Viagens... (cont.)
Relato de um dia de angústia
Acordo com dificuldade, tentando lembrar apenas o objectivo de deitar fora os resíduos normais da noite, as urinas fruto do sangue lavado. Volto logo a deitar-me, para que esqueça as responsabilidades do dia; de todos os dias que vieram e que se seguem. Percorro os mesmos sonhos com algum esforço, mas o conforto que estes me dão é nenhum, não existe, nem existirá mais por hoje, por muito que insista nessa solução. Em última instância atira-se o corpo à lasciva masturbação, para que este se canse do nada que o dia se transformou, mesmo antes de o ser. Contudo, nada durante a noite o faria prever; talvez o grito – que foi soltado ao longo do jantar familiar – contra as instituições democráticas em que vivemos; talvez todo o silêncio que se lhe seguiu, sem que fosse obrigatório não haver ruído. Caminha-se pela letargia de nos esforçarmos a escrever a Dor que nos corrói, sem que o saibamos. Entra-se pela noite e não queremos, definitivamente, adivinhar essa manhã de angustia que ecoará por todo o dia seguinte. O dia seguinte não existem se o sonharmos com muita força, para que se escreva a Dor no ecrã frio do computador, na força que as teclas do PC permitem. O livre arbítrio permite que nos afundemos ainda mais nas árias musicais já preparadas para o efeito. Em breve percorrerei os horizontes de outro país, bem próximo deste, onde o sonho é travado pelas realidades que nos assomam a caixa do correio. As instituições democráticas devem tê-lo adivinhado, para que nos mandassem as contraditórias missivas do “pagas, mas estás isento de pagar”. Ainda assim tens de sair desse buraco para ir questionar os responsáveis aparentes, que se tornam gigantes do outro lado do balcão frio de mármore, do frio das suas existências pessoais. Agora tens a certeza que não pertences a esta realidade, questionando positivamente se pertencerás a alguma realidade que constróis. A insurreição perante os conceitos será a solução mais fácil, mais procurada, mais passível de obter os resultados que se procuram. Descansa um pouco de toda essa raiva, de toda essa angústia que toma conta do pensamento, alastrando-se agora ao corpo que a sente como agulhas que perfuram a carne, não deitando sangue nas feridas, não deixando cicatrizes algumas que te façam recordar estes dias. Quero recordar estes dias, para que não voltem a existir para além da recordação; para que nao sejam os segundos eternos, mesmo que nao tenhamos relógio algum que nos remeta para esse Tempo desnecessário à felicidade. As vísceras libertam todos os resíduos destes temores, destas formas intensamnente descrentes de viver a realidade. A irritante Calma sobressai da inércia do não escrever, do não pensar mais sobre o assunto, por muito que se insista em pensar, em dissecar essa horrível forma de viver os dias. Chegada a hora de recordar os dioas passados, longínquos, ressuscitam os amigos mortos, vivendo por breves segundos dispersos pelo sorriso apático, metaforicamente amarelado, o frio dá conta de tudo, transformando apenas os corpos, não os destruíndo. Torna-os maiores na sua massa inerte, gelados na sua essência temperamental. Caí dentro do labirinto feito de becos sem saída. Nem sequer tenho um Minotauro para enfrentar, para tomar um café, como o Sena teve o prazer. Não tenho prazer algum porque hoje não é dia de o ter. Azar. O dia em breve acabará e a resolução virá com a noite, com o cantar dos grilos, o coaxar das rãs, o gritar do brilho intenso da lua. Este, não me trará as cidades distantes, a morada dos sonhos viajantes, dos sonhos em geral. O melhor será aguardar, recolhendo-me ao sofá de onde se assiste ao pôr-do-sol. Ali, esperarei a morte do dia, dos sonhos, das cidades distantes, a morte de mim mesmo, que cresço nesta angústia desmesurada. Fingo que encontro a resollução de todos os problemas numa frase solta de folha de jornal. “Estou longe de tudo”, vou para longe de tudo o que existe, transportado pela neblina que envolve a Lua nesta noite fria de quase Primavera. Sei que não pertenço a lugar algum e afirmo-o em voz alta, para que me convença dessa verdade, como se de uma mentira se tratasse. Embalo-me na cantilena expulsa de alto minarete, até que o sono tome conta de mim, como há pouco o fez sem que o tivesse pedido. O dia já se foi e não restará muito mais tempo para que a angústia esmoreça, se vá de uma vez por todas até que daqui a um mês lunar me volte a mexer por dentro. Preciso de um mapa que me guie daqui para a frente. Na sua inexistência terei eu próprio de o elaborar, sem medo de delinear as curvas do que é terra, em confronto com o que é água; não traçando mais fronteiras que essas naturais a que atendo agora. Pinto um fundo multicolorido numa tela branca, para que ponha lá as palavras registadas de um dia igualmente negro. Está cumprida a minha missão e, vozes, parai de me chatear por agora, que não tenho mais nada que fazer. O dia terminou e com ele mais nada...

1 Comments:
Passei para te sentir
Aninha
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