Os homens não choram de dia

I made my song a coat (…) But the fools caught it, (…) Song, let them take it, For there’s more enterprise In walking naked W. B. Yeats in Responsabilities

Segunda-feira, Abril 12

Viagens... (cont.)

A academia de Coimbra e o Polvo Galego







- análise embriagada de uma realidade, com umas pitadas de surrealismo possível face à mediocridade do momento



Quem mora na minha cabeça?

Quem mora na minha cabeça?

Uma sala com cinco homens e uma mulher que reúnem sobre o interesse e bens comuns à Academia.



Já não moro na minha cabeça, já ninguém mora na minha cabeça.



Somos seis homens e uma mulher, agora que me deram hipótese de existir neste espaço, de poder ouvir os ditames dos titãs para o futuro dos cidadãos da democracia ateniense.



Fala o Betinho, de popa de cabelo liso, de armas bem afinadas junto às cordas vocais de lindo pescoço:

Fazer participar os estudantes nas alterações que o processo de Bolonha vai implicar:

a) Fazer um broche ao Reitor sempre que o pobre coitado disso precisar.

b) para isso está a mulher na reunião ou eu, se ela não quiser.



As mulheres puderem assistir a reuniões é uma benesse da democracia.

Um bonbom com recheio de merda.



Fala agora o Intelectual de óculos de aro grosso, que consegue dizer atrocidades ainda maiores:

Podemos canalizar a força das canções das tunas para adormecer os bebés no berço.



No sono profundo em que dormem. Já não é preciso.



O Eugénio Ingénuo quer acordar os bebés da sua inocência, na sua inocência.

É preciso fazer isto e mais aquilo e aqueloutro. É preciso... É PRECISO.



É preciso saber primeiro quem é que dorme com quem... diz imediatamente o estratega sexual da equipa, na sua convicção sexista do Universo político, do Universo em geral talvez.



E a menina, diz qualquer coisa?



Sim, posso dizer algumas e como podem ver consigo continuar a sorrir, dando-me um ar mais simpático, enquanto tenho ideias que vocês não vão ouvir. Pois não?



Damos por encerrada a sessão, para que venha o espaço mais aberto e descontraído, em que falamos de trivialidades em pé – Fala por fim o rapaz que jazia calado no fundo do sofá, talvez o líder atento.



Mas então o que podemos fazer, grandioso líder, sol de todos nós? – Pergunta o Betinho em pânico, enquanto conserta a camisa aberta que mostra o peito depilado.



O líder responde prontamente, mas antes ainda faz uma pega de caras a um touro, torcendo-lhe o pescoço porque não tem tempo de ir buscar a espada.

Então vamos fazer exactamente o que se passou aqui, transmitir essas ideias, que todos falaram, ao mundo inteiro desta academia gloriosa.



De preferência aos primeiros tentáculos do polvo que se vai cozer. – Alerta o estratega, a desapertar o cinto e os óculos que desarranja no nariz.



Eu posso ser um tentáculo, - responde o Tentáculo – eu quero ser um tentáculo.



Pronto. Agora podemos gozar um pouco com as bestas que nos vão servir de lacaios.

Gosto tanto de brincar aos príncipes e às princesas.

Que giro! Eu também.

Que fixe! Estava farto de fazer cara séria.

A democracia é difícil.

Temos de ser altruístas, alguém tem de o ser.

OK. Deixem continuar-me a coçar o queixo, a sorrir para o soalho de madeira e a achar que sou o melhor do mundo, por poder comandar uma equipa como a nossa.

Posso pensar ainda nos frangos que vou depenar e comer na secretária de presidente.

Sou mesmo bom.



O polvo galego é servido, cozido e cortado às postas, num prato achatado de madeira, com o fundo côncavo.

O polvo vem regado de azeite do país e deve ser comido com voracidade, metendo ainda pão aos alqueires, molhado no azeite ou não, de acordo com as preferências.

Em qualquer Pulpería é normalmente acompanhado por vinho tinto de qualidade duvidosa.



O polvo académico é normalmente um prato cru e com bostas.

Servido numa universidade de madeira, com mentalidade achatada e de fundo côncavo.

Regado com vinagre, é normalmente comido com toda a calma do mundo,

podendo ser partilhado com uns minutos de trabalho sério por ano.

Em qualquer Universidade é normalmente acompanhado com base ideológica

de qualidade duvidosa.



Qual base ideológica? Estás parvo, hã!



O pessoal, pá. O pessoal tem é de se unir.

A meia dúzia de galinhas que se junta na capoeira. Presas à inevitabilidade de serem um dia comidas por uma Cátedra sobre a Gripe das Aves.

São todos umas aves raras.

Os répteis também andam por aí. Vão comendo os recursos das universidades, para um dia as venderem como ovos podres.



Podre é este vinho.