deserto árido e descubro que todos os homens têm também um. Ainda bem que não sou o único que tem um deserto como o Miró, uma Lua como o Lorca, uma Gala como o Dali.
Aí vem o Dali e a sua Gala e o seu amor eterno, como eu sei que o nosso não será. Vem o Dali e o Surrealismo, o Miró e uma máquina de pintar tocada por pedais e rodas dentadas, fazendo o barulho metálico característico. Gosto de música industrial e gosto de uma instalação que só fala de toda a merda humana, como se esta coubesse no mesmo e exíguo espaço.
Viva a Anarquia e o Bakunine, numa exposição em que me deixo sonhar a tão bela utopia, em que tenho a liberdade de te incluir nesse sonho ainda que por breves instantes. Vem para este lado onde posso ser só o amor que te quero dar e que retenho desde o primeiro dia em que te vi. Vem, se levares a sério o cenário; se me levares a sério, não sendo a isso obrigada. Também não me levaste a sério quando te disse que te queria fotografar e isso ainda me custa a engolir enquanto percorro as paredes cheias de fotos, quando percebo que a tua imagem seria bem mais importante que muitas que ali estão.
- Posso-me sentar?
Claro que sim. É algo de obrigatório desde ontem à noite; desde que te disse que seria tudo para ti, quando deveria ter calado esse pensamento absurdo, ainda que óbvio, ainda que comum a nós os dois. Um chá e uma conversa sobre o fim do livro que acabaste de ler esta noite. Apaziguas assim o meu espírito sedento de saber o que tinham as palavras provocado em ti e, aparentemente, a frieza de que és feita se sobrepõe a todo o querer, a todo o pensar querer. Talvez porque te encontres noutro plano de existência diferente daquele em que me encontro, talvez porque o que te rodeia seja mais forte que toda a vontade, fale mais alto do que a voz que te diz que seria bom cair nos meus braços.
- Vou fazer uma viagem.
Nem porquê algum, nem um pedido de pormenores. O chá chega finalmente e sorves o teu silêncio, o teu apaziguar de espírito. Eu não o consigo fazer e por isso viajo.
- Fazes bem. Adoraria viajar contigo, mas não posso.
A evidência mais uma vez. O peso do que nos é exterior, como se a nossa vontade não fosse nada, como se o tempo aqui se acabasse num ponto final de uma mera observação.
Estou a parir arte por todos os poros e preciso descansar na casa de um outro argentino, que vive em frente do Fernando, onde estão duas brasileiras e uma venezuelana. Os teus olhos andam por aí outra vez, mas desta vez noutro rosto que apenas os denuncia, num conjunto de outro sorriso com outro piercing. Não deixam de ser os teus olhos, ou os olhos de alguém que me conduzem aos teus, sempre aos teus, que como dois fantasmas me perseguem, a ler livros intermináveis, de insondáveis desejos, temores e horrores. E pronto.
De novo estou nos teus olhos, na tua característica física mais marcante, por falar mais do que a tua boca ou qualquer outra parte do teu corpo; por se exprimirem sem poder fugir, mentir ou ocultar a verdade. Muito calor e pouca vontade de dormir. Calor, que o teu corpo tinha quando demos o beijo de despedida junto ao autocarro em que iniciei a minha viagem.
- Até logo.
Não sorrias que o tempo não será de sorrisos, agora que me afasto da tua beleza interior e exterior, agora que me despeço da tua imagem, que sei que nunca mais me vai ser dada a olhar desta forma apaixonada. Serei apenas o bom amigo; o distante bom amigo, preso a um tão grande desconforto de ter de o ser, de ter de aparecer quando necessário, cedendo um pouco do ombro, do tempo e da atenção.
Pouca vontade de dormir porque as três miúdas estão a fazer uma noitada de trabalho, a fazer bonecos em espuma e num material sintético qualquer, porque estou a escrever sem parar desde que me sentei, como se esta oportunidade fosse única e eu tivesse de a aproveitar, mesmo sem me sentir muito inspirado. Acho que estou com uma overdose de inspiração, de digestão lenta, que vou ter de deglutir nos próximos dias, semanas, meses, até ver os teus olhos de novo à minha frente, até sentir o teu calor de novo, até que fale tudo o que não estou a escrever, até que me fales do que andas a ler.
Na exposição da Anarquia, a Utopia mais bela, aprendi a amar-te por entre estranhas imagens, estranhos mundos fictícios, povoados de personagens igualmente estranhas, mas tudo humano, tudo docemente humano. Nada que exista realmente, a não ser no papel, a não ser nas mentes que os criaram e nos sonhos de quem as vê. Aprendi a amar-te e não te posso ensinar como o deves fazer, tendo de seres tu a aprender, havendo também a possibilidade de não conseguires, de não querer, de conseguires não querer. Agora que aprendi a amar-te já conheço o meio de não me irritares, já conheço a forma de não ter mais apertos de estômago, de alma cada vez que penso em ti, nas tuas palavras, nos teus olhos doces e verdadeiros. Não me importa que figures em tantas páginas do meu caderno e não me importa que figures em todas as páginas que eu escreva daqui adiante. Sou livre outra vez e amo-te livremente, até que volte a Portugal e tu me prendas essa liberdade de novo, se fores capaz de o fazer. Amanhã, no entanto, é outro dia e como já sei que tenho uma poltrona num estúdio à minha espera, posso descansar na ideia que não vou ficar muito tempo sem te escrever.
O mundo cão e a procura do mundo maravilhosamente sustentável. O Fórum de Barcelona para um dia todo e será de facto pouco tempo, para aproveitar uma coisa tão ampla a nível de imagens, exposições, ideias e espaços. Comecemos então pelo início. O caminho até à outra ponta da cidade leva-me também até ti pela miúda que me olha fixamente – devo ter um ar estranho – e que tem uma t-shirt a dizer Brazil, com as cores da bandeira. Percebo ao longo da viagem que a mãe deve ser brasileira, mas que fala com ela em Catalá, pelo que já devem estar radicadas aqui há algum tempo.
Chego e corro o dia inteiro pelo recinto tão grande para tão pouco tempo; tempo que nesta cidade se está a acabar. O mundo de crescimento sustentável, que podemos criar e o mundo actualmente; as guerras, as fomes, as milhentas hipocrisias que as alimentam, como fronteiras, políticas, aversão aos outros, às suas características e diferenças culturais e raciais. Enfim, o costume, mas o costume que me é apresentado em doses massivas que me levam a rebentar em lágrimas ao fim de uma hora. Este foi o acontecimento do dia. Chorei sendo muito raro fazê-lo. Fiquei só a pensar no porquê de o fazer, nas imagens e sons que despoletaram tal estado de espírito, no tudo o que estava e está para além disso que vi e que me fez rebentar. Sem muito tempo para pensar nisso vou absorvendo ideias e mais ideias, como se a minha cabeça não fervilhasse já de uma mão cheia delas. Centremo-nos na base descritiva da viagem e de ti nessa viagem.
Os sonhos daqui são apenas a imagem e sensação da tua pele lisa e macia, como o lençol que me cobre parcialmente e que está aqui, misturada com o ar quente da noite, a luminosidade fraca da casa, a atmosfera carregada de humidade, como a respiração que me diz que tenho sono.
- Vemo-nos por aí, não?
Inevitavelmente sim.
- Telefono-te depois.
- Prefiro que me escrevas.
Entrarás assim na viagem que começa, na longa viagem que me afasta de ti fisicamente. Mas ainda telefonarás para o comboio, antes de eu entrar em Espanha e de cortar contacto com o mundo próximo.
Última noite no sofá verde velho, da casa ampla e igualmente velha da Carré Bani Nous, n.º8. As brasileiras passam sem meter conversa e sigo o exemplo, por estar demasiado cansado para pensar em ideias de conversa simpática. Hoje o dia foi dedicado à arquitectura, ao Picasso e ao Dali. O melhor fica sempre para o fim, para que deixe a sensação de ser pouco, ser sempre pouco. Preferia viver aqui um ano inteiro, ir conhecendo a cidade ao ritmo que ela própria impunha e não ao ritmo que o turismo ocidental e capitalista nos dá. Amanhã há que ir embora, há que trabalhar de dia, descansar de noite, ir de fim-de-semana, ver a família, encontrar os amigos, ter todos os rituais quotidianos bem programados, ritmados, monótonos.
Pelo dia do fim da viagem percorro o Parque Güell onde a natureza e a arquitectura se diluem em harmonia, como os acordes que um flautista toca por entre arcadas de paz, de demasiada paz, que não equivale à minha inquietude, o meu vazio incómodo, para que surjam os pensamentos conturbados que me trazes. Uma italiana solitária troca fotos comigo; que é como quem diz, troca uma foto que me tira, por outra que lhe tiro a ela. O jogo eterno de precisarmos sempre de alguém, de não podermos ser sós, vaguear pelo mundo como se tudo fosse criado por um ser supremo só para nós, ilustres contempladores da criação. Mais um pouco de Dali, logo a seguir à suposta última exposição, para descansar de uma cansativa arte contemporânea demasiado simbólica, demasiado etérea para que a compreenda.
- Então, estás muito longe da fronteira?
Não muito, por certo, mas é noite e não sei dizer. Estou-te a escrever uma carta e pedes-me que seja apenas esta, que não o faça mais, que deixe repousar a ideia que nos conhecemos um dia, no esquecimento progressivo dos dias. É sempre mais fácil trazer à voz palavras definitivas quando não se tem a visão física da pessoa que recebe a mensagem. Percebo que o Até logo se torna um Adeus, que eu evitava, apesar de ser a sombra que me obstruía a mente desde que te deixei.
Cai a chamada, pela fronteira que se aproxima, ou pela mesma vontade sobre-humana que nos fez encontrar durante este Verão, seco e cada vez mais eterno, como se a sensação de vazio que a leve aragem traz consigo se fosse perpetuar por muito e muito tempo.
O vazio imenso de me ir embora, de pôr termo a esta viagem, contigo no pensamento, de voltar ao cenário regular que me espera inevitavelmente. Posso apenas acabar em grande, pairando sobre um mar de nuvens, que talvez seja o meu habitat mais natural; por me dar distância de tudo a que quero fugir e que está lá em baixo; por me dar a doce sensação de que tenho coragem para estar longe, longe da triste realidade de que não tenho coragem alguma. Só me agarro à força de querer respirar, de querer aprender com todas as coisas que me rodeiam, com as pessoas com quem consigo coabitar, como tu, por exemplo.
Fica um grande bocado de mim para trás, talvez fique também a forma como andei a aprender a amar-te. Talvez fiques tu toda lá atrás, como parece denunciar o telefone desligado, o teu mundo cada vez mais desligado do meu. Lisboa já tem um vento frio que aparece por finais de Agosto. Já é noite e milhares de pontos luminosos, a darem alguma luz às trevas, são apenas espelhos da pequena luz que também sou. Entro assim no anonimato da vida citadina, onde nos poderemos evitar, mesmo dos acasos que por vezes acontecem. Entro no túnel do Metro e entro no fundo de mim e do meu novo ser, que vou ter de ir descobrindo. Mas tenho pena. Muita pena e nem sei do quê, e não sei de quem…

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