Os homens não choram de dia

I made my song a coat (…) But the fools caught it, (…) Song, let them take it, For there’s more enterprise In walking naked W. B. Yeats in Responsabilities

Terça-feira, Abril 13

Viagens...(cont.)

O casamento




Dormes, profundamente acordado ou é apenas uma suave brisa de Verão que começou soprar, acordando o mundo todo cheio de luz. Vês-te no deserto de asfalto de um enorme estaleiro de obra, onde poucas árvores fazem jovens sombras, que mal dão para o cão do segurança quanto mais para o passante mais folgado. No interior dos edifícios-contentores respira-se o fresco ar, condicionado pelas máquinas eléctricas diversas que formam o colectivo estético de qualquer gabinete.

Ainda tenho coragem de ouvir bossas novas junto ao meu electrodoméstico, no meu cubículo de materiais sintéticos, no meu buraco ora escuro, ora claro, onde o ouço a marcar a continuidade infinita do tempo, ao contrário de um relógio que marca o tempo e o tempo morto, ambos de uma forma abrupta a que chamamos de tic-tac. Como se o hífen marcasse o som; marcasse a tão longínqua diferença, a tão próxima semelhança entre o tic e o tac, entre o ying e o yang. O Homem inventa a dualidade em qualquer sociedade de qualquer geografia e afinal somos também corpos compostos por um código binário intrínseco, que nos une, que nos torna a todos iguais, pese embora outras diferenças físicas que alguém poderá atender. Posso matar como praticar pacifismo; posso justificar as minhas escolhas de diferentes formas antagónicas, em diferentes contextos. Beber um copo em qualquer lado, pelo sentido do copo, do sentido do sol, da vida que dele transpira, haja ou não água, haja ou não companhia.

Por causa do Amor. Por causa do Amor.

Os caminhos tornam-se bem definidos, em todos os locais, em todos os ecossistemas, com todos os entraves ao horizonte. A paisagem torna-se translúcida, inteligível.

Tudo por causa do Amor.

O mundo torna-se verde e o espaço enorme entre a linha do horizonte e o limite do horizonte torna-se amarelo, pela saudade, fazendo dos portugueses os inventores da cor amarela, como o espírito humano que melhor se cultive neste jardim.

Gosto de ser erva daninha, de viver entre ervas daninhas que só estão, que só cumprem a sua função de estar, até que alguém se lembre de as arrancar, para que floresçam noutros locais. Por vezes, os campos tornam-se um campo de ervas daninhas e é bonita tal uniformidade, essa consequente variedade selvagem que se inventa, para que alimente perpetuamente tudo, sem que se criem os regos, sem que se condicione o caminho da água, o alinhamento ortogonal da colheita. Quando tudo floresce dessa maneira desordenada o equilíbrio natural é cumprido em toda a sua plenitude; é cumprido.

Por causa do amor. Por causa do Amor.

Esplanadas sobre o Sol, por entre amigos, combinando o futuro com pouca minúcia e sem grande preocupação. Espuma das cervejas misturada com a esperançosa espuma dos dias que se vai ouvindo no rádio. Os livros arrumados fisicamente num canto mas cuspidos em constantes jactos, em constantes explosões de poesia de coro à vida. Só anunciadores das boas novas.

Tudo por causa do Amor.

Respirar fundo para observar o deserto em redor, para atender atentamente aos pormenores do cacto salvador, carregado de espinhos, de armas defensivas mais verdadeiras que as humanas.

Deixam de existir pessoas pelos arruamentos dos estaleiros, até mesmo dentro dos gabinetes. Dou por mim sozinho num mundo vedado por placas metálicas. Tenho medo; confesso.

Medo do quê?

De ficar assim, sozinho no mundo, quando quero ter alguém com quem conversar, ou apenas ver, para que sinta a sua presença, a eventual necessidade de ajuda.

Socorro!

Histérico. São só as férias antecipadas pelas férias do patrão. Hoje ninguém volta antes das seis, para picar o ponto, à saída.

O ponto negro vai caindo sobre o horizonte.

Porcaria de espectáculos naturalistas. Fora! Rua!

Parto para a estrada quente no tempo quente, na aragem quente, no asfalto ardente das lentas saídas de Lisboa.

Também aqui o medo da escassez de pessoas, de carros que congestionem o trânsito.

O mundo talvez vá deixando de existir, consoante me aproximo da casa.

O ermo das nossas almas já se tornou menos acidentado, menos inacessível.

Quero chegar a tempo. Quero chegar a tempo.

Tempo para te encontrar no ermo, mas por enquanto basta-me o teu cheiro no veículo de transporte.

Está em todo lado e Afrodite contorce-se no Olimpo.

Zeus, coça-me as costas por favor.

Um pequeno acidente rodoviário; inútil, inexistente para as estatísticas; para que acorde ligeiramente para a realidade dos acordos escritos entre as partes que não se conhecem. Pronto, já assinei. Já cumpri a minha parte de reafirmar que estou aqui perdido pelo meio deste oceano imenso. Posso continuar a viagem onde as pessoas deixam de existir.

Os carros deixam de existir.

Só existes tu e o teu veículo; a tua respiração lenta, que mal se ouve sobre a música melodiosa, porque a queres melodiosa.

Para não ter pressa porque Afrodite espera-me. Tenho quase a certeza, que me espera. Mas quero ter pressa, para além das incertezas absolutas.

Tenho a certeza que não existe mais ninguém no mundo, neste preciso momento em que o acorde me faz lembrar Afrodite, a sua espera, que nem é uma espera desesperada. Não chega mesmo a ser uma espera; é uma certeza como eu não tenho.

Ainda bem que posso pisar o acelerador para que chegue mais rapidamente ao sonho.

Os dias normais da casa onde ainda se aprende a viver, pese embora o cheiro estar já entranhado e não ser só e apenas aquele cheiro a novo. É o nosso cheiro que por aqui vagueia também, lutando contra o primeiro, para que um dia reine por toda a casa, por todos os espaços. O nosso cheiro.

O conforto da tua presença nesses espaços que o nosso cheiro vai conquistando e podemos apenas respirar com calma os momentos em que poderemos estar a sós, no nosso tão singular silêncio. Amanhã virá o tumulto dos sons e das convenções sociais, para entremear a nossa felicidade extrema, que nem o relevo da serra mais próxima consegue conter. Mas hoje somos só nós com o nosso cheiro de silêncios perfumados.

Os silêncios fazem com que durmamos tão descansados quanto as formigas suspensas em nenúfares, do Lago Calmo Onde Nunca Houve A Mais Ligeira Ondulação. Pela manhã atracamos na Ilha de Manteiga Onde Vive o Homem Que Se Esqueceu Quem Era e caminhamos para a margem da Ilha onde nos decidimos casar.

Não ligamos às multidões que nos aplaudem à passagem do tapete vermelho, rumo às portas de um futuro que hoje não tem sombras; somos só nós para além de uma multidão de gente a quem não conseguimos dar a atenção desejada, como se pudesse tratar de um pesadelo em que reunimos a família e todos os amigos, sem que para eles possamos falar, estabelecer qualquer ligação, qualquer pequeno gesto de afectividade. Porque está tudo concentrado em nós e é assim que nós queremos que seja.

Fotos durante todo o dia e com toda a gente possível, para que os momentos se perpetuem, para que as multidões desapareçam, ficando só nós os dois, ficando os momentos em muito mais que um papel brilhante. Posso recordar o cheiro; posso recordar a sensação de te ter ao meu lado, de te poder beijar e consolidar de novo e de novo essas promessas que escrevemos num convite, que nos deram de volta num quadro para pendurar no quarto do amor.

Agora lembro apenas o cansaço do dia anterior e respiro a doce certeza de que continuamos iguais um para o outro e que nada se alterou, apesar do momento importante das condições oficiais firmadas em assinatura ter sido um marco que para sempre irá perdurar. Impregnámo-lo desse significado e com ele temos de viver. Noutros momentos mais difíceis temos imagens da felicidade para recordar, para delas beber as forças necessárias ao enfrentar de mais um dia. Iremos conseguir? Não o sabemos, mas conjugamos-lhe a certeza de que tentaremos os dois.

Seguir-se-á a prol; a imortalidade da concretização social do milagre do termos coragem de estar juntos, de querermos estar juntos, de sonhar o início de um segmento de recta e nem sequer pensar na sua inevitável infinidade. Os corpos protegem-se mutuamente, tanto quanto as almas se unem numa nuvem de energia azul, dissolvida no imenso azul do céu. Afrodite manda florir os campos e Zeus lhes vai dando os sopros de vida e morte necessários ao equilíbrio natural do mundo terreno. Passamos a fronteira da realidade sem medo de termos de regressar, como sempre se volta ao ninho que nos viu nascer. Mas isso é apenas um estado de espírito; nós sabemo-lo; o caminho físico é sempre em frente que prossegue, com a vantagem de podermos olhar para trás para aprender que o sal não é mineral de secura, mas tempero de momentos vitais à continuidade.

Por agora tomamos o barco de cascas de frutos exótico e viajaremos até ao Éden verde, onde as nuvens beijam as montanhas, onde o Homem raramente se atreve a estar. A Ilha de Manteiga vai derretendo no Lago Calmo Onde Nunca Houve A Mais Ligeira Ondulação e o Homem Que Se Esqueceu Quem Era encontrou-se, observando um dos muitos pôr de Sol a que assistiu.

O barco navega por entre o odor a fruta sumarenta e beijo enfim os teus lábios, seguro que estarão sempre por perto, para que me sussurrem os bons dias nos dias mais cinzentos, pelo meio das tempestades mais barulhentas. Agora é só o Sol; agora é só o calor e a leve brisa de Zeus e Afrodite percorrendo o tempo sem espaço.

1 Comments:

Blogger Violet* said...

=) tá lindo o post mtos parabens escreves mto bem =)

as vezes refugiar-nos longe é tao bom... e Barcelona deve ser o maximo um dia quero ir lá =)

11:16 AM  

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