António Lobo AntunesSer escritor também obedece a isto, estar à frente dos acontecimentos ficcionais que hão-de provir da realidade. Portanto, esperar a partir de agora a tua morte, anunciada por mexericos de todos os que te rodeiam, de todos os que estão fartos de te ver vivo.
A tua morte anunciada,
efectiva
a ficção do momento. A concretização da tua morte a ficção futura, da aura que passará a envolver os livros, os teus livros, toda a tua obra, incluindo a póstuma a dissecar por aniversários; de nascimento, de morte, de guerras travadas involuntariamente, de batalhas perdidas. Logo, o teu último livro nada de mais a acrescentar, fraco de conteúdos para essas mentes superiores que não te podem matar. Talvez mesmo a tentativa última de te revestir em contornos de polémica. O resultado já se conhece de tão esperado que é. Vai a polémica ao forno a 200º e sai um prémio Nobel a frio escandinavo, servido pela única coroa da sala. Querem polvilhar a tua débil imortalidade com notas de euro.
Não tenho nada a ver com isso. As células já se decompõem, já são uma lembrança de células e eu pouco preocupado com o medo.
O medo de pegar em mais um livro, o último contigo vivo, por certo e, mesmo assim, pegar nele irreflectidamente, como sempre, como tudo o que me dá prazer, me torna obsessivo.
Eu obsessivo contigo.
Obsessivo com ela.
Eu a aprender a obsessão por mim.
Eu obsessivo com ela.
Começar a ler
a ler-te. Não hoje, já num dia passado a este registo de memória que ensaio em linhas de pensamento ténue.
Dizer,
não,
sublinhar que és tu quem escreve, não eu.
Eu preocupado com isso. Eu preocupado com o medo. Ter tempo para sentir medo. Agora ir apenas fumando a rejeição a que me sujeitaste, ceder perante a fé de mente pequenina de que ainda voltas.
Ainda vais voltar.
Ainda vais ser feliz nesses instantes em que o corpo quente...
Não sentes o corpo, não é?
O corpo quente a adivinhar o sono, o silêncio tremendo de querer ignorá-la e ela,
Posso ir ter contigo?
O orgulho a escorrer nas paredes branco sujo da casa e a humidade ali ao lado, estática, suspensa na breve dúvida do que responder e, ao mesmo tempo, já saber a resposta que se envia pela atmosfera.
Adivinharás tu o meu pensamento?
Devotar-me ainda a estas questões inúteis a qualquer fim.
Não ter prazer algum em questionar e o medo a chegar. O medo que...
Adivinharás o meu pensamento?ter a coragem de efabular coisas desconexas só para mim, só para este momento e, ainda assim, efabular os dias que correm sem interesse quando não estás para chegar.
Poder encenar o nosso encontro;
eu a fumar etu estática a ler poesia no desconforto da cadeira, a vender o conforto da imobilidade eterna para quem te olha, a quem ousa aproximar-se.
O sorriso preso como se uma paralisia fossilizada na tua história.O teu sorriso estilhaçado num pomar pouco florido, nada perfumado, cada vez mais plástico perante essa necessidade de criar.
Que sabes tu?Que sei eu do que é criar para os outros, pelos outros?
Criar para mim. Admiti-lo em cada letra que nada diz. Efabular os dias em que criar para mim, definitivamente,
tu a ergueres o pescoço quase que em esforço e
a efabular como que em esforço e sorrir como se uma paralisia fossilizada na tua história.
a inventares o silêncio de que tenho medo,
pior
inventar uma qualquer abordagem que provoque o meu silêncio de que tenho medo.
Sim. Ter medo do meu silêncio paralítico.
Fico sempre pelos dois corpos a repousar no desconforto da sua verticalidade e os sofás ali ao lado sem qualquer utilidade contra o medo. Sermos sempre isto, uma linha de espiral que nunca se chega a afunilar para que,
em desespero de causa,
rume ao sentido oposto, ao sentido do local onde se ensaiará a próxima espiral.
Como deste quarto escuro onde ensaias mais um sorriso de esguelha, como se toda a tua história fossem estilhaços.
Palavras dispersas que te dirijo. Tantas, e não conseguir em nenhuma transpirar um sentimento fino relativamente ao facto de seres, mesmo para com a tua essência que aguarda pacientemente pelo meu corpo. Palavras que, no fundo, nada dizem isoladas ou em conjunto; palavras que buscam silêncios que nunca encontro, nem nos seus interstícios, mas palavras que, pelo sentido com que são ditas, procuram afagar os teus sorrisos de esguelha, aparar os estilhaços de ti que eles dispersam à minha volta.
Cederes à fraqueza do choro compulsivo; a felicidade de ombros caídos a deixar de existir.
As palavras em busca de uma qualquer felicidade e os ombros caídos cedendo ao choro...
não,
os braços cruzados sobre o tronco aparado de almofadas.
A minha insolente inutilidade em ser vertical e as palavras fachos em chamas a iluminar torcicolos de pescoços que os lêem, que os procuram ler. Combinar um café para mais tarde e deixarmo-nos sós a ter noção do nada em que todos os descrentes caem. Olhar em desespero os mostradores de tempo procurando a noção de quando será plausível estar acompanhado. Encontrarmo-nos no desespero mútuo à distância, na angústia lancinante de alguns vazios que partilhamos. Cederes ao choro pelos ombros caídos da felicidade e
da ideia de felicidade que supões existir
logo ali culpares a família, os amigos, os animais de estimação que pavimentam o chão que pisas –
não pairas sobre ele –
pisas e culpar – porque não? – todos os ombros caídos anónimos onde o teu olhar húmido repousa de quando em vez. No fundo, tudo dentro de ti.
Dentro de mim.
O medo,
o olvido de te lembrares de ti.
Ter medo de me lembrar de mim, de me ler de ombros caídos na suspensão opaca de ter a vista húmida.
O medo de ter de erguer os ombros e não ter a noção do esforço que esse acto envolve.
Esquecer-me sempre do que era antes de ser o agora e
esquecermo-nos de nós e sermos um por ser esse o caminho possível para os ombros caídos percorrerem sem medo.
Posso ir ter contigo?
devotar-me ainda a estas questões inúteis a qualquer fim como adivinhar pensamentos.
Como adivinhar-me sem efabular estilhaços de sorrisos em mais uma suspensão vertical de ter medo?
Medo de ti, meu amigo.
Sim! Meu amigo. Tu que esticas as horas ao que elas têm de mais amargo e eu...
Uma hora e eu a amargar-me na leitura incandescente de ti. Todos os amigos,
e as amantes também,
calados, mudos de um sinal de vida que seja. Sim, sentir a falta de um sinal de vida de tanta e tanta gente. Portanto eu sem sinal de vida alguma que viver nesta hora amarga que se arrasta.
Que arrastas?Que arrasto, que vivo. Só a família telefona ao prometido afecto que se tem em dívida. Eu a dizer que sim, que não, que talvez, e o afecto amargo pela hora,
não,
por toda a vida,
pela hora que se arrasta e quase finda enquanto escrevo o medo, a dor e a ausência. As amantes indisponíveis porque,
não sós,
acompanhadas por gente que não pensa as horas, que não lê a amargura dos outros por nem sequer ter noção da sua. Logo um maço de tabaco que se amarrota à compressão máxima desta raiva e toda a calma do mundo no bafejar do cigarro, no correr inquieto dos últimos minutos. Aí está. A fronteira da primeira hora ultrapassada e ao entrar na segunda pensar na mentira, mais do que no ridículo dos conceitos temporais; pensar nas desculpas consequentes à mentira, na descrença e no baixar de ombros a vontade de reclamar o meu direito em ser feliz. Só mais um acumular de raivas, de maços de tabaco amarrotados para que o grito surta efeito no futuro, movido por ondas de choque que o som ensurdecedor provocará. Então serei o doido dos maços de tabaco amarrotados e a mensagem não será lida nem entendida porque os maços de tabaco amarrotados têm mais impacto sobre a apreciação de umas pessoas sobre as outras. Poder pensar assim e dar-me autorização de pensar assim e para não te ler mais. Arrumar-te no saco a isso destinado e colocá-lo ordenadamente junto aos outros onde se transporta a vida. Não só escrevê-lo, fazê-lo efectivamente e pensar nas curtas-metragens que compõem uma mentira; um festival inteiro de curtas-metragens para uma só mentira. Uma pequena mentira de uma hora amarga, angustiada pela passagem à segunda, à dissecação da espera da mentira.
Poderemos falar sobre isso mais tarde. Agora tenho um filme para ver. A fuga de uma possibilidade de conversa, mas a sinceridade a percorrer distâncias inauditas em poucos segundos. Já a mentira aproxima-se lentamente até a mim chegar. Baterá à porta e dirá,
Sou uma mentiraOs olhos cabisbaixos e mil desculpas que não ouvirei. O maço amarrotado já no lixo, com todos os vestígios das horas amargas...
Sou uma mentira.Eu sem me preocupar com isso fechando a porta e penetrando na noite como ansiei há uma,
não,
duas horas atrás. Serão talvez três, pois nunca se sabe qual a extensão temporal de uma mentira. Perdemo-nos na dissecação de tudo o que a compõe e a mentira lá atrás, escondida nos prefácios não escritos, nunca enunciados.
Desistir do pensamento enovelado porque os pratos de porcelana com motivos decorativos orientalizantes do ponto de vista ocidental a chamarem-me, a perguntarem,
Preocupaste em escrever assim?Assim como?
Como ele. Aproveitando-o para ti.Preocupo. Não preocupo. Desistir do pensamento enovelado de pensar nisso porque o tinteiro que irá imprimir estas páginas estático, sem nada perguntar e ser isso que dele requeiro.
Quase três, as horas. O tempo passa a correr pelo meio das perguntas que os objectos nos colocam. Eu sem responder, enroscado na mentira como se deitado, com os braços em volta do tronco. Quase deitado sobre a mentira, sobre as amargas perguntas dos objectos e eu,
Não te questionas?
Do quê?
De tudo o que jaz imóvel à tua frente e tu a perceberes essa velocidade física por ser também a tua.
Fechar o caderno ao pensamento. Abri-lo de novo depois de abrir a janela para a rua. Penetrar na noite com a cabeça como que a sondar a lua e perceber que esta se aplanou, que o berço se transpôs ao cheiro dos pinhais em volta; que só o seu cheiro intenso me faz repousar. Escreve-lo por se tratarem dos pormenores menos amargos da espera, da mentira que se vive e parar por fim, porque tudo deve ter um fim, mesmo que em suspenso pelo cheiro dos pinhais.
Ser esmagado pelas tuas palavras cinzentas, escuras. Deixar-me ir na Melancolia que invento, triste pela lágrima que não verto, agora que me encontro atónito, autista perante as coisas do mundo que não minhas
Que não minhas por não as querer, não as tomar para mim, ao meu pensamento, à dignidade de serem pensadas, à coragem de serem escritas.
Pensar que morri contrariado, mas que não o manifestei por palavras, por não ter tempo.
Nunca ter tempo para nada que se segue e, no fim, não ter tempo para acabar o que termina com tudo.Pena, portanto!
E não pena, nada, por tudo ter acabado. Eu contrariado a dizer-te,
Não te quero.O meu corpo a querer a tua sedução fria, ou a desejar-te assim, nua à minha frente e eu atónito, autista perante as coisas do mundo que não minhas, sem nada dizer.