Viagens... (cont.)
Duas prateleiras de vida
Na cidade perdida os mutantes dos mais diversos estilos preparam-se para ir ao cinema.
A realidade ficou atrás de uma porta discreta, mas ainda assim aberta à luz por dois grandes vidros.
Do Livro Colorido ou Os incensos de todos os dias
Vivi duas prateleiras em casa do meu amigo André; ou melhor, foi esse o tempo que vivi em sua casa. Tinha ido por dois dias, por dois dedos de conversa e acabei por ficar duas prateleiras de livros. Lindas e estranhas prateleiras, como o horizonte do viajante se abre ao desconhecido em cada novo passo que dá.
Cheguei a uma sexta-feira pelas cinco e meia da tarde, para que o André me fosse buscar à estação depois de sair do trabalho. Iríamos logo para casa porque ele faria questão de manter o mesmo horário que mantinha todos os fins-de-semana, sendo que o programa se altera ao sábado, mas de uma forma previsível, para que não hajam alterações da rotina. Preferia sempre não alterar os seus hábitos à sexta-feira, para que o fizesse só ao sábado, mas não me preocupei com a confrontação directa com o seu modus vivendi, reservando o passeio pela cidade para o dia seguinte e descansando da viagem nada cansativa que antecedeu esse momento. Contudo, ao longo da viagem facilmente me convenci de ficar em casa, olhando para a multidão que ia povoando o comboio cada vez mais até chegar à cidade. Senti a falta do silêncio e do conforto da ausência de pessoas, inclusive do André que, por certo, se encerraria no quarto e me deixaria à vontade.
O apartamento era suficientemente pequeno para que o considerasse acolhedor, sobretudo quando a experiência do comboio ainda me fazia desejar a comodidade do sofá onde iria dormir. Conversámos convencionalmente ao longo do jantar, enquanto mascava-mos uma comida com forma e espécie, mas sem sabor que fizesse lembrar alguma coisa comestível. Sentados nos pequenos bancos da pequena mesa de cozinha – que felizmente o arquitecto colocara aberta para a sala – podíamos observar todo o espaço nobre da habitação, bem como a decoração minimalista, mas sombria e escura que o André lhe dera. Ao lado da parede-móvel – onde se encontravam os electrodomésticos de som e imagem, silenciados pela falta de ordem para que trabalhassem – dispunham-se a meia-altura duas prateleiras cheias de livros. Reparei nelas assim que entrei, passando-lhes ao lado com a despreocupação de quem teria muito tempo para as observar lentamente, mas ia ganhando uma maior curiosidade com a presença que tinham na decoração, preenchendo também os muitos silêncios entre mim e o meu anfitrião.
Assim que se recolheu aos seus aposentos rapidamente satisfiz toda a curiosidade e ânsia que crescia de segundo para segundo. Tinha acabado de ler um ensaio do Orlando Ribeiro sobre O Portugal Mediterrâneo e Atlântico e o seu discurso escorrido e fluente levou-me a desejar parar de ler ciência e andar uns tempos a ler coisas mais leves, ainda que pesadas. O André tirou um livro, antes de se retirar e sem palavras algumas indicou-me por onde eu poderia começar; pelo lado oposto ao que ele tirou o livro. Talvez me tenha visto erguer a cabeça para a prateleira superior, olhando de soslaio os livros, procurando alguma regularidade visual, alguma disposição que mais se repetisse, para que depois iniciasse a análise minuciosa pelo lado esquerdo com a cabeça tombada para o lado direito. O primeiro livro era uma edição d’O Processo de Kafka, que resolvi ignorar por procurar um equilíbrio nas leituras e por não desejar querer ler ciência outra vez; este volume facilmente me faria desistir e preferi não arriscar. Prefiro atravessar o oceano atlântico para o segundo livro e pegar sem dúvidas na Música do acaso do Paul Auster. Deitei-me no sofá e iniciei logo a leitura sem demoras ou preliminares. Não pensei no acto de lhe ter pegado e de me ter apetecido lê-lo e o acaso caiu-me em cima durante toda a noite, para que despachasse mais de metade do livro. A noite toda é uma forma de expressão, porque não desisti da ideia de ir passear para a cidade durante o dia.
Levantei-me para almoçar, espreitando o frigorífico. O André saiu do quarto com o ar de quem já fizera tudo o que havia para fazer num dia, tudo numa manhã. Acordei com ressaca literária, que curei com leite e fruta e segui o meu anfitrião pelas ruas da cidade. Tomámos um café no Miradouro da Graça e seguimos pelo trajecto do 28; umas vezes a pé, conversando o possível, de acordo com a vontade de cada um; outras vezes de eléctrico que, quando ia com algum banco livre, me dava a oportunidade para ler alguns trechos do livro. Talvez pela beleza da viagem a história me tenha feito rumar à desilusão de uma forma progressiva até ao seu fim. Terminei-o à porta de um bar do Bairro Alto, protegido pela iluminação pública, enquanto o André tentava convencer uns putos a que nos deixassem fumar um charro com eles. A porcaria da vodka que bebi deu-me azia e foi um terrível prenúncio físico para a digestão do livro. Quando cheguei a casa, logo que o André se refugiou todo o Domingo no seu quarto, Peguei hesitante no primeiro livro que me saltou à vista enquanto arrumava o outro. Tive medo de Quando os lobos uivam, por achar que o neo-realismo português não se adequaria àquela hora da manhã, nem à minha falta de sobriedade.
Penso que nessa altura já tinha traçado o objectivo de ler as duas prateleiras de livros, ou tratar-se-ia de uma ilusão provocada pelo consumo de álcool e haxixe. Felizmente o livro despertou-me logo nas primeiras páginas pela sobriedade que impregnava à minha leitura. Lembrei-me da ingenuidade com que também temi ler o Vagão J do Vergílio Ferreira, mas num contexto diferente em que o medo nascia apenas do conceito existencialista que atribuía a esse autor. Enfim, todos os traumas passam e muito bem. Devo ter adormecido pelo meio da tarde depois de saciar a fome de comer muito que me acometeu. Fiz umas sandes de pão com chourição e queijo e bebi água fresca da fonte-frigorífico onde o André a guardava engarrafada. Depois, dormi até a manhã de segunda-feira, na hora em que o André saiu para ir para o seu trabalho.
Toma uma chave de casa. Encontramo-nos pelas oito da noite, se quiseres jantar.
Não sei se janto ou se vou estar em casa a essa hora. Nunca sei nada nem procuro saber. Logo se vê, meu amigo.
Depois de um banho sai para comprar tabaco e tomar uma boa dose de cafeína. Fui lendo a história dos lobos da serra com a pressa de um estudante a quem lhe houveram imposto uma tarefa para a qual já não tinha paciência. Assim que o terminei fui colocá-lo na prateleira de baixo, do lado direito, onde se encontravam as Almas Mortas do Gogol e o Morreram pela pátria do Cholokov. Lembrei-me dos concelhos literários do meu pai e terminei a aventura neo-realista com uma profunda dose de saudosismo paternal.
Precisava relaxar, mas como sou demasiado intuitivo fui pegar na Casa do Incesto de Annais Nin. Bebi as suas palavras durante a toda a manhã e, pela hora de almoço, já tinha forças para ir dar umas voltas pelas ruas da cidade. Peguei num pequeno livro que se encontrava do lado esquerdo da prateleira inferior sem reparar no que seria. Tinha aspecto de velho e, logo, eu não deveria ter lido ainda. Calhou-me na rifa uma dose de poesia; A invenção do amor e outros poemas, numa velha edição de 76. Despertou-me a curiosidade pelo Prefácio ou advertências iniciais. Estava na Avenida da Liberdade quando li o primeiro poema, tendo a felicidade de imaginar o Amor, tomando um café numa esplanada. O vento fazia cair as folhas das árvores, transportando-as para os mais diversos objectos, animados e inanimados que povoavam a paisagem. As folhas seriam os confetis da festa.
Resolvi passear alegremente. Senti-me com força para enfrentar o Adamastor e a Cidade ocupada, poema que se seguia no livro. Fiquei estático a olhar o rio e o sol que nele se banhava até que se transportasse para a linha do horizonte. Pensei na Cidade ocupada e no porquê de eu me encontrar aqui, percorrendo-a, tentando anular o tempo que não dominava.
Segui para casa do André, apanhando-o a tempo do jantar, cujo horário cumpriu escrupulosamente, pondo-se logo ao fresco para o seu refúgio onde se prepararia para mais um dia de trabalho. Achei um pouco triste que nem sequer tivéssemos falado após o jantar, mas rapidamente resolvi ir buscar outro, lembrando-me que tinha falado disso ao André. Encontrei uma edição estrangeira de um romance de Chatwin em língua original, The Songlines e achei-me com coragem de experimentar um novo autor de que tanto tinha ouvido falar. Não me arrependi de forma alguma, porque só consegui adormecer pela manhã. Contudo, ler em língua estrangeira também retardava o ímpeto de descobrir mais sonhos nas páginas seguintes, acabei por não avançar ao ritmo que tinha conseguido até então. Por outro lado, Bruce fazia com que viajasse frequentemente, obrigando a inúmeras pausas de leitura, umas mais prolongadas que outras.
Com o despontar dos primeiros raios de luminosidade que a janela da porta do quarto deixava passar – pensando que seria, em breve, tempo do meu anfitrião partir – esforcei-me ainda para me manter acordado, num torpor que já não me permitia ler, para que o observasse, dirigindo-se ao frigorífico, bebendo leite à pressa e saindo para a rua sem articular qualquer palavra ou som. Adormeci pensando no contexto hipócrita em que lia a história de viagem, tendo por vizinho o André, preso ao seu trabalho, mas estando eu também preso às suas duas prateleiras de livros.
Malditas terças-feiras. – Pensei, de modo que resolvi ficar em casa todo o dia a cumprir o meu objectivo.
Dormi por muito tempo, fazendo alguns lentos acordares para pegar numa e outra página do livro. Tornou-se difícil lê-lo e, pelas três da tarde, desisti de continuar a insistir. Coloquei música de dias de chuva no leito de Mp3 e deixei-me percorrer sonhos surrealistas de mundos quase desertos de vida.
Fui acordado, pelas seis da tarde, por toque leve de mão no meu ombro. Abri os olhos quase sem força e por certo sem sobressalto, apesar de não esperar ninguém que viesse até aos meus sonhos. Foquei uma figura angélica, de nariz pontiagudo, a face a três quartos aproveitando a luz tosca do candeeiro, abrindo o sorriso para perguntar, “Quem és tu?”.
Jean-Arthur. E tu?
Gala.
Sentou-se no pequeno sofá em frente, sem o peso da sabedoria, sem se voltar, mas com uma naturalidade desmesurada como o seu sorriso. Fechei definitivamente o livro e regressei a Portugal, sem o peso de uma longa viajem, sem a saudade dessa mesma viajem. Olhei a lombada da Montanha Mágica do Mann antes de esfregar os olhos e esboçar um sorriso tímido, mantendo-me num silêncio que, logo desde o início, não foi incomodativo. Este foi quebrado num instante qualquer, na forma em que o sorriso e o olhar não se desfizeram, continuando o diálogo mudo que se travava.
Sou amiga do André. – Disse com a subtileza inesperada de quem desiste de um jogo sem o perder.
Eu também. – Respondi, tentando disfarçar a surpresa e nem precisei de um espelho para perceber o ridículo em que caí.
Eu chamo-me Carolina. – Disse com um ar sério, mas sem arrependimento de qualquer mentira.
Pensava que te chamavas Gala – Retorqui.
Como te chamas tu? – Disse sorrindo e repousando de novo as costas no sofá. – Pára lá com jogos.
Jean-Arthur. – Que se lixasse. Já estava coberto pelo ridículo de qualquer forma, que preferi manter a muralha de esferovite como protecção.
Então e o que fazes Jean-Arthur? – Continuava a sorrir, sem esforço e sem exagero.
Leio duas prateleiras de livros do André. – disse, não me preocupando em parecer sincero, mas pensado que era levado a sério.
Só fazes isso?
Só fazes perguntas?
Hoje vamos jantar e beber um copo. É uma afirmação.
Duvido que consigas arrancar o André do lar, doce lar.
Como podes duvidar da minha capacidade de persuadir o André. Não me conheces, nem à minha relação com ele. – Continuava a sorrir, pelo que não me preocupei com a resposta.
Não leves tão a peito a observação. – Disse. – Só pensei nele quando a expus. Desculpa se te menosprezei.
Retirou-se para um longo silêncio que se seguiu, voltando ligeiramente a face para olhar para o nada, até que percebi que se iria demorar nessa pose e não encontrei desculpas para continuar a olhá-la. Peguei de novo em Chatwin com outro fôlego e deitei-me, assumindo uma leitura que já não me transportava para longe, logo na valsa final das imagens em que seria mais necessário que o fizesse.
Se assim fosse, teria saído dali de rompante, sem olhar para trás e que se lixassem as duas prateleiras de livros, bem como os objectivos estúpidos que se inventam quando nada mais há a fazer.
Desde esse ponto da história que se desenvolviam as mais diversas citações de outros livros e de outras histórias, tentando explicar a tendência inata do ser humano para caminhar, que é como quem diz para ser nómada. A liberdade de escolha de geografias a viver seria a forma mais sublime de liberdade que o Homem poderia alcançar. Talvez lhe tenha dado razão, recusando-me a olhar no espelho da minha triste prisão.
Por todo o tempo da leitura fiquei preso à presença de Carolina por uma grossa corrente analítica. Tinha a chave do apartamento do André e isso bastava para que dançasse entre a leitura e a pergunta preocupada do que seria ela para o meu amigo. Tentei quebrar a corrente, que só cedeu quando a Carolina se levantou, dirigindo-se para o espaço-cozinha e começou a cozinhar. Conhecia com minúcia o lugar de todos os objectos e alimentos. Resolvi perder-me de novo no deserto laranja da Austrália, que me cantou a Esperança e a Ciência nos Homens e em mim próprio, apesar de ser desnecessário fazê-lo. As repetidas citações tornaram a história monótona, fazendo com que rapidamente o acabasse, lendo na transversal os conjuntos de palavras que me faziam divagar em demasia, retendo-me noutros conjuntos cujo sumo não me azedava o não cumprimento dos sonhos.
Dividi depois o olhar entre a Carolina e a prateleira inferior, onde depositei o livro, indeciso sobre o que ler, sobre o porquê de a olhar.
Alguns gostam de poesia é uma óptima escolha. Uma antologia de poesia polaca. Não sei se conheces?
Primeiro olhei-a surpreso, por ter tido a coragem de se intrometer nas minhas escolhas; depois chegou o André e não tive tempo de pensar mais no assunto.
Não vais lê-los todos, de qualquer forma?
Alguns já li. – Respondi bruscamente.
Que história é essa de os ler a todos?
Aqui o Jean-Arthur quer ler as tuas duas prateleiras de livros. – Disse por entre dois beijos de face e um breve abraço, talvez fruto da frequência com que se encontrem.
Ainda bem que não destinei o Jean-Arthur a dormir no meu quarto. – Disse o André com um olhar cúmplice. – Teria de pensar em partilhar renda com ele.
Jantamos bolonhesa e depois vamos para a noite.
Nem penses nisso. Tenho trabalho amanhã.
Retive-me no silêncio da capa da antologia, para depois reflectir o olhar nos talheres dispostos sobre a mesa. Entrei no outro lado do espelho e bebi um chá rápido com o Coelho de Cartola. Cheguei ao jantar a tempo da sobremesa, feita com os restos mortais do Humpty-Dumpty. Os meus convivas sorriam entre si e percebi que demorara demasiado tempo com o chá, mas estava quente e tive de soprar imenso até o puder sorver. Ainda assim não tive pressa. Não queria ter pressa.
Pelo menos vens tomar um café connosco.
Seria difícil contrariar a amiga naquela noite, mas o André não estava assim tão anti-social que não pudesse descer uns lanços de escadas e atravessar a rua até ao café vizinho. Pensei que acabaria por sair connosco e levei a maldita antologia como companhia. Cometi um erro, porque antes de acabar de tomar o café e ao acender de cigarros, já estava a declamar um poema, em voz alta, para dar a entoação certa às palavras, a colocação fonética adequada a uma melhor expressão dos sentimentos. O André procurava esconder-se, movendo os olhos entre as bochechas coradas; Carolina sorria fazendo um olhar compenetrado na minha leitura. Não repeti mais nenhum poema, não querendo abusar da sorte. Os poemas que se seguiram li-os em silêncio, trocando algumas impressões com os meus amigos, procurando fugir da imagem de autista que estava a fomentar.
Saímos para o frio da noite, despedindo-nos do André, que rapidamente rumou à paz e tranquilidade do seu quarto. Seguimos por um punhado de ruas, conversando sobre o que estávamos a ler, arriscando assim dizer mais qualquer coisa sobre a forma como olhávamos o mundo. Ao iniciar a descida pela Avenida da Liberdade calámo-nos um instante, que me permitiu levantar a cabeça a olhar a copa das árvores projectadas no céu estrelado.
Podes recitar todos os poemas que te apetecer. Não te tomo por louco.
Uma avalanche de seriedade tomou conta de mim. Olhei-a fixamente e agradeci-lhe do mais profundo de mim, o facto de me levar a sério.
Não devias dizer essas coisas.
Não deverias olhar-me assim. De onde são esses olhos Jean-Arthur?
De qualquer parte do mundo, mas estão registados em Portugal.
No norte?
Em Coimbra.
De onde é esse sorriso? Holandês? – Perguntei sem medo.
Porquê holandês? É de Lisboa.
Fizeste-me lembrar a Dama com o brinco de pérola.
Calámo-nos e prosseguimos até ao Bairro Alto em silêncio. Coloquei a minha boina, para proteger a cabeça do frio e para segurar os pensamentos. Interrompi o silêncio após um cigarro no primeiro bar onde fomos, recitando um poema sobre uma estação exilada na não-existência. Pudemos retomar a troca de informações mais precisas sobre nos, chegando mesmo aos sonhos que se podem partilhar com os amigos. Pudemos prolongar a noite até às primeiras horas do dia, porque nada tínhamos que fazer estando acordados. Todo esse tempo foi, no entanto, demasiado idílico para que acreditasse que era real. Terminámos o livro ao pequeno-almoço e separámo-nos. Segui pelas ruas embriagado, no meu corpo cheio de felicidade. Talvez não fosse o corpo, mas sim um pote, que parti na calçada mesmo antes de entrar no prédio onde vivia o André. Tive medo e rumei às prateleiras para o exorcizar da forma mais célere possível.
Passei o resto do dia acordado, uma vez que seria difícil tentar entrar em sonhos, ou talvez estes me conduzissem a locais que eu não desejava. Para aplacar os ânimos comecei por ler Dez horas e meia numa noite de verão de Marguerite Duras, porque gostei da capa da edição. Logo de seguida caminhei para A tarde do Sr. Andesmas, da mesma autora, pela impressão que a primeira história me havia deixado. O amor que nasce pela substituição de um outro, ocorrendo sempre uma paixão efémera, condenada ao fracasso desde o seu início, ou seria o cepticismo do narrador que abundava em demasia. A leitura rápida de ambas as histórias alertou-me para a falsidade dos jogos do tempo, para o romance que o preenche, nascendo sempre ao longe de quem o observa, de quem o analisa, roçando os limites dos cenários, muito para além de todos os horizontes longínquos, descritos sobre o dia que finda.
Devo ter adormecido nos meus pensamentos, rumo a um sono agitado, certamente povoado pelos mais estranhos sonhos, onde as mais estranhas personagens se cruzavam. O André despertou-me – qual salvador da mente decrépita – na manhã seguinte, antes de seguir para o trabalho.
Então pá, assim não avanças na leitura das duas prateleiras. – Sorria abertamente, pelo que entendi as palavras e o sorriso como um convite aberto a que permanecesse ali o tempo que desejasse. – Ou se te distrais ainda arranjas um porto onde atracar.
Achas – Perguntei, com a entoação falsamente sarcástica.
Tenho a certeza. O número de telefone da Carolina está em cima da mesa.
Mas…
Telefonei-lhe a perguntar o que te tinha feito na noite anterior. Nada de mais para além da curiosidade de saber se tinhas apanhado um pifo. Percebi que não quando me disse que adorava a tua visão do Realismo Socialista. Grande conversa, hã?
Mas…
Vais convidá-la para jantar aqui em casa; vais às compras, contribuis para o frigorífico, que está bastante magro e demonstras os teus dotes culinários pouco realistas. Eu hoje não venho dormir a casa porque vou visitar uma amiga minha. – Finalizou assim a conversa e saiu a correr como era seu apanágio.
Não tive tempo de acordar e nem quis pensar em tudo este diálogo até à hora de almoço. Paralisei, a olhar o tecto branco-sombra e esvaziei a mente quase por completo. Em determinado momento ouvia a minha respiração profunda, que me transportou para um mar calmo, numa praia enorme e deserta, rodeada de palmeiras. Ouviam-se ali as gaivotas ao longe, misturado com o ruído das pequenas ondas que afloravam a areia. Ao longe, erguia-se uma estátua de pedra para onde me dirigi. A sua beleza marmórea fez-me perder, sentado em sua frente, percebendo os pormenores e detalhes dos contornos do rosto enorme, ajudado pela sombra que neles vagueava lentamente.
Despertei do torpor de sonhar acordado com um ronco de estômago. Saltei para o frigorífico e elaborei uma lista de compras em cima do joelho dormente, para que pensasse na ementa do jantar apenas em frente às prateleiras do mercado. Antes de sair teria de telefonar e ronco de estômago caminhou numa vertiginosamente para a azia. O papel que o André deixara em cima da mesa tremia-me nas mãos e as teclas do telefone teimavam em fugir à ponta do dedo polegar. Não aguentaria a angustia se Carolina não atendesse, que me enganasse no número de telefone; muito menos que uma voz mecânica me informasse que o número não existia, quiçá que Carolina não existisse. Descansei, quando a sua voz se sobrepôs a um ruído de fundo quase incomodativo.
Sim? Jean-Arthur? És tu?
Sim, sou eu. – Balbuciei com uma rouquidão inicial. – Como adivinhaste?
É o número do André e ele não costuma estar em casa a esta hora.
Pensei que já esperavas que te telefonasse a convidar para jantar, como o André é que fez o arranjinho. – Arrependi-me de imediato de o ter dito, mas tarde demais.
És sempre assim tão energúmeno ou encontraste um manual nas prateleiras?
Desculpa. Estou nervoso com a ideia de jantar contigo, mas adorava fazer-te uma refeição e usufruir da tua companhia.
Está bem. Aceito.
Desculpa…
Não se fala mais nisso. Até logo.
Desligou sem me dar tempo de emendar o erro e minorar a angústia que me iria acometer a partir daqui. Nem lhe perguntei o que preferia comer, se havia alguma coisa de que não gostasse. Detestei não ter um farol que me alumiasse o caminho até ela, temendo chocar contra o firme rochedo com que a caracterizava.
Saí para a rua, para o vento forte que se fazia sentir e que me calava os pensamentos de culpa, ainda que alguns existissem, soprados pela intempérie, fazendo com que caminhasse absorto, mais tempo e mais metros que o necessário. Talvez fosse o trânsito frenético que andava de uma forma muito rápida, mas assustei-me por mim ou pelo movimento exterior a mim e refugiei-me no primeiro mercado que encontrei depois de despertar. Mesmo este estava com gente em demasia e tive de optar por uma simples carne branca de peru, acompanhada de legumes e de um molho-pimenta-suave, só para ajudar a saborear o vinho. Este último foi o ingrediente que mais tempo demorou a ser escolhido, como trunfo necessário a ultrapassar qualquer derrapagem culinária. De resto, seguiram-se as compras corriqueiras para os restantes dias, sem que existissem preocupações sobre possíveis críticas do André.
Pensei excessivamente nos assuntos jantar e Carolina para que continuasse a preocupar-me com coisas corriqueiras. Pelo caminho de regresso a casa tentei absorver mais de tudo o resto que me rodeava, esquecendo-me dos problemas por mim criados. Eu, o inútil que nada mais tem a fazer do que ler duas prateleiras de livros. As pedras da calçada tomaram então uma tonalidade suja, como as fachadas dos prédios, como todas as expressões humanas de vida; animadas e inanimadas. O vagabundo deitado na rua, abrigando-se do vento e qualquer esquina irregular dos edifícios; os polícias que passavam multas, alheios às explicações dos condutores em falta. Mais à frente, um carro topo de gama, estacionado em segunda fila, era suporte para um tipo de fato executivo a falar ao telemóvel. Não existia para os polícias, mas eu conseguia vê-lo a sorrir para dois tipos com casacos de cabedal que guardavam prostituas, numa ruela escura do outro lado da via.
Até chegar a casa do André não consegui encontrar a Literatura em lado nenhum, porque a minha noção de Arte seria mais idílica que toda a crueza da realidade percepcionada; nem nas vitrinas dos espaços comerciais que a exibem; nem nos selos comercias que a estampam em volumes coloridos; nem nas vozes negras e críticas dispostas pelo branco dos jornais; pasquins que com ela brincam num jogo demasiado sujo para que nele acredite. Toda a Arte morreu, ficou fria, como a fachada dos edifícios a que alguém quis dar vida. Se a Arte era a salvação para a triste condição humana, onde estava então naquele momento, naqueles cenários? Como confrontá-la com aquela escuridão, para que lhe desse luminosidade? Como poderia lustra a sujidade opaca desses materiais inertes que definiam os espaços?
Cheguei enfim ao porto seguro, pousando as compras na mesa e correndo ao WC para lavar a cara e tentar lavar a alma. Sentei-me no sofá, respirando fundo e tapando os olhos com as palmas das mãos. Segurei a luz, os pensamentos e a loucura, recordando a conversa que tinha tido com o psiquiatra uns dias antes de iniciar a viagem.
Homem; vá passear, conheça pessoas novas e liberte-se dessa prisão onde se encerra.
Já não acredito nas pessoas Sr. Doutor, perdi a fé que sempre tive.
Então procure outras pessoas que tenham perdido a fé. “O homem não é uma ilha” e tende sempre a procurar iguais a si próprio. Quando se perde a fé, como no seu caso, dificilmente se recupera, mas haverá por aí muita gente nesse estado.
O cepticismo que me tolda o olhar o mundo que me rodeia leva-me usualmente a que me considere vítima de algo exterior a mim. Tento fugir desse estado de espírito, lembrando-me das vidas iguais à minha que tanta gente viverá. Nesse dia poderia pensar no André e nesse ritmo monocórdico com que vive os dias que por ele passam, mas do André chegaria à Carolina e não queria voltar a pensar nela até que começasse a cozinhar o jantar. Mesmo nesse momento, teria de pensar nela enquanto a mulher linda que é, nessa valorização estética, nessa irracionalidade de a sentir.
Olhei para o escape das duas prateleiras de livros e estudei-as longamente, colocando de um lado os livros que já tinha lido, eliminando-os e adivinhando o tempo que demoraria a ler os que restavam. Resolvi organizar os pensamentos dando ordem à disposição dos livros. Na prateleira de cima coloquei os despachados, aqui ou ao longo da minha vida. Quando a preenchi guardei o espaço da esquerda da prateleira de baixo para os que já não cabiam em cima. Senti um certo desalento por perceber que acabaria em breve, mais cedo do que previra, mais cedo do que queria. Os resquícios do cepticismo, que se abateu sobre mim após as compras, levaram a considerar a hipótese de desistir daquele ridículo intento. Nesse momento, em que media a tarefa que tinha pela frente, percebi que o desalento se devia à necessidade de criar um novo objectivo; longe desta cidade, longe da casa do André, longe da possibilidade da presença de Carolina. Através dela renasciam a Arte e a Literatura, em mim, que era o lugar mais seguro onde guardá-las; o único lugar seguro que conhecia. Só a partir de mim é que essas duas criações irmanadas poderiam espraiar-se para o resto do mundo. Carolina representava apenas a nascente desse reviver, cabendo-me a mim conduzi-las pelo vale previamente escavado.
O tempo, a existir, voou para longe nesses breves instantes e peguei na Origem da Tragédia de Nietche sem reflectir. Tinha de escolher um livro antes de começar a cozinhar, ainda que não o lesse de imediato. Seguiu-se a acção de preparar o jantar, de cozinhar os alimentos enquanto o vinho respirava, aberto, dentro da garrafa, junto ao fogão. Coloquei a mesa de uma forma germânica e procurei um pau de incenso que queimasse de imediato, tentando criar uma atmosfera onde a minha túnica não fosse absurda. Era a minha vestimenta favorita, mesmo em tempo frio, uma vez que me dava a liberdade de movimentos que precisava para libertar também o espírito.
Chegou a Carolina e nem precisei de pensar em qualquer possível diálogo, percebendo que o silêncio seria compreendido, mesmo requerido da sua parte.
Olá. Está pronto o jantar.
Sim.
Podemos comer e saborear o vinho em silêncio, enquanto o resto do pau de incenso queimava, enquanto as duas prateleiras de livros perdiam a sua importância. O par de olhos de Carolina observava-me com a mesma atenção que os meus lhe davam a ela. Pude inebriar-me da sua altivez nórdica; da dança do seu rosto, provocada pela luz ténue do espaço sala, ajudado pela luminosidade irrequieta de uma vela; do seu silêncio compreensivo. Antes da sobremesa-fruta deixou verter uma lágrima com sabor a sal, que o meu dedo polegar transportou até aos meus lábios. O silêncio manteve-se até ao café, interrompido pontualmente pelo traquitar dos objectos-louça.
Dás-me um cigarro? – Perguntou, com a disposição de iniciar uma conversa-cigarro.
Claro que sim.
Que andas a ler agora?
Hoje não li nada. Escolhi a Origem da tragédia e ainda não sei se o vou mesmo começar.
É importante que o leias. Cumpres progressivamente o teu objectivo e é um bom livro. – Sorria finalmente, contagiando-me com a força da sua boa disposição.
Não percebo qual é o teu lugar teórico nesta história de duas prateleiras de livros. Choveste-me em cima depois de uma travessia no deserto autraliano e a minha alma nómada procurou refugio na Literatura. Já estava refugiado e não me deveria ter chovido em cima. Talvez, impreterivelmente, tivesse de me molhar.
Eu também não sei qual é o meu lugar na tua história, mas também não quero ocupar lugar algum. Os olhares que conduzimos pelos silêncios bastam-me e cresci uma nova mulher depois da noite em que me recitaste poemas que já conhecia. Possivelmente não terei de iniciar um novo caminho contigo, basta-me que tenha começado a partir de ti.
Vou-me embora dentro de uma semana – não sabia ainda se seria uma semana – seguindo para a Estação de comboios que me conduza a outro objectivo. O meu caminho terá obrigatoriamente a Estação e um comboio como meio de locomoção.
É inevitável que assim seja. – Afirmou – Irei acompanhar-te à Estação e serei o ponto estático, com que medirás a distância, no horizonte. Para além disso, serei a saudade igualmente estática que morrerá quando sair da Estação. Os livros, continuarás a ler noutros locais, mas a minha saudade ficará ali, junto á linha do comboio que partiu e será irrecuperável assim que se dissolver na atmosfera.
Não encontraremos de novo a saudade. Viveremos algumas vezes nas mesmas cidades, uma ou outra, ao longo da vida, mas na distância imensa de percorrermos a mesmas ruas, pertencendo a mudos distintos, talvez a realidades paralelas. Não me reconhecerás e eu não te conseguirei ver, mesmo que contigo cruze no espaço. A saudade poderá existir ainda, na frágil memória que teremos um do outro. É pena que assim seja.
Não somos donos de nos próprios e tudo acontece porque tem de acontecer?
Simplesmente tenho de partir e tu compreendes que tens de ficar; tudo o resto será uma paixão efémera que fizemos nascer acidentalmente e que morrerá, como Shakespear a mataria nos seus sonhos.
Passando a ser então uma paixão eterna que irá corroer os corpos até á morte de ambos?
Não respondi e Carolina não continuou a conversa. Ambos saboreámos o vinho que restava no fundo da garrafa, cada um com os seus pensamentos de olhar distante, talvez para dentro de nos. Pensei que tínhamos falado demais, que deveria procurar os seus lábios e o seu ser interior, escondido nesse olhar distante. Ela, eventualmente, terá também pensado nessa possibilidade, mas ambos permanecemos estáticos durante mais uns minutos. Sentou-se no sofá e eu arrumei a mesa e comecei a lavar a louça. Tenho a firme certeza de que essas acções de limpeza limpam muito mais do que os objectos dessa acção.
Carolina olhou demoradamente para as prateleiras dos livros. O facto de manter a cabeça direita permitia supor que pensaria nelas enquanto um todo, não observando as especificidades das lombadas. Essa suposição fez voltar a angústia e procurei lavar tudo rapidamente para que lhe fosse cortar os pensamentos, bem como acabar com essa angústia que crescia dentro de mim.
Carolina.
Sim Jean-Arthur.
O doce da tua voz não está escrito em nenhum livro, assim como o doce do teu ser. Ambos ficarão na minha memória, mais do que todas as ideias de todos os livros.
Acredito Jean-Arthur, porque é essencial para ti que acredite. – Os seus olhos tomarão uma tez avermelhada. – Será portanto a nossa despedida; hoje já, apesar de te ires embora só para a semana?
Não digas isso. – Perdi o jogo com esta frase. Mergulhei na hipocrisia que me afastou da realidade, da sinceridade que assumimos como essencial ao nosso relacionamento. Caí no túnel multicolorido de tanto a amar, percorrendo-o numa vertigem descontrolada. Deveria finalmente procurar os seus lábios, mas resolvi agir em conformidade com a minha pequenez, deitando-me a seu lado no sofá.
Percorremos a noite em silêncio, de olhos abertos que evitavam as prateleiras e os olhos do outro. Trocámos pequenas carícias de pontas de dedos, acidentais ou fugidias. Pela manhã, quando a luz se tornava mais forte na janela da porta do quarto do André, Carolina adormeceu e retirei-me calmamente para uma cadeira em sua frente, cobrindo-a com um cobertor. Perdi o sono e penso que nunca mais dormi desde esse dia.
Peguei na Origem da tragédia e, estranhamente, a complexidade do discurso de Nietche não travava a rapidez com que o absorvia. Quando Carolina acordou, pelo meio-dia, decidimos ir tomar café na rua. Peguei no livro eu lia e escolhi um outro, para ler mais tarde, Os sete loucos de Roberto Arlt. Tomámos café, comigo completamente distraído do perigo da junção dos dois livros que trazia na mochila. Um olhar doce, um sorriso e uma conversa amena podem-nos afastar dessa objectividade realista com que temos de avaliar os livros que se escolhem para ler, de os avaliar previamente. Fiquei sozinho em poucos minutos, para que resolvesse terminar a bomba em diversas esplanadas da cidade. Não combinámos outro encontro, porque ambos sabíamos que ele aconteceria inevitavelmente.
O espírito dionisíaco consolidou-se fatalmente enquanto li as primeiras páginas d’Os Sete Loucos. Tornei-me invencível frente a um fracamente fundamentado Super-homem, para que depois aprendesse os subterfúgios morais onde o Homem se refugia, para que cometa toda a espécie de crimes, legais e morais. Mais nada travou o meu pensamento e todo o mundo fluía – equilibrado nos julgamentos a que as minhas observações conduziam – a caminho de casa do André. Ao percorrer os degraus da longa escadaria sentia-me a cair pelo funil dos meus sentidos, dos meus pensamentos, que só com esforço consegui dominar, alcançando o sofá onde dormi ou desmaiei, permanecendo em inconsciência por largas horas.
Quando abri os olhos, li compulsivamente o que restava do livro, escolhendo outro de imediato. Ontem, de Agota Kristof, prolongou a loucura, mantendo-me absorto. Não denotei qualquer movimento pela casa, até que o André pousou a mão sobre o meu ombro. Dei espaço a que se sentasse e fê-lo, em silêncio como eu desejava, mas com o semblante carregado que eu temia ver. Firmei, nesse ar carrancudo, a amizade que nunca tínhamos ainda admitido, mesmo quando disse que não tinha de terminar as duas prateleiras. Respondi-lhe que era teimoso quanto aos objectivos a que me propunha.
Deverias ser tão obstinado perante outros propósitos.
Tenho medo…
Toda a gente tem, meu caro amigo. Não queiras ser diferente e imune ao medo, só porque achas que nada podes partilhar com alguém que nunca te poderá compreender.
Poderás compreender-me?
Não tenho essa pretensão. Consigo reter-me nos silêncios dos que não julgam, dos que não temem afirmar a sua ignorância.
Obrigado.
Saiu sem quaisquer recomendações. Pude aquecer uma caneca de leite e pensar sobre o futuro próximo de uma forma inútil. Terá sido importante o leite, uma vez que me deixei repousar por toda a tarde, sem a preocupação de achar que este seria um dia diferente de todos os outros. Só o entendi como tal quando, pelo cair da noite, o André e a Carolina irromperam pelo meu espaço adentro, pegando no meu corpo dormente e arrastando-me para um convívio que adivinhei como o derradeiro. Eu sabia que o era e agi despreocupadamente, deixando-me arrastar da forma mais hedonística que a minha vivência me ensinou. Carolina permanecia distante a esta forma de estar, encontrando de novo o equilíbrio entre nos que sempre me incomodara.
O tempo passou rápido por entre as conversas triviais do costume, dos jantares de fim-de-semana-entre-amigos; vinho à temperatura certa amoleceu ainda mais o meu corpo e o meu pensamento, que nada fez por reter na memória desde o primeiro gole, talvez mesmo desde a última conversa a sós com o André.
**
És uma besta. Um estúpido.
Não era o amigo, que se coibia de julgar, que falava, mas o amigo comum de dois seres confusos entre si, como se as energias não mais fluíssem entre ambos, para além da tensão nuclear de onde provinha a energia atómica. Não beijei mais a bela rapariga que serviu de poço das frustrações, para responder ao André com o silêncio dos olhos baixos. A carolina foi ao WC do buraco escuro onde nos divertíamos à força e o meu anfitrião aproveitou para dar um ar da sua graça intimidativa, que eu mal conhecia.
Burro mesmo, pá. Vê lá se paras com essa merda e tentas acabar a noite minorando os estragos.
Já tinha desistido de pensar e de me culpar pelas minhas acções intuitivas. Fi-lo antes do final do jantar, quando olhei a bela rapariga que tinha um horrível nome romano e que nos fizera companhia pelo convite dos meus dois conhecidos. A pobre infeliz Agripina – que devia o nome à erudição de seus pais – bebeu como poesia todos os lugares comuns que consegui vomitar durante o repasto, não me iludindo quanto à pobreza do seu espírito de ouvinte, quanto à minha de orador.
Interrompi o meu olhar narcísico no lago para atender ao meu anfitrião e à minha distante amante, que me ofereciam um presente, forçando a despedida que me fez despertar um pouco. Desisti de tudo definitivamente ao abrir o embrulho e ao ler o título do presente; Viver para contá-la do Gabriel Garcia Marques.
Saímos já tarde do restaurante, empurrados pela pressa de viver outros instantes de vida e pelos exaustos empregados de mesa. Guardei o livro na mochila, devolvendo o Ontem ao seu dono e entregando-me ao vácuo de pensamento que o meu cérebro procurava insistentemente. O álcool ajudou e, num instante acidental em que ocorreu um toque de mãos, peguei em Agripina e beijei-a sem medo que o veneno dos seus lábios me matasse de uma forma fulminante. No local escuro onde dançávamos e bebíamos, os poucos focos coloridos moviam-se rapidamente na minha percepção visual; as vozes gritavam demasiado alto na minha percepção auditiva. Desliguei, procurando o silêncio que então se impunha, abandonando Agripina na sua solitária embriaguez. Quando Carolina reapareceu não perdi tempo.
Chegou a hora de ir.
Ela nada perguntou porque percebeu o que queria dizer com esta frase. Tocou-me de uma forma fugidia no braço, concordando que saíssemos, não fazendo questão de alimentar o meu remorso com um olhar complacente, ou qualquer sorriso voluntário ou fingido. A sua silhueta-sombra tornou-se um farol-guia para a saída do buraco e o seu silêncio até a casa do André tornou-se no carrasco da minha alma inundada de culpa. A bagagem rapidamente se compôs na mochila e não perdi tempo a olhar as prateleiras ou o espaço-sala da casa do meu amigo. Evitei forçosamente esses actos fáceis que utilizamos para nos despedirmos dos sítios, para elaborar fronteiras entre as diversas faces da vida ou entre vidas. O silêncio entre os dois manteve-se por todo o tempo da viagem até à Estação; no pagamento do táxi, no arrastar da bagagem e dos corpos cansados da vida e na breve fila para comprar o bilhete. Carolina era só um corpo que me acompanhava, cumprindo uma promessa da sua alma, que eu assassinara a sangue frio, só porque me deu um livro, ou porque já me tinha convencido há mais tempo que era exactamente isso que faria.
Carolina…
Adeus Jean-Arthur.
A frieza aparente da frase de despedida não impedia a dor de se manifestar no seu olhar quase apático. Chorei, com pena de mim, mais do que com pena de qualquer outra coisa. Sentei-me no primeiro banco que encontrei e permaneci, estático, olhando o corpo que me acompanhara. Penso que terei limpo as faces cheias de água, mas as gotículas de chuva miúda da manhã, enchiam por sua vez a vasta janela da carruagem. Todo o céu chorava, dissolvendo o ponto estático com que media a distância de mais um ponto de partida.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home