Os homens não choram de dia

I made my song a coat (…) But the fools caught it, (…) Song, let them take it, For there’s more enterprise In walking naked W. B. Yeats in Responsabilities

Segunda-feira, Abril 12

Viagens... (cont.)

Cordão umbilical




Um dia inventei uma ciência. Fui comprar um cordão umbilical à drogaria dos meus pais e agarrei-me a ela, ou fui tecendo os nós do cordão de forma a que a união se aguentasse.

O cordão em si sempre foi um cordão simples, com uma carga genética para me alimentar o corpo e dar forma à alma, pelo menos à alma que conduziria à ciência, entretanto inventada.

Inventada ao longo de muitos anos, nas histórias das avós e bisavós, em momentos de lazer, que seriam muitos enquanto criança.

Depois um pai que me levava a passear pelas paisagens, que me levava a viajar, mesmo à noite, só sentado ou deitado num banco exterior à casa, olhando e medindo as estrelas. Não seriam muitas as respostas às perguntas e daí talvez haver a primazia do belo em toda a admiraçao do cenário.

A ciência ia-se pondo a descoberto nas palavras mais efusivas de um ou outro professor. Cada vez mais frequentes, cada vez mais importantes as mensagens, os métodos, a simpatia, a forma do discurso e a beleza da expressão também.

Era uma ciência global, que poderia ser aplicada em todo o mundo, em prol de todas as populações e no entanto...

Os sonhos iam-se construindo nas insignificâncias da vida, que só renasceriam mais tarde, mesmo antes de começar a cortar o cordão. Lá chegaremos, à parte em que se corta o cordão.

Não. Não é nenhuma metáfora ao cordão umbilical que me foi cortado à nascença, sendo que esse é comum a toda a gente e corta-se bem cedo, mas que perdura muito mais tempo. Estou a falar dos cordões umbilicais que se compram nas drogarias de nossos pais.

A ciência ia crescendo, enquanto se definia um método, um objecto e algumas perguntas por onde começar. O porquê de querer as respostas deveria ter sido o início. Isso sim; é que era pensar.

O cordão sempre foi difícil de manipular, talvez por serem demasiado rígidos os seus tecidos. Encontrei um grupo de amigos que também tinham inventado as suas ciências e ajudámo-nos , atando os cordões uns aos outros. Na confusão do trabalho fomos ficando com os cordões enleados uns nos outros, mas não nos importámos, achando até piada às circunstâncias e à falsa união que ali se estabelecia. Um mar de álcool tornou-se o líquido amniótico das fulcrais relações sociais. Tudo num saco demasiado grande, que começaria a rebentar.

Alguém se lembra de cortar o cordão umbilical e, cada um na sua vez, vai cortando o seu. Cada um pelas suas razões, sem influência do próximo que já começou a cortar à uma semana.

Vivi com uma amiga que não tinha cordão umbilical já à muito, mas que se agarrava à ciência por outros meios que eu nunca consegui perceber. Um dia fui embora sem perceber e continuei a cortar o meu cordão, que era de corte difícil.

Parecia aumentar de tamanho; quanto mais o cortava mais grosso ele se tornava e não interessam os utensílios que se usam, porque estamos a falar de cordões umbilicais e esses são fáceis de cortar. Basta querer. Eu queria cortar mas como não queria ficar sem ele, deixava-o crescer, sentado numa secretária a olha-lo à distância, por vezes a percorrer quilómetros de terra, procurando bocados de ciência, talvez pensando mesmo em pô-la em prática.

Fiz uma tese sobre a minha ciência quando já o andava a cortar. Não quis chegar a Doutoramento e cortei-o definitivamente quando comecei a ter ideias sobre isso.

Parar era MORRER, mas eu ainda tinha em conta esses conceitos.

Agora vivo através da música, da minha escrita e de todas as coisas que me dão mais prazer que a ciência que encostei a um canto, deixando o cordão umbilical apodrecer numa esquina onde se ouvia tango argentino. Que outro tango poderia ser?

Abandonei o cordão umbilical e fui para as bacantes, dando-me o prazer físico um incrível bem – estar e um esquecimento menos penoso.

Esqueci o cordão umbilical.

Esqueci a Ciência.

Esqueci-me de MORRER!