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A academia de Coimbra e o Polvo Galego
- análise embriagada de uma realidade, com umas pitadas de surrealismo possível face à mediocridade do momento
Quem mora na minha cabeça?
Quem mora na minha cabeça?
Uma sala com cinco homens e uma mulher que reúnem sobre o interesse e bens comuns à Academia.
Já não moro na minha cabeça, já ninguém mora na minha cabeça.
Somos seis homens e uma mulher, agora que me deram hipótese de existir neste espaço, de poder ouvir os ditames dos titãs para o futuro dos cidadãos da democracia ateniense.
Fala o Betinho, de popa de cabelo liso, de armas bem afinadas junto às cordas vocais de lindo pescoço:
Fazer participar os estudantes nas alterações que o processo de Bolonha vai implicar:
a) Fazer um broche ao Reitor sempre que o pobre coitado disso precisar.
b) para isso está a mulher na reunião ou eu, se ela não quiser.
As mulheres puderem assistir a reuniões é uma benesse da democracia.
Um bonbom com recheio de merda.
Fala agora o Intelectual de óculos de aro grosso, que consegue dizer atrocidades ainda maiores:
Podemos canalizar a força das canções das tunas para adormecer os bebés no berço.
No sono profundo em que dormem. Já não é preciso.
O Eugénio Ingénuo quer acordar os bebés da sua inocência, na sua inocência.
É preciso fazer isto e mais aquilo e aqueloutro. É preciso... É PRECISO.
É preciso saber primeiro quem é que dorme com quem... diz imediatamente o estratega sexual da equipa, na sua convicção sexista do Universo político, do Universo em geral talvez.
E a menina, diz qualquer coisa?
Sim, posso dizer algumas e como podem ver consigo continuar a sorrir, dando-me um ar mais simpático, enquanto tenho ideias que vocês não vão ouvir. Pois não?
Damos por encerrada a sessão, para que venha o espaço mais aberto e descontraído, em que falamos de trivialidades em pé – Fala por fim o rapaz que jazia calado no fundo do sofá, talvez o líder atento.
Mas então o que podemos fazer, grandioso líder, sol de todos nós? – Pergunta o Betinho em pânico, enquanto conserta a camisa aberta que mostra o peito depilado.
O líder responde prontamente, mas antes ainda faz uma pega de caras a um touro, torcendo-lhe o pescoço porque não tem tempo de ir buscar a espada.
Então vamos fazer exactamente o que se passou aqui, transmitir essas ideias, que todos falaram, ao mundo inteiro desta academia gloriosa.
De preferência aos primeiros tentáculos do polvo que se vai cozer. – Alerta o estratega, a desapertar o cinto e os óculos que desarranja no nariz.
Eu posso ser um tentáculo, - responde o Tentáculo – eu quero ser um tentáculo.
Pronto. Agora podemos gozar um pouco com as bestas que nos vão servir de lacaios.
Gosto tanto de brincar aos príncipes e às princesas.
Que giro! Eu também.
Que fixe! Estava farto de fazer cara séria.
A democracia é difícil.
Temos de ser altruístas, alguém tem de o ser.
OK. Deixem continuar-me a coçar o queixo, a sorrir para o soalho de madeira e a achar que sou o melhor do mundo, por poder comandar uma equipa como a nossa.
Posso pensar ainda nos frangos que vou depenar e comer na secretária de presidente.
Sou mesmo bom.
O polvo galego é servido, cozido e cortado às postas, num prato achatado de madeira, com o fundo côncavo.
O polvo vem regado de azeite do país e deve ser comido com voracidade, metendo ainda pão aos alqueires, molhado no azeite ou não, de acordo com as preferências.
Em qualquer Pulpería é normalmente acompanhado por vinho tinto de qualidade duvidosa.
O polvo académico é normalmente um prato cru e com bostas.
Servido numa universidade de madeira, com mentalidade achatada e de fundo côncavo.
Regado com vinagre, é normalmente comido com toda a calma do mundo,
podendo ser partilhado com uns minutos de trabalho sério por ano.
Em qualquer Universidade é normalmente acompanhado com base ideológica
de qualidade duvidosa.
Qual base ideológica? Estás parvo, hã!
O pessoal, pá. O pessoal tem é de se unir.
A meia dúzia de galinhas que se junta na capoeira. Presas à inevitabilidade de serem um dia comidas por uma Cátedra sobre a Gripe das Aves.
São todos umas aves raras.
Os répteis também andam por aí. Vão comendo os recursos das universidades, para um dia as venderem como ovos podres.
Podre é este vinho.

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