Os homens não choram de dia

I made my song a coat (…) But the fools caught it, (…) Song, let them take it, For there’s more enterprise In walking naked W. B. Yeats in Responsabilities

Quinta-feira, Outubro 8

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A tua casa ao longe




Consigo vislumbrar a tua casa ao longe; daqui do topo do monte de erva seca e rasteira. Ali ao longe, por entre os pilares de cipreste, a casa branca com o telhado vermelho. Nada de novo. É mais uma casa isolada das outras, por entre o verde das árvores e o amarelo da estação seca.

Um dia virão prédios e outras infra-estruturas, sejam elas quais forem, desde que sejam ruidosas. Já nem ouço sequer os pássaros, que o adivinharão por certo. Um pouco antes há um ribeiro, que se torna numa auto-estrada de lagartos e que de Inverno se transforma num mar tormentoso, como as nuvens negras que vêm de Oeste.

Não te conheço; sei apenas que tens uma casa e vou deslizando monte abaixo, por entre algumas distracções que os sons da natureza provocam. Consigo desenhar uma criança no horizonte, no pátio murado que deve rodear o edifício. Brinca com o que parecem ser tachos e panelas, batendo como se fosse um baterista e penso no que nós encontramos para descarrega baterias.

Desço até ao ribeiro e perco a vista do meu objecto principal de observação e estudo, a casa. Agora terei uma criança com quem conversar, os pais assustados que vem cá fora preocupados, o cão que afinal estava lá dentro e que aparece agora a ladrar. O ribeiro está envolto por amieiros que dançam com a força do vento e ao som que ele provoca. Sentir-me-ei privilegiado, porque não? Porque não ficar também mais um pouco, que aqui ainda se ouvem as abelhas.

As folhas que caem parecem uma neve primaveril e, ao olhar para cima, a copa das árvores torna-se vertiginosa, o espaço claustrofóbico, fechando-se o céu no verde vivo e entro na pedra lisa que me serve de cama. Sinto ainda o vento, mas agora a corroer-me as moléculas, a retirar-me pequenos pedaços, pequenos grãos que serão areia e viajarão muito, espero eu.

Acordo pela pedra que salta, talvez pelo passeio de uma cobra, talvez porque tenha respirado com tanta força que a pedra sentiu, uma vez que éramos o mesmo corpo, a mesma energia que o vento levava. Subo a encosta mais suave e passados poucos metro lá encontro de novo a casa; primeiro o telhado, depois a parede branca que luz ao sol.

Mais tarde um senhor idoso, sentado no banco de pedra, com remate pintado de azul. Da mesma cor são os seus olhos fundos, cavados por entre rugas de história. Não me fala e sento-me, para descansar um pouco da caminhada que foi mais estafante do que previra. Não me apetece perguntar pela criança que brincava à pouco, pese embora ter perdido a noção de tempo. Não me apetece dizer nada até que a minha companhia o faça. Espero que não venha ninguém para perguntar quem sou, de onde venho e que faço ali calado, sentado ao lado do velho. Não ouço barulho e devemos mesmo estar sós, cada um com seu pensamento. Vejo os tachos e panelas no chão e não me apetece descarregar mais energias. O velho diz-me que andam a construir uma casa, lá ao longe.

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Incursões no Surrealismo Industrial




Giratórias de baldes carregados de lama a chocarem com o camião que a transportará; mais dois motores de retirar água de um buraco, acrescido de outro que trabalha noutro buraco mais longe, perto de uma betoneira que faz a argamassa para a obra. Os martelares dos carpinteiros e os raspares de argamassa dos pedreiros nos tijolos agora colocados; o silêncio pachorrento dos serventes ao compasso do assobio do pedreiro-mor, que se tem de ouvir em todo o lado, acima de tudo o resto. Os berros Hitlerianos do patrão e o canto siciliano do dono de obra a baterem nas mulheres bonitas que passam na rua, já cobertas por escarros de obscenidades diversas, que vão muito bem com as que ainda botam sorriso de esguelha. O polícia que passa multas ao som das sirenes ininterruptas da baixa. As putas que choram e os chulos que berram em contradança com os murmúrios dos pedrados, que vegetam nas esquinas por sobre a calçada irregular.

As ruas estreitas – meias de sombra escura ali, meias de luz demasiado brilhante acolá – acendem e apagam as conversas familiares, as conversas profissionais, os berros e os gritos. Ciganas a venderem nas ruas, gritando as virtudes dos seus produtos, nomeadamente o preço. Ou serão carpideiras muçulmanas em dia de luto? Ou de festa? Vai-se lá entender. Gatos a foderem nos quintais enquanto ainda se sacham as hortas dispersas pela cidade velha, enquanto fios de água ainda regam as hortaliças para o consumo directo, sempre ao final da tarde e pela manhã, que ainda há-de vir depois da noite.

Bebe-se então a última cerveja do dia (ou será a última grade?), antes da janta e do sono dos velhos, embalados por roncos estrondosos mas cadenciados. Vêm de novo as mesmas putas, os mesmos enfermeiros nos carros do INEM, acompanhados de outros polícias, de outros clientes. Ou serão eles também os mesmos de sempre? Os varredores do lixo vem mais tarde, ou talvez nem cheguem a vir, porque os crocodilos entram silenciosamente no rio, ao despontar dos primeiros raios de luminosidade; porque no café já se encontram os operários fabris, aqueles que se encharcam de vinho pela madrugada. Preparam o cérebro com vinho branco para enfrentarem mais um dia de ram-ram, na mesma fábrica cinzenta.

Quarta-feira, Outubro 7

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II – … no sonho, cortando as amarras







Jantar com a Moralidade



A Moralidade veste de branco ou de preto, enveredando um vestido longo ou uma roupa discreta de calça e blusa. Em dias festivos, como hoje, chega mesmo a mostrar um pouco do alvo braço, condizente com a face límpida de sujidade e de curvas perfeitas, num estilo renascença, de que nem Da Vinci se lembrou. A sobrancelha aparada como se franzisse o sobrolho a todo o momento, não forçando os músculos da cara, para evitar rugas de expressão de idade avançada. Gosta de ouvir música clássica e ter por temas de conversa as coisas mais corriqueiras, entremeadas de piadas britsh, fora de Inglaterra.

O alemão Alfred e a indiana Dihn trocam piercings enquanto discutem a obra de Wagner e leio apressadamente o final do Lobo das Estepes, olhando de soslaio a pose reprovadora da Moralidade. Começamos o repasto por um doce Porto, solene e soturno, fazendo cumprir apenas uma tradição que alguém inventou. A amazona Páti contagia o ambiente com o seu sorriso largo, com o seu olhar fraterno e a moralidade observa atenta, de sobrancelha erguida. Segue-se chouriço assado e o primeiro vinho, com pão de milho e centeio do próprio dia.

Chegam a Falsidade e a Crudelidade – fazendo com que a Moralidade faça sorriso de Gioconda – acompanhadas do Niilista decadente e do Anarquista esteticamente Surrealista. Sentam-se na mesa ao lado da nossa, continuando a boa disposição que transportam da rua, pedindo vinho e contando anedotas em voz alta. Logo a Moralidade se levanta antes da sopa do Cozido à Portuguesa, fingindo, ou sentindo realmente uma falsa indisposição. Páti segue-a até à casa de banho com um ar preocupado, abraçada pela doce Crudelidade. A Falsidade não se ergue sequer, fazendo-me supor que a falsa indisposição é real, mas logo Alfred me alerta de que são irmãs desavindas há muito tempo.

Prefiro olhar a sopa enquanto esfria; o Niilista que se sente só – ou os longos tragos no vinho e olhar para o nada é que me revelam essa ideia; o Anarquista que galanteia Dihn, de olhos a brilhar, com a contradição inerente ao silêncio rápido em que cai, de não querer ser capaz de amar. Chega entretanto a comitiva da indisposição com a Moralidade coroada de louros e sorriso aberto, Páti de olhar preocupado e logo de rancor perante a Falsidade, afastando a Crudelidade dos ombros como se lhe pesasse a caspa.

O caldo consome-se rápido e silencioso por todos nós, conduzindo apenas ao calor interior que se fará sentir agora. Copiemos a boa ideia do vinho aos nossos colegas do lado. Venha então esse cozido. Para todos! Porque não? Juntemos as mesas! Porque não? Porque se levanta a Moralidade? Logo lhe digo que se sente; que ninguém irá atrás dela para lhe fazer a vontade de estragar o momento. Nesse momento tenho de olhar Páti com ar sério para que descanse os braços que a fariam erguer em segundos. Continuo a dizer que de nada lhe vale não jantar, quando ninguém se levantaria, quando iríamos apenas rir da birra. Olho a gota de suor que lhe corre discretamente pela fronte, os lábios que dançam entre o sorriso, a indisposição, o desespero e a raiva. Sinto a censura de Páti a cravar-se na minha carne e sinto o Anarquista a adorar toda a cena. Que se sentem a Moralidade e a Falsidade lado a lado. Porque não? Porque não utilizar o jantar como motivo para umas tréguas, quem sabe para um novo conciliar de posições. O Niilista já não fala e percebe-se o porquê, com tantas garrafas vazias que tem à sua frente. Dihn está farta destas cenas de culturas que não compreende e Páti tenta-lhe explicar o porquê delas acontecerem. Acaba por beber tanto vinho quanto o Niilista, por não arranjar palavras e por achar que elas se encontram no fundo das garrafas. O Anarquista passa a noite a dar lições de Moral às irmãs, ou pelo menos a explicar-lhes o seu ponto de vista, citando apenas os textos sagrados de todas as religiões que conhece, de algumas filosofias que as irmãs ignoram por completo. Mantenho-me calado sem nada mais que dizer, arrependido da cena que provoquei ao falar, com dor no braço pelas unhas de Páti, de dor na Alma por não conseguir reunir os amigos em paz uma noite que seja, sem que seja apenas o vinho o bom condutor das horas, das conversas e dos silêncios.

Dihn desperta-me do entorpecimento mental e diz-me que já é hora de irmos. Para onde? Não sabe. Todos já estão demasiado bêbados ou demasiado carrancudos e chatos. A Moralidade continua com o seu sorrisovitorioso, a Falsidade com a sua indiferença indiferente e a Crudelidade apenas afagando os cabelos fatigados e sem brilho de Páti. O Anarquista jaz rouco e roncando num canto da mesa, o Niilista rebola-se pelo chão, misturando-se com vómito e ácaros de alcatifa. Sigo então com Dihn para o morro do miradouro da cidade, onde se cruzam as luzes da noite com o cheiro de mar Oeste; onde se cruzam os sons das ruas com o silêncio da hora morta; onde se cruzarão, talvez, a vontade imensa de amar e o medo imenso de existir amando.

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Lorca




Onde está a minha Lua?

Onde estão os campos roxos de tojos primaveris, de cores dançando ao vento seco de Este?

Porque estás mui lejos, amor mio.

Com que direito apareces em imagem fria e seca de Buñuel, numa onda sonora estonteante que perfura a carne com a eficácia dum cutelo de açougue. Bar de estudantes, sem tertúlias ou outros movimentos suspeitos. Para que se beba cerveja até cair e me lembre da manhã sem pequeno-almoço, quando te segurei nos meus braços e senti o todo da tua pele a envolver-me. Um ligeiro zumbido nos ouvidos e uma náusea interna, a lembrar os melhores dias físicos das entranhas.

Pedras frias, arcos em tijolo, passagens para outro lado.

Onde está a minha Lua?

Onde está o meu tanto querer?

Por entre as giestas frias de Inverno; na toca profunda de javali; num mar de palavras lavradas em terrenos incultos.

Um ocultar de um segredo, de um sorriso esporádico que os lábios esboçam. Quartos repletos de livros nas paredes, de um colorido baço, algo reluzente às trevas do pensamento, às sombras que nasciam nas janelas, nos cedros do jardim. Beijos doces, de sabor a mel de cana do açúcar.

Quentes são as gotas de chuva que me beijam o corpo nesta madrugada tão fria, neste momento tão negro.

Onde está a minha Lua?

Quinta-feira, Outubro 1

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Revolta




O vento sopra e eu sou só um afloramento granítico, estático e frio. Aflora-me a superfície, indiferente aos grãos de quartzo que de mim arranca, indiferente à forma que me vai esculpindo. A Lua teima em não pôr fim ao dia, às sombras que o caracterizam. O cheiro da companhia jaze adormecido, por entre um cobertor que aquece e esconde alguns problemas que se adivinham, mas que não se entendem.

Vejo as minhas amantes escondidas por entre as coisas que construo e só tenho pena de não ter tintas para as ocultar mais ainda, tal como fez o Picasso; de não lhes poder dar um pouco de cor, por entre distâncias, desencontros e, eventualmente, alguns mal entendidos.

Sinto saudades de mim em tempos que já não consigo recordar, porque a revolta tomou conta das minhas vontades, do meu querer existir. Fico apenas com a pele seca, cheia de fungos impróprios para a estação do ano, que juntamente com o barulho da respiração suave me lembram que ainda sou alguém, talvez na qualidade de ser humano.

(Afinal não tenho a meu lado um corpo que possa manifestar a sua presença, que possa dar-me um pouco da sua vida, para que possa eu também viver um pouco.)

Poder-me-ia o vento deixar arrepiado, poderiam tocar os tambores da noite, enquanto as luzes dançavam uma vez mais, surpreendendo-me, fazendo-me expelir o lixo que guardo comigo. Não posso porque tenho de estar rodeado por livros fantasmas, pelos fragmentos de caos não organizáveis; não posso porque não depende de mim, mas de uma força maior que não controlo e da qual quero fugir. A força que me fará levantar pela manhã sem vontade de me erguer de seja lá onde for, que me fará mover de um lado para o outro, continuamente, como que a testar a minha capacidade de resistência.

Mesmo assim, teimas em surgir nos momentos em que não me posso lembrar que te amo, em que não devia desejar estar ao teu lado, ou no teu colo reconfortante. Nem preciso de um rio ou de um mar que me ligue a ti mais rapidamente, não preciso de pensar em que vento, na sua boa vontade, levará o meu pensamento até ti; nem posso olhar a Lua, que nos vê a ambos, porque me recuso a sofrer de novo tudo o que ela me traz.

Ouço a tua voz distante, triste e fico sem ter como estar contigo, confirmar a presença de um ombro, o silêncio acolhedor de uma companhia que não faz perguntas desnecessárias. Já não te posso dar a força das ondas do mar, quando tu própria a perdes em cada passo, em cada respirar de dia-a-dia. Já não posso procurar alcançar o teu pensamento para que o acalme, para que o reconforte.

Sinto muito amor inútil, como se uma torneira vertesse água para um balde já cheio e todas as ruas se tornassem rios, como se o mundo todo fosse um chão de água, de desespero. Que farei eu, quando de nada vale engolir em seco, de nada vale reparar nas nuvens brancas que rumam a Norte, nem nas pessoas que correm apressadas para o almoço?

Fico distante, mesmo ali ao pé daquela azinheira sacudida pela brisa outonal, ao pé do cão que marca o seu território, ou tão-somente alivia as cargas físicas, como que a dar um exemplo metafórico. As interpretações tornam-se labirintos, como o olhar atento e continuado sobre as pedras da rua, sobre o traçado das ruas numa nova cidade, de um novo viver, de um novo nada quotidiano.

Triste por vezes; angustiado talvez. Como se um violino fizesse as gaivotas voar em círculos e a minha alma fosse só voo circular dos pássaros e a porcaria do violino sempre a tocar. O cheiro repentino de cera de soalho de madeira. O cheiro a brisas de verão, a sonhos dispersos na atmosfera mais próxima. A revolta?

Pisa e repisa os mesmos pensamentos, os mesmos resultados as mesmas notas dos mesmos solos. Qual improviso para além do que já é sublime só por si; por o ser e fechando para sempre a porta desse mesmo improviso.

- Ando à minha procura.

Guia-te pela Lua; pelo seu aro que só promete luz imensa que te cega os olhos fixos, que te corta a respiração e te torna tão pequeno quanto nunca foste. Não há som, nem cheiro, nem vista; não há paredes ocas, ratos a fuçar nos livros velhos e novos. O longínquo quarto de madeira, com a companhia do bicho da mesma, que devorava aos poucos a escrivaninha e que tinha toda a liberdade para o fazer. O longínquo postigo de janela de vidro duplo, aberto para o mundo e para o ar que se devia respirar.

Os dias não contam como dias, mas como horas que passam infindáveis, umas atrás das outras, sem nada que lhes marque a diferença pelas tantas que virão. Às vezes é só monotonia, que se transformará em chilrear de pássaros, em zumbir de brisa de Verão, em crepitar de fogos clandestinos. Estarei eu também em fogo? Outras vezes é monotonia do que já será depois um milheiral regado por breves linhas de água artificiais; um suspiro de milho e uma Lua a crescer mais e mais. Sonhos? Nem por isso, porque poderão bem ser realidade, pese embora eu nunca o confirmar.

Todos os prados de carqueja têm a sua bela flor pelo meio, que pela sua raridade sobressai, que pelo seu contexto se evidencia. A flor que pode ser feia é rara, a flor que poderá ter espinhos, mas cheira como flor, tem porte de flor, cor de flor. Dá um abraço ao amigo que descansa da lavoura que é viver todos os dias em luta consigo e com os outros. O álcool? Sim, também ajuda, pelo paladar fresco que provoca, pela subliminar alegria falsa que trás consigo, pelo fim de mundo que será beber o copo até ao fim e perguntar ao acompanhante da hora se quer ir para casa, temendo uma resposta negativa, temendo que o Ego Supremo sofra mais uma derrota marcante. A guerra? Nem sempre pegamos em armas para lutar.

- A cantiga é uma arma.

- Vai-te foder mais as tangas das três da manhã, mais as conversas de merda para cumprir o protocolo, o horário para cada coisas que se deve pensar, que se deve sentir.

Tu serás o sistema neste momento que te olho amigo; neste momento que te amo como irmão e tu apenas estás lá e eu do outro lado, sempre do outro lado. Podemos ainda chorar um pouco, trocando abraços e frustrações. Os sonhos? Estão aí, no brilho de olhos, no brilho ardente do cigarro que acendes no meu, como tanta gente acendeu entre si cigarros, paixões, amizades eternas, difusas agora no fumo, no ruído dos gritos tertuliares vindos do topo da mesa, do topo do mundo de cada um, do espaço em que nos encerramos. As gavetas são confortáveis quando estamos agorafóbicos. Se pudermos enche-las de gente, tanto melhor para o mundo que conhecemos.

Dor? Aparentemente só quando me arranho nas giestas e o tempo frio não ajuda. Será sempre Inverno? Posso andar de calções pela casa, porque me é permitido mostrar as pernas arranhadas, os calos das mãos, a pele queimada de uma forma irregular, marcada pela forma da roupa. Gosto de túnicas, mas se as visto chamam-me louco e eu ainda não sei se sou ou quero ser louco para os outros. Seria um fugir de cobarde, seria mostrar o medo imenso que tenho quando respiro.

Combate-se o medo indo ao rio, entre a noite e o dia tardio, quando os morcegos se alimentam de mosquitos que sobrevoam as luzes amarelas da estrada. Descida interminável da estrada, lenta e pensativa; do pensamento lento, da brisa que se torna progressivamente mais fria. Ainda mais fria depois da curva, antes do cumprimento ao senhor Miro, que passa no seu bólide de anos 80. O milho à direita; o rio ao fundo da pequena recta descendente; a ponte por entre dois postes, como recta final da meia caminhada. O apressar para que ouça o rio correr, para que acabe o cigarro pensativo. Os teus olhos em toda a parte; na Lua que me segue desde o início da jornada, nas pequenas luzes que a natureza nos dá, por entre a pouca luz natural e toda a artificial que lhe colocamos dentro.

Consegui apaixonar-me. Óptimo. Agora há que subir a margem do rio e voltar a casa. O milho à esquerda e a Lua pelas costas, meio protectora, meio magnética, mas ainda sem a força suficiente para me levar para longe. O milho à esquerda e os cães ao longe, ladrando, despertando o cão que me ladrou na ida. Penso que voltou a acordar. Umas vozes que não vêm do meio do milho, com muita pena minha, que podia recordar os contos fantásticos de gnomos. A merda do cão que me ensombra os passos. Parou de ladrar. Vou pensar apenas no milho e no vento que o faz balançar suavemente, subtilmente, demonstrando a planta alguma resistência. A vizinha da frente ao fundo. Estou salvo, estou apaixonado e estou com um humor de merda. Dêem-me vinho, dêem-me a Lua com força de gigante, dêem-me uns olhos imensos; a sua ternura e a minha revolta, a força da natureza. Pára. Não brinques mais, não fales mais a sério, não me fales, não me ignores, desaparece, não desapareças que já sei da tua existência, para além dos livros do Corto, cujas histórias te conto para que te brilhem ainda mais os olhos.

Uma breve conversa com a vizinha e a Lua deixa de existir por momentos. A casa e de novo os teus olhos, agora mais reais, agora mais enormes, agora mais penetrantes, pela doçura que deles transborda. O quarto. A anarquia. A revolta.

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A morte




Desde esta manhã que me não sinto bem. Mesmo assim apetece-me fumar um cigarro, deitado na cama, ainda em jejum. Os olhos semicerrados e a respiração aliada a uma dor no peito. Só vejo o fumo do cigarro a vaguear pelo quarto e, por incrível que pareça, não penso em nada. Sou assaltado por uma profunda tristeza, em todo o meu não-pensamento e por um vazio no estômago que me indica que o estômago está vazio.

Depois de apagar o cigarro, adormeço reconfortado no meu descanso. Talvez amanhã vá trabalhar. Voltar aquela escola com putos de quem eu já desisti à tanto tempo, um pouco antes de ter desistido de mim. Vão ser mais umas horas em viagens, um almoço de nada, três ou quatro cafés e dois maços de cigarros. Pela noite uma dor de cabeça e a inércia perante a televisão.

Poderia estar a cumprir os meus sonhos de há uns anos, mas não me apetece. Estou tão bem aqui a descansar...

Quarta-feira, Setembro 30

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Depressão




Uma profunda tristeza assolava-lhe a mente nessa manhã. Desde as seis que estava acordado. Desde essa hora que tentava inutilmente limpar o quarto. Olhava de quando em vez pela janela e percebia o dia horrível que estava lá fora. O sol aparecia às vezes e quando se ia, a parede que brilhava tornava-se cinzenta. As árvores deviam abanar pelo vento frio, fazendo o quarto parecer um espaço acolhedor.

Parava e ia escrever qualquer coisa ao computador. Nada lhe ocorria e tentava então retocar o seu curriculum vitae, assim como o quarto e como a sua vida por inteiro. Ficava ainda mais deprimido com o que via. Fechava os olhos com uma tremenda vontade de chorar, mas como não encontrava razão para o fazer, em confronto com o seu substrato mental optimista e racional. Deitava-se então, limitando-se a ouvir aquela música melancólica que entoava pela casa...

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Os homens não choram de dia




Acariciei-te os longos braços muito ao de leve durante uns minutos. Disse-te que era a parte mais bonita do teu corpo e não menti, apesar de saber que não ias ficar muito bem disposto com isso. Abraçavas-me, enquanto estávamos deitados, no jeito de macho latino protector, mas com o qual eu não me importava, porque tu eras um sensível e eu, de facto, sentia-me protegida.

Decidi que era a última vez que assim iríamos estar. A minha insanidade reclamava o direito de existir noutros sítios, sendo isso incompatível com a normalidade que tu me davas. Depois de alguns meses juntos sabia que era o que tinha a fazer.

Hoje, quando te encontrei na rua, sabia que estavas casado e que tinhas um filho. Sabia também que iríamos acabar o dia na cama, desta vez no meu quarto de hotel e que eu, após te acariciar os braços lindos, me iria levantar da cama para escrever, enquanto fumavas um cigarro, pensativo.

Terça-feira, Setembro 29

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O Lago verde



O lago verde estava calmo quando te disse que não te poderia amar mais. Parou o vento, como se o fizesse definitivamente; calaram-se os pássaros e todos os sons do mundo se concentraram na tua voz, nos teus lábios. Veio a festa, ou a festa a fingir que não a ouvia, que não conseguia ouvir qualquer som. Fiquei só à espera que tudo fosse uma mentira e que me pegasses na mão, beijasses a face esquerda, fizesses um sorriso de covinha na cara.

- Um chá de camomila, por favor.

- Dois.

Sai o sorriso e um olhar de cumplicidade. Sai um passeio por entre árvores de pantanal, por entre sombras demasiado frescas para esta altura do ano, para este sol tão pouco ardente. Tenho um medo imenso de enfrentar a calçada fria perante mim, com ou sem chuva. Tenho medo de me ouvir pensar, de me ver encostado ao conforto de um balcão de madeira, de chegar a uma cama vazia, onde ninguém me faz companhia, onde ninguém te cheira o sono e diz que disso depende para se sentir feliz.

É já noite e ouvem-se sons do bosque, dos animais que povoam a noite de Lua cheia. Sente-se o cheiro da humidade matinal que se aproxima, que não se pode associar ao cheiro da tua pele.

- Um café e uma cerveja, por favor. (Já agora traga também um par de olhos que digam que me amam, que querem amar sempre muito e chega, para uma felicidade momentânea, para um apogeu de segundo e meio.)

O Café matinal e um gabinete onde espraiar as fantasias ou a falta delas. Um jornal com a actualidade descrita por pessoas que pensam por mim. Pena, tanta pena de não ser dono das minhas vontades, das dos outros e contento-me com o sorriso familiar do barman, do pianista que nunca olha as teclas, o que faz dele um tocador e não um músico.

Gostava de poder sobreviver um dia intacto ao contacto mínimo da pessoa próxima, poder controlar os sentimentos, reter as coisas que se querem falar. Gostava de acordar arrependido ao teu lado de mulher, no desconforto quente de um abraço necessário. Mas a merda do piano continua a tocar e o gajo que toca pode não estar a sentir o que sinto agora, mas está a acertar com as notas todas no seu grito mudo.

Será que há sempre uma recaída, ou essa é que é a parte herdada dos filmes, dos sonhos transpostos em qualquer suporte? Pois é. Há sempre alguém mais fraco que perde o poder, em relação a alguém que o adquire proporcionalmente. Há sempre alguém que foge de uma situação, de um caso mal resolvido, e o outro que acha que é desnecessário, porque é mais confortável manter tudo como está.

É bom que o dia nasça sempre à mesma hora e que o tempo não pare de vez em quando, num suspiro, num toque de pele, por mais insignificante que seja.

Por enquanto só temos um lago verde, bordejado por árvores pantanosas; só temos um medo, um desespero, um simples gostar de uma carícia no punho. Só devo estar a fazer um filme e nem se quer tenho película para gravar, nem sequer tenho certezas de mim, nem sequer sei se algum dia vou ter certezas.

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The goodson




O labirinto sem saída que será amar-te sem porquê, sem razão aparente para que tal aconteça. A falta de razão também no facto de não conseguir ser coerente, congruente com a racionalidade que a sociedade nos impõem. A tristeza tão profunda, que se espelha em sons, em imagens, em recordações. As imagens que são mais que repetidas, que antes associava a bons momentos, a segundos de crescimento mental tão rápido. Agora fica só a distância, a impossibilidade de voltar atrás para fazer a mesma coisa, tentar roubar-te todo o amor, todo o carinho que demonstras conseguir ter. Todo o teu ser feminino que não parece caber nesse corpo frágil.

Preferia que não houvesse a mais pequena esperança de poder estar contigo de novo, espelhada num simples beijo que se envia numa conversa ocasional de telefone, ou por intermédio de terceiros que, alheios a toda a questão, se tornam mensageiros de incertezas, ladrões de paz de espírito.

O vinho saboreado que nunca mais soube a fruta, do qual nunca mais se sentiu a suavidade gustativa, a espiritualidade do seu corpo. Recuso-me então a querer pensar mais em ti, em todo o mundo que criaste e que destruíste em segundos, para que de novo o faças erguer das trevas, num eterno retorno tortuoso.

Onde estão os mares ou os rios que choravam por mim, tocados pelos ventos meus amigos, pelas brisas fortes que me trespassavam? Onde estão as florestas verdes onde me escondia do mundo, para repousar de ti sobretudo?

Sempre e sempre a mesma treta lamechas, a mesma choradeira inútil, que acentua os olhares tristes e distantes. Procuram-se os nevoeiros quentes que nos abraçavam a alma e que nos reconfortavam por breves momentos, para que dormíssemos descansados, sem pensar na falta que temos um do outro, que eu tenho de ti.

Tornam-se tão com sentido todas as palavras dos poetas, que têm a responsabilidade de as terem escrito, espero eu que sentindo tudo o que elas trazem consigo. Perdem-se os amigos no entretanto de algumas notas dispersas, música de fundo em conversas de desabafos que agora só trazem consigo a muita pena de não ser dono do teu desejo.

Segunda-feira, Setembro 28

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Férias de Verão




Tinha acabado de lavar os dentes no lavatório ao lado do teu, onde estavas a limpar a pele e a por um creme hidratante. Dei-te um beijo fresco entre o pescoço e o ombro, que é o sítio do corpo humano que mais gosto de beijar; não porque goste que me façam o mesmo, simplesmente porque gosto de o fazer. Tinha reparado que era um pescoço grande e fino e resolvi beijá-lo, passando por cima de toda a timidez que me atormentava.

Depois fui para o nosso quarto quase a correr, pensando que não te deveria pressionar. Mais nada de físico se deveria passar entre nós; tanto que não me lembrava se tinhas ou não sido receptiva ao beijo.

No resto das férias resolvi juntar-me ao grupo com quem estávamos, não te ignorando, mas também não te dando demasiada atenção. Procurava olhar-te sem que fosse em demasia, para ninguém desconfiar.

Eras alta, bonita, mas não bonequinha de porcelana. Os teus seios eram lindos, pequenos, redondos e firmes, tal como os poucos músculos que se notavam, para além da tua estrutura óssea e contudo, não eras magra, nem de formas inexistentes.

O meu deleite acabou com aquelas férias e nunca mais te vi, por inerência dos rumos distintos que as nossas vidas tomaram. Foram os últimos dias em que amei alguém despreocupadamente.

Hoje, o meu marido tem outras amantes e eu tenho apenas a tua recordação. Agora tudo é muito mais físico, apesar da tua ausência. A ausência é um obstáculo que os anos e o conhecimento do nosso corpo fazem ultrapassar. A única ausência real é a do teu cheiro ou do cheiro a creme hidratante, porque as mãos grandes de dedos finos com que o espalhavas, continuam a encher-me o corpo sem nunca me terem tocado.

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Os Monstros




Os monstros sentavam-se nos sofás vermelhos. Tu chegavas, sentavas-te e pedias uma bebida forte para o travo amargo de boca. As cores azuis do céu de fim de tarde estavam lá fora e ali apenas se vislumbravam pouco menos do que sombras coloridas. As bebidas fortes em sítios escuros funcionam como o perfume que dá a cor necessária ao sítio.

As tuas pernas eram portanto escuras, porque era assim é que eu as via. Longas e bem torneadas. Os monstros ao fundo do bar riam-se entre eles como se estivessem nas conversas mais secretas. Na parede ao fundo do bar, onde alguém pintava uma parede com acrílico e pincel n.º 1, parou o artista. Olhou para ti e foi-se sentar no bar a beber shot’s de uma bebida branca. Reparei que mais tarde já chorava para o barman, que parecia um anjo da guarda e não sei mesmo se não teria asas.

Quando me olhaste transformei-me em cubos de gelo, mergulhados no Scotch de um dos monstros. Fui bebido e diluído por entre as conversas que se transformavam em letras, negras e gigantes, que envolviam todas as curvas do teu corpo. Fui cuspido por entre gargalhadas obscenas que se tornaram ácido e me corroeram a pele, a carne, o osso.

É sempre bom saber que me levarás para casa nos teus braços. Quase inconsciente, me despirás e me aconchegarás o cobertor. As palavras serão expelidas pelo interior revolto e terão talvez a doçura de uma manhã fresca, com muita fruta.

É pena que a noite termine quando falta o tabaco. O último cigarro será fumado na cama; sempre na cama, a olhar a parede branca meio desfocada pela luz amarelada do candeeiro, a ver a luz da manhã por entre as cortinas bordadas da janela. Nunca mais assim será. Dormia-se tão bem por entre o calor de aprender a viver, na casa grande de passadeiras vermelhas; nas tertúlias de quartos, por entre a música do ilícito, por entre a teoria da conspiração, do simplesmente não saber quando é que esta nossa vida terminaria.

Há sempre irmãos adoptivos ao longo da vida. Adoptamo-nos uns aos outros, podendo sempre dar um abraço apertado, fazer um grande sorriso. Pôr a conversa em dia é fácil porque se sabe exactamente onde a conversa ficou, quais eram as pessoas que nos rodeavam. É sempre tão bom gostar dos irmãos adoptivos; pensar nos dias em que se pensava que nos veríamos certamente todos os dias, que podíamos contar uns com os outros a todo o momento.

No caminho de casa havia um monte verde em frente, que agora é uma urbanização. Há sempre mágoa na distância; nas coisas que se perdem, nas luzes que se apagaram. Houve fantasmas que nasceram, que repetiam o abraço apertado já só no pensamento distante.

Faz sempre tanto frio no Inverno, quando se vai para casa com a chuva e o frio a cortarem a pele da cara, misturando-se as gotas de água da chuva com o cloreto de sódio dos olhos e do Gedeão.

Sexta-feira, Setembro 25

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Sons




Afasta-te dos sons; pensa no silêncio e individualiza-os de dentro para fora. Os sons assim sabem bem melhor; podes ouvir um bom vinho, um charuto, uma comida italiana, ou pelo menos tentar, já que nem sempre sai bem a audição. Lá vêm os estados de espírito reflectidos na cozinha, no seu sabor, no sabor do que as mãos nos dão. Logo, as mãos também pensam.

Ouves o quê? Ao início só uns ruídos muito cheios no espaço, que pouco a pouco se tornam elípticos. Ouves os pássaros do vizinho do 3º direito; ouves o choro da criança no 5º esquerdo; ouves alguém a apagar e a acender uma lâmpada. Sentes o som do vento de fim de tarde a fazer-te cócegas nos ouvidos; sentes o som da tua pele a esticar com a “pele de galinha”. Sentes o som de uma melancolia qualquer que passas logo a associar à música que pões no leitor de CD’s.

Sentes o som das teclas no computador e o som do teu pensamento que te grita que escrevas mais e mais rápido.

Sentes o som do desprezo, do desconforto que a ira que paira sobre ti te corrói de minuto a minuto; sentes que tudo morre aos poucos dentro e fora de ti. Ouves o canto dos anjos que desejas que te acalmem, o som de um canto longínquo ouvido num bar. O que é? Um fado de Coimbra? Cantado por uma mulher? Deves estar muito alucinado com o vinho, porque isso é impossível, mesmo para que não tem em conta esses sexismos.

Sentes aquele som da despedida que se prolonga pela eternidade, que é tua e que se perpetuará por outras eternidades que não as tuas. Os sons perdem-se rapidamente na tua cabeça e ouves-te a berrar com a tua companheira como um touro enraivecido; ouves os carros passar lá em baixo, os bêbados que saem do café do rés-do-chão do prédio.

Ouves o barulho do motor de arranque do teu carro; o som sublime de uma rádio local, em hora nocturna, mesmo antes de ouvires o som das faixas de rodagem, que se despojam perante os teus pés voadores. Ouves a lágrima que cai do nariz para a ponta do cigarro aceso. Ouves o desespero de sono do homem que te serve o café na estação de serviço.

Ouves a voz dos teus pais, que chamam por ti, para te darem colo como se ainda vivesses a tua infância.

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Fim de tarde




O fim da tarde na cidade é marcado pelo som dos sinos de uma torre. São seis horas e eles tocam incessantemente; num naqueles dias em que se ouvem tão bem que o som entra dentro de nós, impondo uma cadência, agora mais lenta, aos passos das pessoas que se arrastam para suas casas.

Pastas na mão, vazio no olhar, ou olhar de quem tem os pensamentos tão longe que não no trabalho, na casa e na sua vidinha e um homem passeia-se a pensar dessa forma. Daí a uma hora ou algumas horas descobre-se numa rua cruzando-se com um homem de enxada na mão, que lhe deseja uma “boa noite”, seguindo viagem sem esperar resposta. Afinal perdeu-se no pensamento e foi andando sem parar. Deve estar nos subúrbios da cidade ou em outro qualquer ponto de uma realidade à sua escolha, porque agora é livre.

Sentado no sofá, um dos filhos diz-lhe que chumbou de ano. Não responde e vira-se para o computador do escritório desistindo do seu filho. Considerava-o o prolongamento de si, a sua imortalidade até ao dia em que desistiu de si. Refugia-se no seu mundo escritório, no seu trabalho, na sua ciência que lhe dá a projecção necessária rumo ao infinito, para onde acha que segue a sua vida.

A sua companheira escreve na sua mesinha de carvalho o seu interminável caderno. Sorri, embrenhada que está na alegada loucura de acreditar que ainda tem sonhos. Por vezes, uma lágrima escorre-lhe pela face. Ao lado, o filho mais novo imita-a rabiscando uns papeis soltos, calmo, triste.

Acabam o fim da tarde sentando-se na varanda do apartamento, olhando o sol que se põe para os lados do mar que não vêem, mas que sabem estar lá. Nas férias de Verão irão para lá, para serem um pouco mais felizes, porque vêem o mar e porque lá não há sinos que tocam às seis da tarde. Os carros buzinam lá em baixo na rua, ouve-se ao longe o barulho de um carro de emergência médica...

Domingo, Setembro 13

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Avenida Fernão de Magalhães




O trânsito do fim da tarde repete-se como caótico. Inúmeros carros com apenas uma ou duas pessoas dentro, constituindo o maior desperdício de espaço de todos os tempos. A polícia comanda as operações, como se fosse possível refrear um desejo de sentar num sofá, de beber uma cerveja, de não pensar em nada, só nas imagens de um filme que não se vai ver até ao fim, porque amanhã é dia de dormir e porque agora não há nada a fazer contra isso. As ambulâncias e os carros do INEM percorrem as ruas, barulhentos, cabendo nos cantos mais recônditos do caos.

A luz escura e sombria, própria da hora, dá um ar seco e indiferente às pessoas. Outras há que nem escondem a irritação, outras que acendem o cigarro e fumam calmamente, com o suspiro das incertezas da vida, com o desejo de um banho quente e reconfortante. Uma mulher prepara os papéis necessários para uma qualquer reunião; um homem olha para a canoa do rio, com os olhos da distância da sombra de uma árvore vista de uma janela de prisão; ao longe, verde e fresca.

Um outro homem, de sorriso na cara, lê um bilhete. Que jantar o esperará? Que braços lhe cobrirão o corpo? Que beijo de boas vindas cairá na sua face?

A Câmara Municipal está toda iluminada e os arrumadores de carros aproximam-se dos seus territórios nocturnos. Ainda se fazem compras nas lojas, mesmo ao lado daquela fila interminável de gente cinzenta para o autocarro.

Alguém provocou um choque entre veículos e eu desespero por não conseguir encontrar o teu cheiro na minha recordação, por entre os capítulos de um livro que esfolheio. Semáforos atrás de semáforos e chegarei já tarde a casa, onde não me esperas, onde nada mais encontrarei do que livros desarrumados e espalhados por toda a parte. Na casa onde não terei vontade de cozinhar só para mim e onde mastigarei um queijo, regado com o vinho de ontem, já demasiado oxidado, mais doce ao amargo de boca.

Passam os estudantes para jantar nas cantinas; passam os velhos do jogo da sueca acabado no jardim. Ainda alguém olha as montras e quase que pisa quem está deitado sob elas. Ouço no rádio, “trânsito congestionado na Avenida Fernão de Magalhães”. Mudo de estação, para não pensar no assunto.

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Princípio




“A princípio é simples, anda-se sozinho.”

Nascemos e logo, se nos for permitido pela ventura, ciência, deus e outra infinidade de coisas que nos transcendem, vivemos. Temos então de viver apesar das coisas não terem muita piada ao princípio. Se tivessem piada por certo nos lembraríamos. De qualquer forma, se formos de uma família economicamente saudável, teremos uma infância feliz, cheia de eventos que nos irão condicionar os actos ao longo da vida.

- Então, quando é que se dá o verdadeiro princípio?

- Para mim foi desde o dia em que te amei pela primeira vez. E não tomes isto com uma frase feita e lamechas, afinal estou no leito da Morte. Qual a melhor altura para chegar a uma conclusão destas? No fundo sempre suspeitei disso, mas só agora o posso afirmar seguramente.

- Não sejas tolo.

Procurou então mover a cara para o lado, para que ela não visse as suas lágrimas. Os velhos hábitos não se perdem, principalmente quando vêm de muito antes do princípio. Muitas vezes lhe disseram que os homens não choram, mas ele chegou a outra conclusão quando a conheceu. No entanto não conseguia evitar, nem ao fim de todos estes anos juntos, nem no fim de se ter convencido de que não era preciso ter vergonha, nem quando a vergonha se tornou algo insignificante que para nada contava.

Chorou então para ela, após ter reparado que ela esboçava um sorriso; aliás como sempre fazia. Esta cena havia-se repetido vezes sem conta ao longo da sua vida em comum; a conversa, o choro, a vergonha do choro, o sorriso e por fim a coragem de chorar, que leva ao abraço consequente e por aí adiante.

Volta-se ao princípio cada vez que uma cena destas se repete, cada vez que se descobre o porquê de respirar. Querer sair da cama, tomar um pequeno-almoço, dizer “bom dia” e partir para fora de casa como se tudo fosse uma aventura, como se nada tivesse um fim.

Então vem a pressa e quando nos perguntamos pelo porquê dessa pressa, percebemos que perdemos algo que esteve mesmo à nossa frente. Volta-se ao princípio depois da breve reflexão e, eventualmente, depois da breve lágrima de pena.

Domingo, Setembro 6

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Um dia




Um dia acordou para uma outra realidade. A luz forte do início do dia, misturada com a humidade matinal, feriu-lhe os olhos e espirrou, lacrimejando um pouco. Hora qualquer; pela primeira vez de manhã ler um jornal, beber o café, fumar o cigarro e cheirar, de peito bem inchado, a mistura de todos os odores matinais.

Por acaso ela estava com ele, embora quase imperceptível, que aquele momento era só dele. Enquanto descobria o prazer anteriormente descrito, descobria-a como ser que, por qualquer razão, estava a seu lado. Ela descobria aos poucos que o amava; ele também, faltava apenas saber que ela o amava. De qualquer forma nada disto é meritório desta narrativa ou de descrições aprofundadas.

A única coisa que interessa é que é de manhã, uma daquelas manhãs das quais ele só se recordava na infância. Estava um cheiro novo para além do cheiro da neblina, o cheiro a sono dos dois corpos que, por acaso, se tinham juntado pela primeira vez nessa noite.

- Amas-me?

- Sim, amo-te. (Sem muita convicção, mas ando para aqui a descobrir umas novas sensações a que talvez possa chamar de amor. Logo se vê).

- Estou muito feliz por estar contigo.

- Eu também. (Deixa-me lá aproveitar estas novas coisas, que me estás a dar e que eu estou a adorar.) Sabes? O pior é que estou mesmo a gostar. Tenho medo e isso afigura-se como inevitável para mim. Desculpa lá esta desconfiança e este egoísmo. Tenho a certeza que daqui a uns tempos estou a pensar de outra forma. (Sim; fica só a sorrir assim para mim, a encher-me o ego e deixa-me só acabar o jornal.)

Acaba-se o jornal e calmamente retorna-se às coisas da vida. Aquelas que são demasiado cansativas para integrar esta história, apesar de moldarem as personalidades de ambos. Agora só ao anoitecer vão encontrar aquele momento especial da manhã que acaba. Nestes passos seguros que são dados pela rua, caminham para a vida real que os espera lá ao fundo. Pensam que são lúcidos em relação aos seus sentimentos, ou pelo menos tentam ignorar que não se sente lucidamente.

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Psicadélico




Cabelo da cor de arco-íris, olhos de lince, de beijo quente e eu para aqui a escrever sobre isso, como se fosse imune a todas essas coisas do corpo, do material. Tudo é sempre demasiado vago para ser escrito, registado.

- Espera aí que o gato vai a passar no corredor.

- Não é nada, está descansado.

E tu que dormes e que vais ser despertada por mil despertadores e os últimos vão parecer os sinos de Nossa Senhora de Fátima. Tu que pensas o bom que era ter um corpo quente agarrado ao teu e talvez desconheças esse prazer, esse vício.

Os tecidos do pijama colam-se ao corpo, lentamente o calor aumenta. Segura as mãos e a racionalidade. Foge do desconforto de seres politicamente incorrecta e sobretudo, de te sentires mal com isso.

O planeta é demasiado grande e azul para que se registe tudo o que nele se passa. Nós é que nos lixamos, que temos de viver nele, de o aturar a ele e mais às suas taras. Pianos velhos tocam notas desafinadas de um instrumental esquecido. Eu tomo o vinho como bom e reparo nas tuas sardas e no sorriso que elas trazem atrás. Aparece uma guitarra havaiana e penso no teu fio dental, no vestido de um tecido transparente, fresco e lindo. O fim de noite, o tirar da t-shirt repentinamente, “como quem chama por mim”. A calma do encontro físico, do quente-calmante, da verdade nua e crua. Há pessoas tão infelizes no mundo, tão subjugadas à realidade que não conseguem apreender o sonho esforçando-se continuamente sem parar.

O Grito.

A calma do vento que passa por entre o alecrim da serra.

Caminha por entre a tormenta de pensares, de seres tu simplesmente como te apetece. A loura mascarada de qualquer coisa que não te atrai. Há alguma coisa que te atrai no mundo?

Não. Pois, está bem. Até amanhã.

O cinzeiro cheio por um montão de beatas de cigarro, algumas beatas de cigarros de enrolar e algumas beatas de outras coisas que se fumam, porque sim e não há mais nada a escrever sobre isso.

Vias as estrelas desaparecerem por entre o nascer do dia, quando os crepúsculos eram cor-de-rosa e a aragem era já muito quente. Deitada na relva fresca, onde as formigas te beijavam as costas e a terra era uma cama fofa e confortável. O frenesim das abelhas madrugadoras já se fazia notar em zumbidos harmoniosamente zumbidos.

As pessoas ambiciosas ficam feias e carrancudas nas noites de lua cheia. Nas noites de outras luas também, mas hoje é noite de lua cheia. A lua estática e brilhante como o brilho dos olhos das pessoas ambiciosas. Um brilho estático não brilha, é um dado cientificamente comprovado.

O medo, o pânico, o prazer. Músculos tensos, doridos, a doerem de doer. O piano está a gozar comigo, mas dá-me força brincar assim com ele. Tenho uma cerveja morta em cima do piano e trazes-me a frescura do teu cheiro e do teu porte; os brincos longos, o chapéu discreto da moda Outono/Inverno, os óculos de Conde Drácula do Coppola, o beijo dos lábios carnudos e perfeitamente coordenados, linha de um deus maior qualquer; as passas do Algarve para te encontrar enfim nos meus braços.

Sábado, Setembro 5

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Paixão




O sorriso amarelo de quem sabe que a seguir ao meu último gole de aguardente velha, ao teu último copo de Gin, talvez tónico, os corpos se vão unir pela primeira vez. Suados, cansados da solidão de todos os tempos vividos, mas que agora já nada valem, por terem passado ao passado. Já não bastam paredes cheias de quadros, nem o CD que se ouve e que se pode escolher por entre muitos, nem o vinho que nos acompanha, nem os quadros que se pintam, nem os pensamentos que se escrevem.

As nossas rugas de expressão são o primeiro sintoma de algum cansaço, prenúncio da rápida cedência física às directivas da nossa cultura. Não podes estar só, não podes ficar só, mesmo que estejas habituado a isso e mesmo que seja isso que queres para ti, para a tua imagem para com os que te rodeiam. Pegas-lhe na mão como se fosse um arbusto que te salva da queda vertiginosa de um precipício.

O silêncio de duas bocas, ou talvez a coragem de deixar sair um desabafo estúpido pouco a propósito, em jeito de justificação plausível. Mas amanhã estaremos juntos outra vez, porque tem de ser, porque é a vontade de ambos e porque é o medo de ambos.

A partir desse momento, escolhido para ser o ponto de partida, o teu cheiro aflora a superfície das situações quotidianas mais corriqueiras. Aquelas coisas do dia-a-dia a que falta associar um cheiro bom; um cheiro de querer muito um brinquedo, que se cobiça, na montra da loja quando se tem seis anos de idade.

O Verão corre rápido e ninguém se lembra que ainda nem começou. A pele de galinha é uma constante nas noites que se pensam quentes e tu apareces a saltar por entre ideias, por entre as palavras desconexas e uma profunda insatisfação qualquer que, de tão importante, se tem medo de procurar as razões mais próximas.

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O cheiro




A chuva de final de Agosto molhava a terra e fazia com que o cheiro de terra molhada entrasse nas narinas e acordasse a pessoa mais distraída. Era o final de um Verão quente, muito quente e seco e aquela chuva era já bem vinda, fazendo com que houvessem sorrisos em todas as caras. Lembrava-me do cheiro da camada humosa que jazia debaixo de um castanheiro e do vapor de água que dela saía, quando aí metia as mãos e o fresco daquela água tornava-se quente, húmido e acolhedor. Os pássaros piavam mesmo assim e parecia-me esquisito, porque pensava que os pássaros paravam de piar quando chovia.

Nesse Verão tínhamos feito amor debaixo do Castanheiro, ao som de uma música calma, com guitarras de uma época já distante. Aquele medo de pedir-te em namoro, a dúvida disso mesmo, de tudo e de viver as coisas da vida tão intensamente como quando o nosso coração era o de um cavalo alazão em permanente correria. Depois acabei por preferir beijar-te e abraçar-te em jeito protector, com um sorriso nos lábios e mudo, que era para não dizer porcarias.

Seguiram-se mais umas noitadas nesse final de Verão, muitos copos e sorrisos sem compromissos. Fui para a faculdade. Fui-me embora, mas guardei o teu cheiro numa recordação distante dos meus ficheiros de memória. Provavelmente lembrei-me desse cheiro, numa ou outra noite em que, de tão bêbado ou só sem estar etilizado, me restava apenas o cheiro, já não recordando o castanheiro, a chuva e o final daquele Verão.

O cheiro a terra molhada voltou em toda a sua plenitude no dia em que te voltei a encontrar. Mesmo assim pareceu-me apenas familiar e nada estranho. Deste-me um beijo e recordei um sorriso que não sabia nem onde, nem porquê tinha sido feito. O piar dos pássaros continuava, mas agora estava associado a outras lembranças de manhãs de nevoeiro, a outros sons díspares e a outras aventuras sem castanheiros.

As noites quentes voltaram todos os anos, com a renovação da importância do teu cheiro a terra molhada. Tinha saudades de ruas de grandes prédios; de movimento, de carros, buzinas, muitos néons e algumas músicas apropriadas a essas noites. Tu vinhas também contar-me outras noites, diferentes por serem tuas, debaixo de um castanheiro, enquanto bebíamos cervejas e ouvíamos músicas de outras épocas.

Veio a noite em que trocámos palavras, experiências, lágrimas e tudo soou como que a novidade, até aquelas coisas que eram tão usualmente nossas. Sente-se o coração a bater outra vez, sente-se que não há mais tempo a perder. Todas as noites ficam iguais pelo prazer tão simples de estarmos juntos, de termos coragem de sentir a vida sem remorsos, de recordar os sorrisos de outros nos momentos menos bons.

No fim de Agosto, numa tarde em que líamos livros debaixo do castanheiro, começou a chover. Olhei para ti e sorri quando disseste, de lábios a tremer, que te lembravas do cheiro de uma noite, depois de uma chuvada como esta, debaixo de um castanheiro.

Sexta-feira, Agosto 28

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Musa

A mochila de cabedal a tiracolo e um andar pelas ruas com a segurança de um gigante rodeado por formigueiros. O café a complementar o sal da comida do almoço e o cigarro fumado, graças aos dedos finos e compridos, proporcionais ao tamanho das mãos. O gesto firme e o tique nervoso quase imperceptível, mas indisfarçável. Outros dias houve em que se conseguia ter uma conversa de café, sem que existisse a necessidade de ter o semblante carregado, sem que a boca se enche-se de conversas sérias, profissionais, horríveis,
O mundo adquire a textura e frieza do plástico e, mesmo que o céu fique limpo, parecerá sempre que tem uma cor baça, próxima do cinzento da poluição das fábricas. A pele branca será macia nas horas de descontracção mental e as rugas de expressão tomam proporções e contornos de estátua grega, num jogo de luz e sombra.
Às vezes tomas poses de princesa de conto de fadas, a bordar linho e a picar dedos em agulhas. Da ferida jorram palavrões, incertezas, irritações momentâneas e facilmente ultrapassáveis. O brilho existente nos teus olhos confunde-se com o dos objectos metálicos que pendem das tuas orelhas e do lampejar do olhar sarcástico, fruto da boa disposição que os ácidos têm quando estão guardados num frasco de laboratório.
As muralhas erguem-se sempre mais alto, porque há a necessidade de defesa, teórica e prática. As muralhas desmoronam-se quando uma distracção, talvez propositada, se converte em abalos sísmicos a grande escala. O sorriso vem acompanhado de subtis afagos de pele, de beijos de lábios molhados, de promessas vãs sem sentido. Os pensamentos sérios poderão sempre tornar-se pesadelos, problemas, frustrações constantes, daquelas que, felizmente, adormecem de quando em vez para que o guerreiro possa descansar e preparar-se para nova luta.
Os olhos vermelhos de lágrimas a olharem por cima de um lábio trémulo, de súbita lucidez. Tinha vontade de te dar um enorme abraço de reconforto, de amizade extrema e respirar fundo, para que sentisses a força do meu peito, o porto de abrigo, protector de uma tempestade crónica, que será a tua vida. Não dou porque te tenho de manter na distância de musa.

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Miles

O sopro profundo e demorado a revelar um fôlego de gigante; o suor da testa a fazer com que brilhe como uma lua em quarto crescente; a concentração de quem busca um zen e fico sem saber se era profissionalismo, génio ou sentimento bruto, apresentado sem ser esculpido. Fumo na sala não sei se havia, mas penso que sim. Olhos grandes e secos, feitos quando deus se lembrou de inventar o Vodka Tónico. As ancas vincadas e os seios firmes de uma mulher marcados na luminosidade do teu rosto através dos músculos faciais, seguindo um ritmo regado de suor. Suspeito que fazias amor contigo mesmo.
As barracudas vêm por mar numa manhã de nevoeiro, em cardume que mais parece um bando de pássaros. A tarola solta-se como que descontrolada e vem uma vontade de ter espasmos, de sorrir, de rebentar com o coração que acelera como o de um velho taquicardíaco de oitenta anos.
Levanta-te, acorda para a vida e ressuscita de toda a morte dos preconceitos. Esta é velha e ultrapassada mas ainda cai bem. Os cabelos longos até por debaixo dos ombros; a franja certinha, de cabelos lisos e finos, o sorriso a contrastar ligeiramente com a pele branca. Mas agora já é noite. Lembro-me do teu olhar perdido no reflexo da Lua, da pele branca digna de um sonho gótico dos escritores do século XIX.
O suor e os seus mais diversos sabores em ti, como se me perseguissem; o sumo da tua saliva e o adocicado da tua pele. O cabelo molhado do cansaço e do banho também; as florestas tropicais e todos os ecossistemas possíveis, até o deserto com a água dos seus cactos. Beijos dados numa intensidade calma, como se fosse possível, e todo o pensamento surge tão somente de uma força interior.
O ombro feminino revelado por um espaço entre os cabelos; ao longe e meio desfocado a força bruta da vontade do ser humano, o domínio da natureza, a festa brava. Os espelhos reflectem a minha imagem, perseguindo-me ela também. O sabor amargo do Vodka Tónico traz outra vez as memórias, a felicidade que falta ao momento, as alucinações de dançar sem som.
Há sempre trompetes a tocar pelos cantos, por sítios e nas épocas menos esperadas; parecem pássaros a cantar uma qualquer glória da natureza e outros sons parecem uma crua realidade, os pesadelos, as sombras de nós próprios.
A percussão bate forte em todos os sentidos e continua a ser o som capaz de provocar um quase orgasmo num ser humano, na medida em que apenas se ouve e se deixa entrar pelo corpo adentro. Alguém diz que os bateristas têm sempre uns braços lindos.
- A cerveja, onde está a cerveja?
Cinzeiros já cheios e o empregado que já não se preocupa com a limpeza; com os amendoins que se misturam com as gotas de cerveja que caíram na mesa e com as peles e cascas. A mistela é repugnante, mas de repente tudo se cala e ficamos meio perdidos naquela atmosfera de silêncio. Eu lembro a Lua e o reflexo das pedras de calçada nas noites de chuva fria.
Há sempre um piano que jaz num canto da sala; há sempre uma voz que se sobrepõe às outras. Tens medo de olhar nesse sentido porque pode sair alguém nada interessante. A cerveja molha-te os lábios de vez em quando. Afinal vês as pessoas felizes, pensado que talvez seja só uma moda de toda a gente se amar muito.
Um Cohiba a rodar e uns quantos comentários de tentativa de falar a sério. As conversas paralelas, silenciosas através das trocas de olhares paralelas.
- (Para onde vamos a seguir?)
- (Vamos para casa. Despistamo-los, para irem dormir e depois voltamos para a noite.)
- (Não penses que me vais levar a casa e depois vais sair com esse gajo para os copos. Queria passar a noite contigo!)
- Vou para casa e não vai dar para ir contigo porque tenho aulas amanhã e quero ir dormir.
As reacções, as mentira e voltávamos a rir, como se tudo fosse tão idílico como um quadro de um restaurante chinês; como se fosse música tocada em guitarra clássica. A cidade tinha sempre algumas noites quentes e nesses tempos os corpos amavam-se pelos jardins, por entre árvores, arbustos, fumos e líquidos. Nascia o desgosto precoce de aqueles dias terem um fim, que era mais que certo, a certeza de que nem tudo são rosas, que nem tudo é feito de eternidades, apesar dos momentos se apresentarem sempre como tal.
Gostava particularmente dos olhares concentrados em livros de folhas brancas, de tão novos que eram. Gostava de ver aquelas figuras sentadas ou deitadas, com sorrisos ou de semblante sério, a devorarem palavras umas após as outras. Queria ser todas as palavras do mundo e queria ser todas as construções frásicas adequadas a todas as situações.
Arrastava o meu corpo e o de um amigo pelo cimento de um chão anónimo e por entre o grito intermitente de “eu existo e sou feliz”. Escrevíamos um cadáver esquisito; “ela esta a escrever contra um poste, olhou e, por entre o desequilíbrio, conseguiu sorrir. Eu dei o papel de multibanco e ele deu a caneta”. Como se toda a gente se tivesse sempre de complementar com alguém, como se nunca fossemos nada sozinhos.
Na casa labiríntica de divisões e de pessoas, procurávamo-nos uns aos outros e a varanda era reservada a todas as dúvidas e a todas as verdades. As cenas do costume por entre conversas, beijos e desalentos. Alguém ri de uma cena comum; alguém chora muito de uma insignificância importante. Eu queria-te no meu mais profundo íntimo, por mim guardado a sete chaves. Gostava dos raros abraços e dos raros momentos só nossos. Ouço sempre música clássica quando penso em ti, para dar melodia contínua a um sonho tão disperso em momentos.
A comunicação tem a vantagem de permitir coincidências tais como as sintonias. O sarcasmo de um sorriso de alguém que finge perceber tudo, ou perdido na tua figura, na tua existência próxima e constante. As paredes brancas faziam-me companhia nas horas de queda vertiginosa, deixavam, no entanto, de ter o ar acolhedor de almofadas para passarem a ser só paredes, só cimento e só tinta fria.
O rap jazz sucedia as canções meladas do Chet, para que o contraste tivesse lugar no mundo. Os sorrisos de fim de tarde faziam logo anteceder a noite, para trás do limbo matinal, quando não se lhe pode chamar de inércia total. O Miles vinha ter connosco à hora de jantar, como se fizesse alguma falta e o Whisky não fosse suficiente. Os passos seguintes eram desencadeados nas calçadas das ruas, vinham com as piadas, as conversas sérias, as conversas mais sérias ainda, quando duas pessoas se afastam para estarem mais à vontade. Vinham os sonhos, as vontades – sim, porque eram muitas – e a felicidade de tudo e de nada.
Às vezes a corrente do rio era forte, tal como as nossas ambições que se revelavam no encher o peito de ar, que vinha de uma serra distante, que percorria todo um vale. Deveriam haver sempre garrafas para beber, tabaco para fumar, e sorrisos eternos feitos de concretizações, de sonhos e medos também, que nos fizessem crescer mais e mais.
O vinho do jantar era delicioso, quando os travos eram engolidos, com toques por baixo da mesa, com olhares de engate ou talvez não, mas como se querer fosse proibido e secreto.
Preferia depois os momentos de me deitar a ler um livro a ouvir ópera, escrevendo em papéis, mais tarde em folhas e depois em cadernos mais organizados dentro do caos. Os fantasmas e os anjos juntavam-se para me beijarem, quando me rodeavam como moscas no final de tardes de Julho.
A solidão existia porque tinha de ser e mais nada há a explicar. Porque choram assim os trompetes e todos os instrumentos, como se prolongassem e apregoassem a dor de quem os toca, de quem os ouve? Deixaram um dia de tocar esses sons, no bar, supostamente incorruptível onde nos refugiávamos.
Descansas finalmente e vais dormir um pouco durante as horas que te forem dadas. Respiras os últimos acordes na casa labiríntica onde ainda se faz amor pelos quartos. O teu quarto tem sempre luz exterior que viola o espaço pelas frinchas dos estores. É dia já, ou nunca anoiteceu, ou tudo parou, estático, todo o mundo, para que nenhum tempo morto exista; o horror a vazio e o barroquismo, o sono e o cansaço...

Quarta-feira, Agosto 26

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Carta a Vergílio Ferreira

São três da manhã e acabei de chegar a casa. Sim, possivelmente vou descrever o meu dia. Não faças essa cara carrancuda agora; se não quiseres ler, não lês e pronto. Só estou a escrever para te comunicar uma única parte do meu dia. O resto terão de ser meros desabafos, que vêm por acréscimo e que são necessários apenas para mim. Um artifício para escapar à forma literária de um diário, porque fugi disso há alguns anos e porque hoje me declarei definitivamente contra eles.
Devo, por certo, pedir-te desculpas por este tratamento informal a que te submeto neste momento. Pergunto-me se gostarias de receber tal carta. Será que irias abrir o envelope? Se o abrisses, será que passarias o cabeçalho e o “Olá Vergílio”?
A minha única explicação é que te tomei como meu e, como tal, se nunca fomos apresentados e eu até leio o que escreves-te, passas a ser meu como eu quiser, até que me arrependa ou que alguém mais leia isto. Aí então, terei de arcar com as consequências e logo se vê.
Não sei o que se passou durante o dia, ou simplesmente não quero saber. Importa é que eu te diga o que te tenho a dizer, para despachar estas lérias de que não deves gostar nem um pouco. Estive contigo numa loja. Encontrei-te numa prateleira, no meio de um punhado de livros muito coloridos e outros coloridos, mas não muito.
Sabes? Houve um dia em que te quis encontrar e não consegui. Queria comprar-te para satisfazer este ímpeto que só tu me provocaste até agora. O ímpeto de querer muito que me fizesses companhia – através dos livros – e que me inspirasses um pouco com toda essa força de querer estar vivo. Pensei que fugiste cobardemente.
Hoje então encontrei-te e fiquei a esfolhear-te e a ler algumas coisas que para mim já não eram novas. Outras eram-no e perdi o interesse de te comprar para te ler, porque não estavam todos os teus livros publicados. Com os anos que convivemos, que já são sete, tornei-me mais exigente e não faço uma escolha que te envolva assim do pé para a mão.
Fugi dali, para sítios onde não tivesse de imaginar os sons. Para um sítio onde eles me saltassem à frente, oferecidos e fáceis de agarrar. Esqueci-te por umas horas e depois foste tu quem tomou a coragem de se meter comigo, até esta hora em que te comecei a escrever, interrompendo assim o monólogo com que me maltratavas.
Às vezes tenho medo das coisas que escrevo, do eu que transparece e de que as pessoas, ao ler essas coisas, não sintam algo de similar ao que sinto quando te leio. Irás portanto, nessa tua dúvida permanente, perseguir-me também neste plano, o do computador e também quando só umas folhas me acompanham. O pior é quando existe o desespero de não ter um papel, uma caneta ou definitivamente, não poder escrever por uma questão profissional ou de cortesia para com quem nos faz companhia física.
Só procuro ligações contigo nas coisas que temos em comum. Preciso de não me lembrar desse teu egoísmo e desse teu alter-ego que me derrubaria num frente-a-frente em cinco minutos.
Só amo muito e tanto que não cabe dentro de mim. Só preciso de escrever essas explosões, esses renascimentos e esses suicídios da forma como penso, ou da forma como prefiro pensar que tu o farias.
Tenho pena. Muita pena que a nossa relação seja esta. Já pensaste que poderíamos ser amigos? Não. Estou a afastar-me de tudo. Não é? Deve ser do cansaço, deve ser das noites inquietas que tenho tido desde que me acompanhaste numa viagem de comboio. Eu sei, deveria saber que corria esse risco. Sabes como é? Às vezes uma pessoa não pensa no que faz e vive apenas como se tivesse pressa de o fazer, porque a qualquer momento tudo pode desaparecer.
Depois há a frustração de não me poderes responder. Pois, similar aquela que o Malraux te pregou. Em primeiro lugar não sei do que se trata, porque nunca li a tua carta para esse senhor…
Não me venhas com essas merdas de ter vergonha de admitir a ignorância. Não li. E agora? O que é que pretendes fazer? Claro que gostava de uma resposta. Deves pensar que sou doido, para estar aqui a escrever e a perder o meu tempo, sem querer nada em troca. Desengana-te, que posso ser simplório, mas não sou um espírito acomodado.
Já vou no segundo cigarro e esta conversa já não tem muito mais para dar. Para dar a mim, logicamente. Tira lá esse sorriso de troça, como que a chamares-me pretensioso. Nunca te dei confiança para isso.
Vou-me deitar que amanhã tenho de trabalhar. Não fiques para aí à espera que eu continue a escrever. Há coisas que se têm de dar por terminadas antes de o estarem. Chama-se isso um destruição precoce. Já agora que estamos nestas intimidades, um grande abraço deste teu dono. Boa eternidade.

Viagens...(cont.)

O Comboio

Uma vez por ano precisas disto; uma viagem de comboio e um livro que não te deprima, mas que te pinte os dias de um cinzento sóbrio, num quadro onde começa a haver espaço para outras cores. Foges para o encontro de um amigo ou alguém conhecido, alguém que te dê um sítio para dormir por dois ou três dias. Se não houver sítio, não há problema porque existem sempre pensões. O problema é se não há amigo, nem conhecido, mesmo que sejam daqueles acidentais e de efémera amizade.
Ainda por cima de comboio. Aquelas paisagens de zonas industriais umas atrás das outras; aquela gente com bandeiras levantadas e de vida em baixo, se é que pensam muito nisso. Quando se tem por objectivo satisfazer meia dúzia de necessidades básicas, sendo comer uma delas, não cabem questões de ordem existencial e sentimental. A não ser que se seja fora do comum e então as pessoas que te rodeiam vão-te chamar de tolo, e dizer “coitadinho”.
(Há pessoas que nascem para absorver o que o mundo lhes dá. Há outras que nasceram para viver tudo o que o mundo lhes dá, sem o absorverem muito, que é para não terem indigestões. Essas pessoas caracterizam-se por um único sentimento que lhes transpira pelos olhos, a indiferença.)
Vão pessoas a entrar e a sair. Os mesmos gestos; a chave a abrir portas, fechar portas, confirmar a partida. Quando o comboio está parado não se ouve barulho nenhum porque a electricidade não faz barulho. Antes de anoitecer vai-se olhando a paisagem. Vem o túnel que tem sempre uma luz ao fundo; depois a desilusão de a paisagem ser igual ao outro lado. As pessoas continuam com os mesmos gestos e com as mesmas expressões.
Quanto mais te afastas do teu sítio, mais percebes que não pertences a lugar nenhum, mas deves continuar a pertencer a algum lado. Mas tu adoras estar deprimido, uma vez por ano, sempre em Março. O tempo do sol e da chuva é que comanda as operações, os estados de espírito, os sorrisos e os olhos tristes. O “tempo da renovação”, a que agora se diz “ser em continuidade” por ser mais centralista e politicamente correcto.
Chegas a casa e olhas para ti; tentas sorrir, tentas dizer que para o ano já não precisas do comboio, que esta viagem resultou, que foi linda no final, que foi o recomeçar. Gostavas de te afogar em álcool e nem para isso tens coragem. Não consegues forjar a tua decadência e tens de viver com esta. Sinceramente, um comboio!!!

Terça-feira, Agosto 25

Viagens...(cont.)

Irish Cofee

- Que deseja? Por favor.
Precisava de um sorriso assim, que me fosse mais familiar e que me trouxesse o conforto de um colo ou de um afago na cabeça. Precisava para isso de saber o teu nome e depois o proferir como se fosses uma deusa e eu o pobre e devoto acólito, sem deixar de sentir todo o fervor ortodoxo que me seria inerente.
- Um Irish Cofee. Por favor.
Uma certeza de que não sou todas as porcarias que penso ser às vezes, fugindo aos pensamentos estúpidos que nos acometem a todos, em algum momento da vida em que nos encontramos menos seguros de nós.
- Aqui tem. Deseja mais alguma coisa?
Preciso voltar a aprender a ser o meu psicólogo, exorcizando estas porcarias de pensamentos que vão crescendo como bolas de neve numa encosta íngreme. Aprender a superar as coisas que nos transcendem, mas que não deixam de ser nossa criação. Preciso acreditar que sou capaz de acreditar em mim e no absurdo que me rodeia. Voltar a juntar as peças do puzzle e encontrar-lhes o nexo, mesmo que a imagem reflicta um Kandinsky obscuro, a negro e vermelho.
- Nada. Obrigado.
Cresce um pouco e olha para a criança que és. Analisa bem os sonhos que carregas irresponsavelmente, sem que te importes se os vais conseguir realizar ou não. Muda a música do bar e trocas o traçar de perna porque tens em conta estes sinais, para que alguma coisa mude em ti, mesmo que seja um pormenor em que só tu reparas.
- Olhe. Por favor.
Não me faça esse sorriso simpático que gostaria de não voltar a por aqui os pés. Gostaria de não a associar a este espaço, a esse uniforme, a essa simpatia comercial.
- A conta, por favor.
Bem rápido, que tenho alguma pressa em sentir a chuva fria a molhar-me sem remédio, sem tecto que me abrigue temporariamente. Quero ter a certeza que sou o único a caminhar devagar pela rua; sentir gota a gota sobre mim, pensar na bebida quente de há uns minutos e na tua simpatia pouco comum por estes sítios.

Viagens...(cont.)

Cinema

Saio do cinema e a noite aparece diante de mim assim vinda do nada, sem que eu esperasse que tal acontecesse ou sequer o tivesse desejado. Vejo apenas as luzes das avenidas, dos poucos carros que passam e do néon de alguns estabelecimentos comerciais já fechados. São só três da manhã. Sinto o ar fresco carregado de humidade e de algum frio, sem vento; aquele ar que faz ter vontade de puxar um cigarro e de ver o vapor a sair da boca, incessantemente, à contra a luz do candeeiro de rua.
Seguem-se os ambientes mais quentes das casas comerciais ainda abertas. Os balcões de madeira ou os de mármore ou granito. Eu prefiro os balcões de madeira, por serem mais aconchegantes e menos pós-modernos. As bebidas.
- Um Vodka Tónico, por favor.
Encostar o corpo ao balcão, que por acaso não tem bancos; reparar no ar carregado de fumo. As pessoas; algumas pessoas; uma pessoa em particular; os olhares.
- Mais um Vodka Tónico, por favor.
O sorriso; as mãos; um cigarro; um desviar de olhar e um pensamento sobre qualquer coisa do quotidiano ou sobre uma problemática mundial.
- Olá.
A timidez; um sorriso e um desviar muito rápido de olhar.
- Queres um copo?
- Sónia.
- Miguel.
- Fumas?
- O quê?
- Estou a perguntar se fumas.
- E eu estou a perguntar o que é que queres fumar.
- Lá fora.
Uma viagem de carro; as avenidas iluminadas; poucos carros; a linha contínua ou a faixa separadora onde se centra o olhar. Outro bar e outras pessoas; agora já só os teus olhos; piropos e novo desvio de olhar.
- Dois Vodka Tónico, por favor.
Uma conversa; um sorriso; um ar sério; o meu apartamento. O bar; os livros; uma conversa; o sofá; uns beijos...
Um cigarro; cinco cêntimos pelo teu pensamento; sorrisos; beijos e alguma melancolia. Alguém disse que depois do prazer do orgasmo é impossível que as pessoas fiquem felizes, que não haja sempre um vazio causado pela felicidade anterior; acho que tem razão.Queres ir ao cinema amanhã?

Domingo, Agosto 23

Viagens... (cont.)

O fumo

- “O fumo azulado”. Grande besta! Onde é que já se viu? Bem sabe ele de que cor é o fumo. Se calhar para ele é tudo muito azulinho. Porra! O fumo é cinzento. Será que o homem tem medo de ser conotado com alguém que vê tudo escuro, tudo muito fumado.
Saca de mais um cigarro e tosse com a pressa de falar. Inspira outra passa, porque há coisas que devem ser ditas depois de uma boa inspiração de nicotina. Também é importante deixar sair o fumo pelas narinas enquanto se fala.
- É cinzento ou não é? Até gosto de ler este gajo, mas sinceramente, “o fumo azulado”.
- É sim senhor, uma salva de palmas para o iluminado aqui ao lado.
Olhas para trás e enfrentas a cara do provocador durante uns breves segundos. Depois olhas para a cara das pessoas que te rodeiam e reparas nas suas expressões de expectativa para as cenas dos próximos capítulos.
Continuas a fumar o teu novo cigarro, agora mais calmamente. Reparas na cerveja, uma caneca de meio litro que tens em cima da mesa e pensas. Pensas em beber e pensas que, nessa noite, o jazz está muito bom neste bar infecto de fumo cinzento.

Viagens... (cont.)

O quarto

O quarto cheio de fumo e de umas quantas notas de um jazz esquisito para o momento, mais as roupas que por ele estão espalhadas, assim como alguns objectos de valor meramente sentimental que emanam esse odor e esses sons. De vez em quando surge um forte cheiro a látex, indício do amor ou sexo que ali acontece.
Nas paredes restam bocados da tua vida e de vidas de outros, que em algum momento contigo se cruzaram. Nunca retiraste nada daquelas paredes. Foste sempre acrescentando e no fim pouco restou de realmente significante. Mais uma guitarra a lembrar os tempos em que era tocada; mais uns quadros pintados, outros reproduzidos e umas fotos artísticas a dar para o pseudo-intelectual.
Dali só saíam quadros inertes e estanques, tal como os livros de uma estante; todos ordenados e sem alguém que lhes pegue há muito tempo, que os compreenda, que lhes dê o uso pretendido quando foram comprados.
- Porquê Klimnt?
- Foram-me oferecidos. Um dia esse gajo e as suas imagens entraram-me pela vida a dentro sem pedir permissão, mas não me importei muito e até gostei. Sinto cada quadro como se fosse um pouco da minha vida, por isso não me desfaço deles, nem de nada do que aqui coloco.
- O que é aquele quadro? É bastante estranho, o artista. Tem aquele toque impressionista e não conheço o autor.
- Aquele quadro foi pintado por três homens podres de bêbados e quem assinou foi o que deu as tintas. Era um direito que lhe assistia. Estávamos num café e uma criança disse ver ali um palhaço, enquanto nós queríamos ter pintado uma natureza morta. Afinal deve ser só um momento que simboliza um caos organizado na vida de três estúpidos felizes. Percebes agora a atrocidade de falar em impressionismo; isto foi só um momento. Vocês e a mania dos rótulos.
- Está bem, desculpa, é muito giro.
- Pois é.
- Desculpa se te estou a chatear.
- Não estás nada. (Esta passa forte no cigarro é apenas um reflexo de nada.)
- Fala-me daquele quadro a carvão ou lápis.
- É um lápis de carvão. Foi desenhado por um turista oriental que estava na mesa ao lado, na esplanada. Deve ter achado piada a um grupo de estudantes a beber e a conversar. Nem se preocupou em pensar se tinham estado sempre ali ou qual seria o seu futuro assim que dali saíssem. Agora é apenas um quadro em que se reconhecem os meus traços e não os das outras pessoas. Ficas tu também a saber que agora já não nos aturamos uns aos outros. Na altura das discussões de café dizíamos entre dentes que até gostávamos uns dos outros, reflectindo o medo que tínhamos de ficar sós. Não deixa de ser bonito; eu hoje é que estou um pouco céptico em relação a tudo. Guardo o quadro porque preciso lembrar não sei bem o quê.
Num dos postais, que estavam pregados num placar de corticite, havia uma garrafa de Vodka, uma perna feminina e um letreiro ao lado, a vermelho, a dizer “O FUTURO PROMETE”.

Sexta-feira, Agosto 21

Viagens...(cont.)

A noite


Muitos copos, muita gente e algumas luzes ténues, que são as coisas que se tornam vitais nas sensações de uma noite. Vêem-se olhares, pensamentos inerentes aos olhares, relações consequentes desses pensamentos, desilusões fruto dessas relações.
- Olá! Boa noite.
- Olá. – Responde uma ela qualquer.
Contra o sorriso enviado houve apenas uns olhos algo cansados do momento e de toda a cena adivinhada em segundos, como o rol de recordações que dizem todos ter no segundo antes da morte nos transportar.
- Poderia passar a noite a conversar animadamente contigo. Faria de conta que me divertia ou talvez me divertisse. Depois, ao fim de umas horas e de percebermos que era como se sempre nos tivéssemos conhecido, com mais umas conversas, iríamos para a tua casa ou para a minha. Poderíamos ainda ir beber um copo a outro lugar mais calmo, primeiro. Depois vinha o cigarro e o inevitável “Porquê?” que nos assombra nos momentos de insatisfação, essa insatisfação sempre mais mental do que física. Portanto, poderemos poupar a futilidade desses preliminares formais ir para minha casa, se te apetecer, logicamente.
Ironia das ironias. Depois de um discurso destes não consegue evitar a boa educação democrática do “se tu quiseres, claro”. Preocupar-se com o facto de ela querer ou não, onde é que já se viu?
Perante um olhar de espanto, seguido de um sorriso de confirmação, seguido de uma boca aberta, como que a querer dizer qualquer coisa, continuam as palavras do mesmo interlocutor porque isto dos monólogos da noite tem muito mais piada
- Eu sei que estou um pouco bruto. Que queres? Sinto-me só, estou cansado e até te acho piada. Apeteceu-me ser frontal. As formalidades são apenas atalhos para o nada, porque só fazem demorar mais tempo a chegar a um objectivo, pior pode-se não se chegar a lado nenhum. Queres vir ou não?
- Desculpa, acho que estás um pouco bêbado demais. No entanto, como és sincero levo-te a casa. Onde vives?
Dorme na tua cama. Acorda e foge para a janela e para o cigarro de fim de noite. Pensas que deverias ter ficado no bar, onde o ambiente estava bom e até te estavas a divertir.
Aquele medo de acordar de manhã a perguntar “o que foi que se passou?” impede-te de voltar à cama, ou talvez tenhas medo de gostar do calor do corpo que tens a teu lado. Pode ser que a pele dos braços que ali jazem seja apenas um engodo, uma isca para atrair o peixe. Pode ser que venhas a descobrir que perdeste o controle dos teus sentimentos.Veste-te então e vai lá ver o nascer do dia a outro lado que não a varanda. Apanha a humidade que te penetra nos ossos lentamente e segue pela rua como se te castigasses. Afinal há sempre outras camas e tu tens de descansar, daí a pouco vai haver outra noite.

Viagens...(cont.)

I – … nas imberbes realidades

Coimbra

Lembro-me de ter estado em algumas casas. Há outras que me são apenas familiares, talvez por as ter visto centenas de vezes. No entanto, tudo se resume às pedras da calçada irregular que me fazem tropeçar no regresso a casa; a passagem dos caminhos que me levavam a algum lado, mesmo que não me recorde frequentemente dos sítios onde estive.
As pessoas aparecem ligadas às imagens, mas pouco importam. Por vezes encontro o teu cheiro pelas ruas. Possivelmente nunca aqui estiveste e tudo se afigura como uma mentira. Daquelas mentiras horríveis que parecem existir realmente. É aí que vem a saudade e a vontade de estar contigo outra vez, nos sítios onde tudo é mentira.
Os diálogos não existem porque era desperdício de tempo escrevê-los. Existe apenas o silêncio da hora, entre a madrugada e a manhã, a calçada irregular e outras coisas que marcam as horas de solidão. É pena não chover como de costume, o cenário ficaria completo. É pena serem só estas palavras que descrevem uma cidade. Estás tu nestas palavras, é quanto basta. É a vantagem de se ter uma cidade; pomos lá quem nos apetece, porque a saudade existe, tal como a calçada, tal como as recordações que tenho de ti num sítio onde nunca estiveste.

Quinta-feira, Agosto 20

Viagens...(Avertência)

NESTE LIVRO EXISTEM
38 RECLAMAÇÕES SENTADAS
NO ESTABELECIMENTO COMERCIAL

Viagens...(Dedicatória)

Para a Claúdia e Carolina.

Quarta-feira, Agosto 19

Viagens...(Capa)


à capela

parece que se opta por se acabar como se começou; a publicação de um grupo de textos que entretanto foram apagados por terem sido alvo de publicação em papel; a primeira, precoce, inconsequente, precipitada. publica-se novamente o que resultou no Viagens... como quem teima na mesma ideia de expor coisas que quase não são suas, paridas por uma força interior que se foi aprendendo a conhecer. depois disso, parte-se definitivamente para um outro lado onde o medo não existe e os intentos são muito mais firmes. encontramo-nos lá.

Domingo, Agosto 16

à capela

fui de férias e parece que tropecei no Rapaz, parece que ainda é cedo para ele ver a luz informática da publicação virtual, parece que é altura de pôr este e outros textos em causa, parece que ainda haverão outros textos e fotos e quadros a serem aqui colocados, mas parece que a vida deste blog está a chegar ao fim. é assim, as coisas começam-se e tem por isso um fim à vista. até já, até amanhã ou até daqui a uns dias, sei lá quando.

Quarta-feira, Julho 15

Máxima neo niilista

Deus não existe à noite.

Máxima estruturalista

Uma rede é um conjunto de buracos unidos por um fio.

Domingo, Julho 12

Espiral Dialéctica do Proletariado (os primórdios)

Ter fome
Sobreviver

Ninguém sobrevive, sempre

Sábado, Julho 11

Espiral Dialéctica do Proletariado (Sangue e Retórica)


Cair na espiral da dialéctica proletária
Mergulhar no Sangue da Espiral vaginal
Vomitar conceitos e puxar a água

Sexta-feira, Julho 10

Espiral Dialéctica do Proletariado (Noite 12305)

Renascer na espessura arenosa da noite.

12305te nacht

Dies ist meine 12305te Nacht
Die ersten paar tausend,
die kannst du vergessen,
ich hab es auch getan
Diese hier ist auch schon fast vorbei
Was bleibt ist Nikotin und gelbe Finger
Viele vorher die habe ich verpulvert
und kurz- und kleingehackt
in vielen verausgabt, verbraucht, gefluechtet
verfluechtigt, den Drachen gejagt
In einer Handvoll war ich nahe dran
meist am Ende, nah am Ende,
gegen Ende, gen morgen
voruebergehend selbst ertraenkt
Was bleibt ist Alkohol und dumpfe Traeume
Mache gingen endlos und ich aus und los
zu warten wo doch kein Bus faehrt
alle vergingen, bis jetzt, bis 12305
In machen warst du vorhanden
aber ich war nicht ganz da
In vielen hab' ich dich im Schlaf gesucht
In vielen hab' ich dich schlafend gesucht
Was bleibt?
Von hier bis Mars war naeher
als von mir bis zu dieIch schien aus Antimaterie zu sein -
gefaehrlich!
Es war meine 12305te Nacht
In der du vor mir erschienst
Du liesst deine Augen leuchten
wohl nicht von ungefaehr
Du warst auf derselben Suche und
aus demselben Grund
zog's dich wohl auch zu mir
Insgeheim warst du mein Spiegelbild
Ich zog dich und zu mirIch war in dir
- zu seh'n; und umgekehrt
Weck die Liebe nicht
bevor es ihr nicht selbst gefaellt
Bevor es ihr nicht selbst gefaellt

12305 th Night
This is my 12305th night
the first few thousand
you might as well forget
just as I have also
this one here is almost finished too
what remains is nicotine and yellow fingers
many before I've frittered to powder
and diced and minced into bits
in many expended, exhausted, escaped
extinguished, chasing the dragon
in a handful I got very close
towards the end, close to the end
,right at the end, towards morning,
in its passing drowned
what remains is alcohol and numbed dreams
some were endless and I set out and off
to wait where nonetheless no bus goes
all passed by till now, till 12305
in some you were present
but I was not entirely there
in many I sought you in my sleep
in many I sought you sleeping
what remains?
from here to mars was closer
than from me to you
I seemed to be made of anti-matter
-fairly dangerous!
it was my 12305th night
in which you appeared
you made your eyes glow
I'm sure with some fair reason
you were seeking the same thing and
for the same reason
you too were then drawn to me
you were my mirror image secretly
I drew you up and towards me
inside you - I saw myself; and inversely
Do not stir up love
before it is itself willing
before it is itself willing)

Letra original e tradução inglesa da Música 12305te nacht dos Einstrüzende Neubauten

Espiral Dialéctica do Proletariado (Noite 12418)


Quinta-feira, Julho 9

Baladas da varanda fria (cont.)

Fénix

Não me lembro de quantas vezes renasci das cinzas, como se a memória se apagasse de cada vez que acontece. No entanto, sei que renasço pelas cinzas de onde broto, resíduos fátuos de uma qualquer existência anterior. Essa é a minha certeza; a minha única memória das potenciais vidas passadas. Penso nisso agora que me preparo para arder; agora que sei que vou sucumbir em chamas e relembro esse monte de matéria cinzenta, leve, composta por milhares de corpos microscópicos que me geraram, a primeira matéria que observei. Tento preservar a memória em coisas materiais, coisas palpáveis que me indiciem, nas vidas futuras, cenários, gentes, eventualmente sentimentos a eles associados. Essa é a minha fé. Essa a minha última, mas primordial tarefa.
Sei que as grandes verdades, as leis imutáveis que não tive força de destronar, arderão comigo e que as vou reaprender quando despertar no frio cinzento. Eventualmente não conseguirei preservar nada de novo, mas de momento repouso na certeza de que tudo me integra, como a paisagem que me compõe; os montes verde-flora e cinza-rocha que se vergam perante o meu forte respirar; as espécies que povoam os interstícios da matéria de que sou feito, que se transformam na lentidão do tempo tal como é medido pelos homens. O tempo ser uma noção agora ridícula, pelo respirar diferente que tenho de todas as coisas, de todos os seres. A lentidão pesada de quem caminha pelo meio do caos alheio ao seu poder e, portanto, superior a todas as suas consequências. A minha certeza, arder; o meu poder, sabê-lo; a minha eterna omnipresença, um monte de cinza em que resultarei.
Também alguma melancolia inerente a este lento exaurir de todas as forças de que sou feito; também a angústia de saber que vou recomeçar, de saber que não vou ter a noção de que estou a recomeçar; também a tristeza do desprendimento total a que tenho de me devotar no imediato, que se concretizará com a minha combustão. Ninguém apreciará o meu sublime espectáculo, como ninguém varrerá depois as cinzas procurando um resquício de mim ou efectuando a limpeza do espaço, necessidade extrema das almas sujas que povoam o mundo. Portanto, eu e todas as minhas vidas resultando na inutilidade, não ecoando nas dinâmicas concretas do que marca a evolução; o tempo, a modificação do espaço, o progresso da técnica ou o crescimento qualitativo do pensamento abstracto. Meros actos sem registo, sem memória futura; simples acontecimentos que tão só marcam o viver, o meu viver. Arder, a sublime forma metafórica com que o meu corpo marca o fim e o princípio, a morte e a consequente vida que dela nasce.
Tanto calor, tanta energia que se atenuará pela força do vento norte. O frio que já pressinto na sombra azul da grande montanha. A predominância do amarelo no céu, a minha loucura que tudo domina, que a tudo ilumina.
Ardo…
Ardo…

Baladas da varanda fria (cont.)

António Lobo Antunes

Ser escritor também obedece a isto, estar à frente dos acontecimentos ficcionais que hão-de provir da realidade. Portanto, esperar a partir de agora a tua morte, anunciada por mexericos de todos os que te rodeiam, de todos os que estão fartos de te ver vivo.
A tua morte anunciada,
efectiva
a ficção do momento. A concretização da tua morte a ficção futura, da aura que passará a envolver os livros, os teus livros, toda a tua obra, incluindo a póstuma a dissecar por aniversários; de nascimento, de morte, de guerras travadas involuntariamente, de batalhas perdidas. Logo, o teu último livro nada de mais a acrescentar, fraco de conteúdos para essas mentes superiores que não te podem matar. Talvez mesmo a tentativa última de te revestir em contornos de polémica. O resultado já se conhece de tão esperado que é. Vai a polémica ao forno a 200º e sai um prémio Nobel a frio escandinavo, servido pela única coroa da sala. Querem polvilhar a tua débil imortalidade com notas de euro.
Não tenho nada a ver com isso. As células já se decompõem, já são uma lembrança de células e eu pouco preocupado com o medo.
O medo de pegar em mais um livro, o último contigo vivo, por certo e, mesmo assim, pegar nele irreflectidamente, como sempre, como tudo o que me dá prazer, me torna obsessivo.
Eu obsessivo contigo.
Obsessivo com ela.
Eu a aprender a obsessão por mim.
Eu obsessivo com ela.
Começar a ler
a ler-te. Não hoje, já num dia passado a este registo de memória que ensaio em linhas de pensamento ténue.
Dizer,
não,
sublinhar que és tu quem escreve, não eu.
Eu preocupado com isso. Eu preocupado com o medo. Ter tempo para sentir medo. Agora ir apenas fumando a rejeição a que me sujeitaste, ceder perante a fé de mente pequenina de que ainda voltas.
Ainda vais voltar.
Ainda vais ser feliz nesses instantes em que o corpo quente...
Não sentes o corpo, não é?
O corpo quente a adivinhar o sono, o silêncio tremendo de querer ignorá-la e ela,
Posso ir ter contigo?
O orgulho a escorrer nas paredes branco sujo da casa e a humidade ali ao lado, estática, suspensa na breve dúvida do que responder e, ao mesmo tempo, já saber a resposta que se envia pela atmosfera.
Adivinharás tu o meu pensamento?
Devotar-me ainda a estas questões inúteis a qualquer fim.
Não ter prazer algum em questionar e o medo a chegar. O medo que...
Adivinharás o meu pensamento?
ter a coragem de efabular coisas desconexas só para mim, só para este momento e, ainda assim, efabular os dias que correm sem interesse quando não estás para chegar.
Poder encenar o nosso encontro;
eu a fumar e
tu estática a ler poesia no desconforto da cadeira, a vender o conforto da imobilidade eterna para quem te olha, a quem ousa aproximar-se.
O sorriso preso como se uma paralisia fossilizada na tua história.
O teu sorriso estilhaçado num pomar pouco florido, nada perfumado, cada vez mais plástico perante essa necessidade de criar.
Que sabes tu?
Que sei eu do que é criar para os outros, pelos outros?
Criar para mim. Admiti-lo em cada letra que nada diz. Efabular os dias em que criar para mim, definitivamente,
tu a ergueres o pescoço quase que em esforço e
a efabular como que em esforço e sorrir como se uma paralisia fossilizada na tua história.
a inventares o silêncio de que tenho medo,
pior
inventar uma qualquer abordagem que provoque o meu silêncio de que tenho medo.
Sim. Ter medo do meu silêncio paralítico.
Fico sempre pelos dois corpos a repousar no desconforto da sua verticalidade e os sofás ali ao lado sem qualquer utilidade contra o medo. Sermos sempre isto, uma linha de espiral que nunca se chega a afunilar para que,
em desespero de causa,
rume ao sentido oposto, ao sentido do local onde se ensaiará a próxima espiral.
Como deste quarto escuro onde ensaias mais um sorriso de esguelha, como se toda a tua história fossem estilhaços.
Palavras dispersas que te dirijo. Tantas, e não conseguir em nenhuma transpirar um sentimento fino relativamente ao facto de seres, mesmo para com a tua essência que aguarda pacientemente pelo meu corpo. Palavras que, no fundo, nada dizem isoladas ou em conjunto; palavras que buscam silêncios que nunca encontro, nem nos seus interstícios, mas palavras que, pelo sentido com que são ditas, procuram afagar os teus sorrisos de esguelha, aparar os estilhaços de ti que eles dispersam à minha volta.
Cederes à fraqueza do choro compulsivo; a felicidade de ombros caídos a deixar de existir.
As palavras em busca de uma qualquer felicidade e os ombros caídos cedendo ao choro...
não,
os braços cruzados sobre o tronco aparado de almofadas.
A minha insolente inutilidade em ser vertical e as palavras fachos em chamas a iluminar torcicolos de pescoços que os lêem, que os procuram ler. Combinar um café para mais tarde e deixarmo-nos sós a ter noção do nada em que todos os descrentes caem. Olhar em desespero os mostradores de tempo procurando a noção de quando será plausível estar acompanhado. Encontrarmo-nos no desespero mútuo à distância, na angústia lancinante de alguns vazios que partilhamos. Cederes ao choro pelos ombros caídos da felicidade e
da ideia de felicidade que supões existir
logo ali culpares a família, os amigos, os animais de estimação que pavimentam o chão que pisas –
não pairas sobre ele –
pisas e culpar – porque não? – todos os ombros caídos anónimos onde o teu olhar húmido repousa de quando em vez. No fundo, tudo dentro de ti.
Dentro de mim.
O medo,
o olvido de te lembrares de ti.
Ter medo de me lembrar de mim, de me ler de ombros caídos na suspensão opaca de ter a vista húmida.
O medo de ter de erguer os ombros e não ter a noção do esforço que esse acto envolve.
Esquecer-me sempre do que era antes de ser o agora e
esquecermo-nos de nós e sermos um por ser esse o caminho possível para os ombros caídos percorrerem sem medo.
Posso ir ter contigo?
devotar-me ainda a estas questões inúteis a qualquer fim como adivinhar pensamentos.
Como adivinhar-me sem efabular estilhaços de sorrisos em mais uma suspensão vertical de ter medo?
Medo de ti, meu amigo.
Sim! Meu amigo. Tu que esticas as horas ao que elas têm de mais amargo e eu...
Uma hora e eu a amargar-me na leitura incandescente de ti. Todos os amigos,
e as amantes também,
calados, mudos de um sinal de vida que seja. Sim, sentir a falta de um sinal de vida de tanta e tanta gente. Portanto eu sem sinal de vida alguma que viver nesta hora amarga que se arrasta.
Que arrastas?
Que arrasto, que vivo. Só a família telefona ao prometido afecto que se tem em dívida. Eu a dizer que sim, que não, que talvez, e o afecto amargo pela hora,
não,
por toda a vida,
pela hora que se arrasta e quase finda enquanto escrevo o medo, a dor e a ausência. As amantes indisponíveis porque,
não sós,
acompanhadas por gente que não pensa as horas, que não lê a amargura dos outros por nem sequer ter noção da sua. Logo um maço de tabaco que se amarrota à compressão máxima desta raiva e toda a calma do mundo no bafejar do cigarro, no correr inquieto dos últimos minutos. Aí está. A fronteira da primeira hora ultrapassada e ao entrar na segunda pensar na mentira, mais do que no ridículo dos conceitos temporais; pensar nas desculpas consequentes à mentira, na descrença e no baixar de ombros a vontade de reclamar o meu direito em ser feliz. Só mais um acumular de raivas, de maços de tabaco amarrotados para que o grito surta efeito no futuro, movido por ondas de choque que o som ensurdecedor provocará. Então serei o doido dos maços de tabaco amarrotados e a mensagem não será lida nem entendida porque os maços de tabaco amarrotados têm mais impacto sobre a apreciação de umas pessoas sobre as outras. Poder pensar assim e dar-me autorização de pensar assim e para não te ler mais. Arrumar-te no saco a isso destinado e colocá-lo ordenadamente junto aos outros onde se transporta a vida. Não só escrevê-lo, fazê-lo efectivamente e pensar nas curtas-metragens que compõem uma mentira; um festival inteiro de curtas-metragens para uma só mentira. Uma pequena mentira de uma hora amarga, angustiada pela passagem à segunda, à dissecação da espera da mentira.
Poderemos falar sobre isso mais tarde. Agora tenho um filme para ver. A fuga de uma possibilidade de conversa, mas a sinceridade a percorrer distâncias inauditas em poucos segundos. Já a mentira aproxima-se lentamente até a mim chegar. Baterá à porta e dirá,
Sou uma mentira
Os olhos cabisbaixos e mil desculpas que não ouvirei. O maço amarrotado já no lixo, com todos os vestígios das horas amargas...
Sou uma mentira.
Eu sem me preocupar com isso fechando a porta e penetrando na noite como ansiei há uma,
não,
duas horas atrás. Serão talvez três, pois nunca se sabe qual a extensão temporal de uma mentira. Perdemo-nos na dissecação de tudo o que a compõe e a mentira lá atrás, escondida nos prefácios não escritos, nunca enunciados.
Desistir do pensamento enovelado porque os pratos de porcelana com motivos decorativos orientalizantes do ponto de vista ocidental a chamarem-me, a perguntarem,
Preocupaste em escrever assim?
Assim como?
Como ele. Aproveitando-o para ti.
Preocupo. Não preocupo. Desistir do pensamento enovelado de pensar nisso porque o tinteiro que irá imprimir estas páginas estático, sem nada perguntar e ser isso que dele requeiro.
Quase três, as horas. O tempo passa a correr pelo meio das perguntas que os objectos nos colocam. Eu sem responder, enroscado na mentira como se deitado, com os braços em volta do tronco. Quase deitado sobre a mentira, sobre as amargas perguntas dos objectos e eu,
Não te questionas?
Do quê?
De tudo o que jaz imóvel à tua frente e tu a perceberes essa velocidade física por ser também a tua.
Fechar o caderno ao pensamento. Abri-lo de novo depois de abrir a janela para a rua. Penetrar na noite com a cabeça como que a sondar a lua e perceber que esta se aplanou, que o berço se transpôs ao cheiro dos pinhais em volta; que só o seu cheiro intenso me faz repousar. Escreve-lo por se tratarem dos pormenores menos amargos da espera, da mentira que se vive e parar por fim, porque tudo deve ter um fim, mesmo que em suspenso pelo cheiro dos pinhais.
Ser esmagado pelas tuas palavras cinzentas, escuras. Deixar-me ir na Melancolia que invento, triste pela lágrima que não verto, agora que me encontro atónito, autista perante as coisas do mundo que não minhas
Que não minhas por não as querer, não as tomar para mim, ao meu pensamento, à dignidade de serem pensadas, à coragem de serem escritas.
Pensar que morri contrariado, mas que não o manifestei por palavras, por não ter tempo.
Nunca ter tempo para nada que se segue e, no fim, não ter tempo para acabar o que termina com tudo.

Pena, portanto!
E não pena, nada, por tudo ter acabado. Eu contrariado a dizer-te,
Não te quero.
O meu corpo a querer a tua sedução fria, ou a desejar-te assim, nua à minha frente e eu atónito, autista perante as coisas do mundo que não minhas, sem nada dizer.

Quarta-feira, Julho 8

Baladas da varanda fria (cont.)

A criança II

A criança que sempre teimou em existir, desde as primeiras punhaladas na sua existência, brinca ainda entre os armários, com os seus pares de todas as idades; as pessoas que se aceitam mutuamente com tal. O que desaprendeu ao longo dos anos, é de novo apreendido com vivacidade, com inocência. O seu aparente autismo é tão só a muralha que a protege da seriedade adulta, que já aprendeu, já viveu e que nada lhe trouxe senão a decrepitude das células, a dor inerente a essa forma de viver tão séria.
O concílio dos sérios teima em mostra-lhe que é de novo dependente, a par com os seus companheiros de sonhos, mas essa noção de dependência é desacreditada pela sua vasta experiência. A sapiência que ela lhe deu ainda conta, ainda o conduz, sobretudo no conhecimento da inutilidade de lhes explicar – aos sérios – a meta a que esse caminho os conduz. A dor que lhes denota no olhar sem dentes tem em oposição o seu sorriso sem dentes.
A insistência em ideias pobres e na sua transmissão a quem se alimenta somente de ideias ricas, tem por troco a concentração absoluta das crianças nas suas tarefas, no seu banho temperado nas águas livres. Logo se faz o silêncio incómodo aos sérios. Logo, as crianças experimentam também essa libertação e é nesse momento que a atingem em plenitude. Contudo, a criança mais velha tudo isto sabe e tudo isto pensa, não se conseguindo deixar de sentir algum cansaço. Percorrerá então as vastidões de memória de que é composto, mas já não voltará às marcas do seu corpo que lhe contam as mesmas histórias. Já as conhece de olhos fechados, mesmo no sono pesado que o consome em rouquidão ruidosa. A apneia definitiva virá um dia, é certo, mas agora não tem de se preocupar em viver com pressa; também disso se libertou.

Baladas da varanda fria (cont.)

Mário de Sá-Carneiro

A alma brunida pelo desgaste hidro-arenoso de olhar o mundo em volta; a sociedade enquanto mecanismo; as pessoas enquanto peças dessa tosca engrenagem.
O corpo bujardado pelo olhar crítico de si próprio, ainda que os espelhos tenham a superfície lisa e as arestas queimadas, para evitar cortes acidentais. Olhar esse objecto reflector de perfil e saber que o outro lado está para além dessa percepção sensorial.
Arrastar o caminho, lavrando a terra com o pé assente, como quem alisa um breve espaço de terra para a escrita de algo urgente.
Demência sóbria inspirada pelas narinas abertas a uma inspiração de cada vez.
Só mais uma, por enquanto.
Só mais uma, para já.
Panteras negras a desaguarem nos rios de noites estreladas, serpenteantes pelos vales de margem abrupta para o nada.
Ao fundo, janelas de oiro suspensas no ar, com vidros partidos, já sem portadas que abanem ao vento. Do outro lado os teus sonhos ocultos pelo meio da treva.
O amor impossível no caminho tortuoso até às janelas, até à verdade absoluta de ti.
A solidão...
A ansiedade...
A descoberta, por fim, no esvair de todas as forças.

Terça-feira, Julho 7

Baladas da varanda fria (cont.)

Duchamp

No princípio a culpa era dos Impressionistas…
A culpa é sempre de alguém. É expressionante como a culpa é sempre de alguém.
No entanto, será ele o maior culpado.
De quê? Quando coloco a roupa lavada na corda da varanda instalo a tristeza que a Metafísica dos Costumes me deu a ler. Só eu o sei; só eu posso passar por entre a roupa a pingar, como se de um labirinto se tratasse, bojardando com o vento frio a face húmida, matando células aos poucos. Um dia olharei as mazelas do rosto ao espelho, pela manhã, ainda meio a dormir. Gosto de sentir o mistério inerente ao que verei, recordarei, constatarei na altura. A Verdade limpar-me-á o rosto e ordenará ao Sol que ilumine a janela, ainda que por breves segundos.
A morte, na sua pérfida mania de não se anunciar, espera sempre por nós ao fundo de uma escada.
Sombria a escada, para quem a desce.
Recebo a notícia assobiada pelo vento, como canto de sereia em mar de águas plácidas. Fecho os olhos como que em meditação, mas consigo ter o cérebro quase vazio de pensamento. Com o polegar da mão esquerda percorro a linha mediana do meu rosto, lentamente, procurando a percepção física por algo mais que a visão errada dos espelhos. Percebo enfim que, a partir deste momento, estou dividido em dois seres sem espécie. Nem diferentes nem iguais, correndo paralelamente os mesmos acontecimentos em perspectivas simétricas e, logo, antagónicas, divergentes nos pontos de fuga.
Fujo. Sim, fujo para longe de tudo isso, até mesmo da possibilidade de haver outros que se fragmentam em muitos mais seres que eu. Não ando a competir com ninguém e mesmo os meus eu’s não se dediquem muito ao confronto físico ou verbal na defesa das suas questões individuais.
A notícia dada pelo canto e por todos os ruídos cadenciados que provoco ao descer das escadas. O calor a escorrer fresco pela pele, brotando dos poros, das chaminés poluentes que afloram o corpo. A placidez de aceitar as evidências sem dogmas, mas também sem reflectir muito sobre os temas. Acreditar na sapiência empírica dos poucos dias em que se teve a coragem de respirar. Agir de forma irreflectida, traçando a arado a moralidade nos resultados práticos das acções. Jogar com o medo do Presente descuidando o olhar em frente, para o horizonte, para os pontos de fuga do quadro vivo que se presencia.
Fujo. Sim, fujo para longe de tudo isso e piso sem nojo a sujidade infecta das ruas. Conheço de longe os Limpos que se dão ao luxo de aqui passear. Os outros passarão em bicos de pés, rapidamente, em pose quase rastejante que os diminui. As línguas bífidas enrolam-se em novelo, estrangulam os corpos que ficam vermelhos no imediato da aflição. Quase que rebentam de vida em excesso; quase que se liquefazem em ácido, para que fiquem os rastos marcados na calçada entretanto limpa da sua biodiversidade.
Amanhã acordarei com a sóbria tristeza de quem parte, de quem ruma a outro porto, levando o canto, a notícia e os dois seres, animais de estimação de um ser supremo que não domino, apesar de figurar com o meu corpo. Sei-o porque o meu corpo já não ama e, se amasse, era eu por certo que lho ordenava. Assim fico-me pela análise exterior de observador integrante da estrutura. Prendemo-nos assim, nas vontades dos outros, ainda que por nós delineadas. Onde está esse horizonte aberto ao conceito de Liberdade? Qualquer ponto de fuga que a ela conduza?
Fujo. Sim, fujo para longe de tudo isso e abraço a Liberdade como qualquer língua viva ou morta que não entendo, qualquer mensagem que sinto inerente aos sons. É quanto baste ao devido entendimento. Abraço também outros corpos que se apresentam disponíveis a instantes desse tipo. A ternura evapora-se na rapidez com que se tem de viver tudo o resto que não é vida. Sim. O meu corpo e os meus animais de estimação esqueceram-se do que é amar. Só eu recordo, mas ainda assim apenas recordo, não chegando a qualquer entendimento sensorial sobre o que terá sido e será a verdadeira realidade de amar.
A memória repetida em insistência, em combate com o esquecimento, é que faz criar os conceitos. Detesto muito os conceitos em geral e vivo em condensação de ideias, em confronto com o que me faz agarrar à vida de forma aparentemente tão cobarde. Será assim tanto exigir ter um dia de normalidade, sendo que essa normalidade é um conceito que desconheço, que me enoja muito mais que as ruas sujas? Ergo o olhar da calçada para que olhe os amigos de frente. Despeço-me deles tentando anular os pontos de fuga que lhes preenchem os interstícios; o fundo da rua e a certeza que novos caminhos ali se apresentam.
Fujo. Sim, fujo para longe de tudo isso e arrasto-me pelos espaços fechados condensando-me com a atmosfera, sendo respirado pelos transeuntes, por quem não se importa de respirar os outros para que viva mais um pouco ao encontro da felicidade possível. Só na irrealidade posso concretizar todo o amor que sinto, que desaprendo por influência dos conceitos. Só aí encontro a irracional razão de existir, de amar até os objectos quotidianos que se acoplam a mais e mais pontos de fuga.

Baladas da varanda fria (cont.)

IX – L'art est mort
Szimborska

O dia nasceu chorando. Não sou eu que, triste, o vejo assim; não. O dia nasceu chorando todas as minhas mágoas e, por isso, prossegui incólume perante as nuvens carregadas, vindas de latitudes mais a Norte. Os passos largos e lentos, com que percorri as Avenidas, tinham atribuição melancólica pelo colocar de mãos nos bolsos laterais das calças. Destes, vazios, nada retirei nem nada acrescentei ao nada que os dominava. Metaforicamente o pensamento seguiu o exemplo por todo o tempo de caminhada e as mãos acomodavam-se mais abaixo, como se afagassem essa inércia dolorosa.
Sim, havia dor.
Não. Subentendia-se a dor, ainda que ausente dos receptores neurológicos mais ínfimos.
Sentir a Melancolia sem questões de maior, sem surpresa; não a pensar, dissecar, nem mesmo contra ela lutar. Vergar apenas ligeiramente a coluna perante a sua grandeza, como quem cumprimenta reverencialmente um pensamento puro que se aproxima em bruto.
São tempos perigosos, estes que percorremos. As pessoas esquecem-se de amar e o Amor perde força face a uma ideia de liberdade ressequida, completamente errada perante os conteúdos inerentes a tão poderoso estado de espírito; LIBERDADE.
O idealismo tornou-se um beco sem saída; húmido, escuro, esquecido nos pensamentos inerentes à urbanidade.
O saber científico e a tecnologia, compartimentados em formalismos, são como diques dispostos na costa, contra a força das marés, da dinâmica geográfica que, pretensiosamente, pensamos dominar.
O cérebro contrai-se deixando resíduos mortos como lixo acumulado em docas secas; portos onde, há muito tempo, ninguém atraca.
A aventura face ao desconhecido VENDE-SE ÀS POSTAS e em PACOTES devidamente homologados pelas autoridades mundiais. Chamam piratas e terroristas a esses livres de nós e presos a si, que percorrem espaços remotos e isolados lutando diariamente pela sua sobrevivência.
Já os nómadas apresentam metamorfoses desesperadas que adiam a sua inevitável extinção. Alguns grupos de activistas, que tentam impedir a tragédia, ganham asas de borboleta e a sua força sucumbe pela efemeridade utilitária de tais apêndices.
Ontem, a minha dor pedia tréguas ao mundo infecto de sangue, do seu cheiro forte, da sua cor marcada em contraste à paisagem queimada. O caos anunciava a criatividade.
Ela ali está, sentada na compenetração do seu acto auto-destrutivo. Antes do pano baixar colocará gotas a mais do veneno que fortalecerá o Absinto. Seguir-se-á o silêncio que o esvaziar da sala anuncia. Szimborska colocará a mão na garganta esboçando um sorriso. Eu apertá-la-ei buscando o limite entre o prazer e a catarse.

Segunda-feira, Julho 6

Baladas da varanda fria (cont.)

Auto-retrato I

A casa despida de móveis e eu no centro da sala; as paredes velhas com marcas de abandono. Devo ter morrido há muito tempo, ou estou a sonhar que morri e que os mortos sonham. Quando eu morrer efectivamente, ou no sonho, os saudosos amigos irão ao cortejo, ou manifestarão o seu pesar de alguma forma ao longo das suas vidas, a alguém que os acompanhe nesse momento, sendo-me próximos ou desconhecidos. Nesse instante em que o pesar lhes assomar o pensamento, recordarão o olhar triste, de quem está condenado à morte e não quer; a jovialidade dos actos e pensamentos intempestivos; a cordialidade dos que são assim e não de outra forma. Talvez me espelhem em algum ser ainda vivo, de barba, a olhar melancólico sobre a janela em ruína; observar o que o rodeia ou simplesmente para dentro de si. Há tanta gente que não olha para dentro de si. Desconhecem a sua beleza narcísica, impulsionados pelas filosofias religiosas dominantes, inibidoras, castrantes; desconhecem o Deus que são e os seus verdadeiros milagrosos poderes. Poderá também ser alguém, de barba, que repouse numa esplanada com o cigarro na mão e borras de café no fundo da chávena pousada na mesa. Para facilitar o exercício pode ser alguém que esteja a ler, ou a conversar com uma ou mais pessoas, esbracejando ideias soltas, tontas, incoerentes. A vida é uma viagem entre sentimentos tão distintos que não percebo porque se apregoa, como virtude individual, a coerência.
Às vezes sou um marinheiro sem barco, deitado na terra, repousando das marés vivas olhando crescentes férteis de sonhos. Outras vezes sinto-me O Inominável pintado por Pollock, que nestas coisas das Artes Plásticas o Miró teve sempre demasiada cor. Ontem caminhava para o tal inominável com a carne a desfazer-se lentamente a cada passo, como se desfaz agora debaixo de terra; agora que alguém manifestou o seu pesar enquanto lia este texto.
Sou o profeta decapitado após os piores augúrios estarem cumpridos. Não me divinizem, mas atentem àquilo que disse, que escrevi, aproveitando a oportunidade de estar registado oficialmente para as entidades oficiais. Entrem pelas minhas palavras e abracem o inconformismo, festejem-no em êxtase até à exaustão física. Apregoem as vossas ideias sem o medo de ter de pensar como a carneirada que precisa de pensar igual à maioria.
Desfaço-me agora no silêncio, a carne mergulhada em tinta preta. Sobretudo as do texto que sonhei e que me recuso a escrever por entre as ruínas onde estou. Claro que seria sempre bom aproveitar para o fazer, mas algo me diz que tenho de ficar quieto no que concerne a esse objectivo.
Um deja-vu diz-me só que devo sair do edifício onde estou de malas feitas, para que volte sem elas segurando uma máquina entre as mãos. Disparar o objecto, uma, duas vezes. Sair para fora de novo com o porte altivo de quem cumpriu a sua missão por hoje. Enfim, tretas em que se quer acreditar.
Volto à minha ruína, ao trabalho de a descrever, de a dissecar em alçados analisando-a na minúcia que exige. As paredes nuas de estuque ou qualquer decoração mostrando a fragilidade da estrutura que, ainda assim, se mantém em equilíbrio; dando um exemplo de vida, reparo agora. O trabalho diário na fachada renovada e a remodelação completa da cobertura dando uma aparência de antigo ao pré-existente, que sofre uma operação cosmético-pragmática; a reabertura de todas as janelas fossilizadas nas paredes mestras, com especial incidência nas que, com namoradeiras, se voltam aos pátios de inspiração romântica, à luz sombria das árvores de fruto no Outono, à água que jorra do fontanário monumental.
Sou o pássaro no beiral do telhado perante a inevitabilidade do primeiro voo, do voo definitivo; jamais as asas pararão de funcionar, do equilíbrio inicial com vista à estabilidade, até à protecção da prole perante os predadores do costume e as intempéries naturais.
Sou cruz petrificada marcando o local de culto, sobre o sonoro sino que canta as misérias humanas; umas felizes, outras nem tanto.
Sou varanda voltada ao mar de onde saltam os Normais para alimentar os tubarões; chego mesmo a ser o pirata frio e desdentado que os empurra ao seu destino.
Sou nuvem carregada que percorre os céus, ameaçadora; trovão assustador que aninha as crianças no seu leito e chuva fria que limpa as pedras para que brilhem ao sol da bonanza, ofuscando os homens para além da sua cegueira crónica.

Baladas da varanda fria (cont.)

Balada do pensamento suicida

No dia em que der um tiro na cabeça, será uma chatice para quem tiver de limpar o sangue do chão; para o polícia que tem de abrir um processo já por si encerrado; para o jornalista que preferia trabalhar num jornal menos sensacionalista; para as seguradoras e bancos que me avaliaram erroneamente enquanto pessoa psicologicamente normal.
É esta teimosia em não ser normal que marcará esse fim trágico.
Ficar de pensamento suspenso pela concentração em outras actividades para que, quando tente regressar, não me encontre nesse pensamento, mas fora dele, estático, a olhar o vazio. Se reparar com atenção vejo-me cambalear ligeiramente, não sendo pelo vento que, aqui, não se faz sentir de todo; não sendo por ter bebido álcool. Cabeça voltada ao soalho de madeira e – agora reparo bem – olhos de um cansaço infinito; abertos, mas infinitamente cansados. Não consigo entrar dentro de mim e o pensamento permanece ali, suspenso no meu olhar. Reporto-me ao momento em que me olhei no espelho e, pela primeira vez, descobri as rugas de expressão que me prolongavam os olhos. O mesmo cansaço e a mesma suspensão de pensamento, como quem já não questiona as intempéries da vida que sulcam o rosto. Nesse tempo imperava o estado de espírito depressivo. Agora é a montanha que se ergue sempre mais alta diante de mim. Paro de quando em vez para repousar da escalada tentando medir o que ainda está pela frente, envolto pela neblina tipicamente cerrada do desconhecido. Subo sempre a um ponto mais alto do que o ponto onde me medi anteriormente na tarefa de a subir.
O corpo é uma prisão que me impede de voar muito além destas limitações físicas. Sei que seria capaz de o fazer. No fundo, esses pensamentos suspensos são como cascalho, filho de uma rocha maior, mais maciça, esperando a fragmentação acelerada de uma derrocada. Às vezes desejo o repouso do sedimento argiloso no fundo do vale, para que me lembre que também ele está sujeito às regras de erosão e que, se não voar dali para fora, rolará até ao rio, dai até ao mar, limando as arestas vivas pelos acidentes do percurso feito.

Sexta-feira, Julho 3

Baladas da varanda fria (cont.)

O deserto

As pessoas do bairro sorriem-me, demonstram que ao fim de um ano me conhecem. Eu, que de mim nada mostrei, nada revelei para além de uma ocasional simpatia circunstancial e forçada, imagino que o façam por terem ouvido falar alguns pormenores da minha vida profissional, a única que lhes poderá ser acessível pelo contexto mais verosímil que a lógica me ajuda a traçar no silêncio. Esse acto de sorrir, seja por essa ilusão de conhecimento, seja pela simpatia natural, que esqueço cada vez mais poder existir nos que me rodeiam, é o único brilho que pontua o início da noite escura. Esta, torna-se marcada pelos cenários anacrónicos de um machismo teimoso que as janelas abertas dos apartamentos caixotes revelam. Estão escancaradas ao ar fresco que os cientistas anunciaram; escancaradas à minha visão trágica dos enredos humanos que revisito; escancaradas ao vazio de conteúdos que a rua pode ser face a interiores arquitectónicos bem delineados, minuciosamente caracterizados por cada um que lhes vai dando o toque de seu, o cheiro de serem família ou gatos solitários.
Ao avaliar o que me rodeia, mesmo que encerrado em quatro paredes iguais, sendo o gato solitário que, no fundo, sou porque o escolhi ser, não deslumbro alguém ou o algo que atenue a minha dor. Hoje, sinto-me incapaz de procurar a solução, na angustiante certeza de que de mais lado nenhum poderia vir. Claro, admitir que os objectos ou os outros iguais, a quem se concede a benesse de serem próximos afectivamente, são úteis por isso mesmo, pela crença que entre todos fluem conceitos concretos como o amor, o prazer físico, o divertimento ocasional ou o deleite simbólico que se atribui às coisas simples. O desespero muitas vezes conduz a esse caminho. Outras há, como agora, em que se afunila o pensamento na inércia de conquistar terreno sobre os próprios desígnios somáticos, esses que a compreensão de tudo condensa numa satisfação irracional de que tudo entendemos porque somos racionais. Rir por dentro, talvez à gargalhada, por se dissecarem os pensamentos à minúcia anormal de quem nada mais têm que fazer; ficar sarcasticamente feliz pela desvirtuação niilista que se aprende diariamente, que se treina, não sem orgulho, de uma forma que se denomina inteligente.
Um outro olhar sobre a mesma vertigem sobre a existência, resultante desta. Ficar por aqui a nobre criação da sublime negritude do que se pensa ser e se é efectivamente, mesmo que por breves instantes face ao todo que será a nossa efémera história. Talvez me tenha conduzido por ela iludido pelo método científico que compõe o meu ADN; talvez assim alguém perceba o que isto encerra. Dessa forma não terei incorrido em mais um erro sobre a minha função neste espaço e neste tempo.
Já fui acusado – sim, acusado – de ser demasiado depressivo, pessimista, cinzentão. Acho que deve ser mesmo assim, algumas pessoas sentem-se mais atraídas pelo abismo do que outras. Há mesmo quem salte na ilusão de que esse impulso marque o mundo com uma lição vital aos vindouros, ou tão só com a crua certeza de que toda a dor se atenuará depois. Eu prefiro caminhar bem longe da berma, pressentir o eco que o choque do ar provoca contra o solo a que me agarro. Prefiro mesmo ignorar essas disposições físicas da paisagem, caprichos com que a natureza molda o planeta e a mente dos homens. Já sobre esta última, é certo pinto quadros que julgo realistas, sabendo de ante mão que não serão apreciados por todos. Pois, há sempre alguém que vê toda a paisagem como um plano único, sem acidentes, quase bidimensional. Quem sou eu para os julgar? Ter a pretensão de que sinto mais do que duas dimensões não me torna superior, apenas diferente de quem quer acreditar que todos sentem de outra forma.
Não deixo de me embevecer pelo azul do céu ou por outras paisagens marcantes, quer na cor; quer na forma graciosa com que foram esculpidas natural ou antropicamente e que eu aprendi a apreciar, neste tempo, neste espaço; quer ainda pelos contextos minuciosos e indescritíveis que lhes conferem uma graciosidade única, mesmo intemporal, no que a memória se há-de esforçar enquanto existir. Não obstante, julgo...chego a ter a certeza de que sou dono da minha razão e, ao mesmo tempo, repudio-a face ao que não comungo com os outros espécimes iguais, que comigo partilho esse dito tempo, esse descrito espaço.
Todo este exercício inútil de pensar redunda apenas no deserto que me rodeia, que me compõe, a que me dirijo e que é o meu fim último. Todos nós temos o nosso próprio deserto onde espraiar a seca dificuldade de viver, pelo ínfimo que somos numa vastidão monótona de ser igual a tantos. Eu tenho um deserto; nele, por ele, a caminho dele sou apenas um grão de areia mais, tendo apenas a consciência disso. Consequentemente deixo-me levar pelo vento, permito que a humidade me aflore a forma sem resistir e, quando pousar, sei que apenas cumpro mais um estágio do que serei amanhã.

Baladas da varanda fria (cont.)

Insónia

Acordo sem que tivesse adormecido. A luz que se acende, pela minha vontade ou pela minha acção. O corpo jaz sem jeito debaixo das roupas. Talvez a luz tenha estado sempre acesa. É irrelevante porque mesmo no escuro elas estão lá, em frente aos olhos; Les Mademoiselles d’Avignon, disformes, por entre as roupas da cama. Sempre elas, estáticas na sua observação, na sua pausa de pose disforme, na sua meia-nudez despida de sentimento. O vazio que me acomete deixa que o coração corra demasiado solto. Antes fosse entranhas e mais alguns tecidos; antes fosse sangue e água a pulsarem pelos canais de esgoto. Não. Sou só coração. A taquicardia não se deve a elas, mas a outros sonhos. Tento apagá-los junto com a luz e entro no escuro do espaço, igual ao escuro de mim, por dentro e por fora; de dentro para fora o ar pesado do suspiro, do desespero de não sonhar dormindo. Nem leitinho quente, nem afago de quem não está ao lado, nem conversa paralela de dentro para fora; de fora para dentro. Le silence, mademoiselles. Le silence n’existe pas. Só o cansaço o poderia apagar, na condução de um sonho para outro, de sonhar fora para sonhar dentro, em silêncio. De qualquer forma tudo escuro, dentro e fora e, houvessem entranhas, tecidos, sangue e água a jorrar pelos canais, seriam todos negros também, dentro e fora.

Quinta-feira, Julho 2

Baladas da varanda fria (cont.)

VIII – Baladas da insónia
Sem título

Uma vez mais olhar a vida como a um quadro inerte, multicolor e desfiar-me de ser a partir do ponto infinito onde termino; o passo atrás que não dei. Desfiar-me por completo e ser tudo silêncio que deixei inundar-me. Tu, a companheira desatenta que não repara, que nunca reparou nesse silêncio, decides cortá-lo às postas para um lanche de Domingo, a dois.
Um chá?
E o meu silêncio a confrontar a tua súbita tristeza, a tua frustração repentina de quem nunca o ouviu, mesmo quando me fitavas a questionar sem nada dizer.

Ver-te ao longe no gigantismo de ser, como montanha bonita, mas intransponível, que se oferece ao meu horizonte curto. Voar até à altura dos teus olhos e sorrir que te amo a partir daí. Corroborares desse sentimento na frieza polar que inventaste e reduzires-te, primeiro ao teu tamanho normal no imediato, depois, nos primeiros passos seguintes que damos lado a lado, esvaindo-te de ser, diluindo-te na aragem, entregando-te a mim que não sei que moléculas colher nessa confusão etérea. Entristecer-me progressivamente pelo destino que escolhi, procurando insistente a tua companhia de ouvinte complacente como quem sonha o impossível.

Querer responder e ser travado pela rouquidão, pela falta de uso do músculo. Querer responder ainda assim, mas a passividade do olhar inexpressivo, mas a rigidez dos membros pendentes, mas a força só no pensamento e desistir é sempre o que se apraz como mais fácil.
Sim, pode ser.
Engolir um bolo seco para arranhar a rouquidão e dispersar-me num afago inusitado por não ser sentido. Percorrer os caminhos do mundo sentado numa pomposa cadeira de sala e fingir que um livro me interessa, mesmo que só pela lombada, pelo título fácil que tudo diz, condensado.

Tocam-te pianos na cabeça, sinto-o, apesar de não te acompanhar no recital, de me ser vedada a entrada como quem ignora o mendigo que se cola, ainda que por momentos breves, na montra de um restaurante. O mar oferece-me a nitidez do que é Verdade, do que é Mentira, do que é Possível e Impossível e esse banho de Realidade não me limpa de todo. Restam gotículas de sal dispersas pela pele, a dar o sabor; algas viscosas presas aos dedos dos pés, para acompanhamento. Onde está a ternura de toda essa Realidade? Os afectos que nos limpam até à alma?

Cai lentamente a tarde e em breve teremos o reconforto da certeza que o dia terminou, quando nos voltarmos de costas e fecharmos os olhos a tudo o que somos por fora, para que nos foquemos na escuridão que somos por dentro. Assim, poderemos descansar, deixando que o calor seja o istmo para o Nós adormecido. Talvez um dia desperte ou saibamos como o acordar.

Invento afazeres que me conduzam ao cansaço, quando não estou casada pelo nada que preenche o tempo. Invento a Fé que me adormecerá em descanso e continuo a sorrir, mesmo dormindo, a todas as pequenas coisas que formam o quotidiano, até a presença quente das tuas costas.

Baladas da varanda fria (cont.)

Os passos

No final do dia de trabalho, dos dias de trabalho de uma semana, preparado para seguir rumo a dois dias de trabalho doméstico, monto um cavalo alado que não tem de ser branco, porque não ligo a esses simbolismos. Voa a estrada negra à minha frente, iluminada de uma forma ténue pelas luzes laranja que marcam o trajecto. Quero que se lixem os road movies, as road stories, os filmes de cada um sobre as suas viagens. Quero só que os quilómetros se estendam por longas horas, que a noite cubra o horizonte e que eu não pare, sem destino. As pontes são sempre passagens para outros mundos, depois das capitais capitalistas, depois da sub urbanidade, com ideologia ou do desenrasque, conforme a formação.
Mesmo quietos, em frente ao carro parado no estacionamento municipal, os meus passos percorrem montanhas, porque a minha sombra me acompanha, porque nunca estou só em cada passo que dou. Por vezes, a sombra voa para bem longe e eu acompanho-a em pensamento. É quando prefiro que o silêncio me invada, restando apenas as imagens dos filmes que se conhecem de cor. Eventualmente ouvir um piano que caiba em todas as geografias, sons com forma a que o espírito se adapta perfeitamente.
Serei pai em breve e os meus passos, quando o for, serão agigantados a um plano indizível, para que seja a montanha firme onde o futuro se poderá refugiar. Logo, o futuro sou eu; a montanha emergente na paisagem. Sou eu o farol para o caminhante de longo curso, para que se guie, mais do que pelo céu, mais do que pelas as estrelas. Sou fraga que aninha o pássaro da tempestade; o solo fértil que dá pedra para os abrigos que se vão construindo ao longo da caminhada, que dá alimento pelas graças do trabalho e não de deus. Deus não existe e cada um é um deus de si próprio se o assim quiser.
Para conversas moralistas, por muito que se denominem progressistas, já era. Estou farto desses penduricalhos mentais para mostrar que se sente algo de único. Porra. Toda a gente sente algo de único, basta abstrair-se do resto secundário.
Não escrevo sóbrio, mas também não vivo sóbrio, o que é uma nítida vantagem perante algumas pessoas. Penso eu. Que sei eu disso? Estou mas é armado em parvo, com a mania que consigo pôr-me a pensar na vida. Que sei eu da vida? Ainda é cedo para pensar nisso. Terei tempo para todas essas questões, mais tarde.
Tenho é de caminhar sem olhar muito onde se pisa, preservando o cuidado de não pisar a erva, seguindo carreiros pré-definidos, o que não significa necessariamente que esteja encarneirado. Encarneirado é que não. Esses sim, os demos da nova democracia ateniense que vai emergindo da maré única do mediterrâneo.
O quarto minguante transporta-me para o passado e os sons fazem-nos de facto flutuar, apesar de fisicamente estar encarcerado num corpo sou muito mais que isso. Há quem lhe chame alma, mas eu já não acredito nessas coisas.

Adenso-me, neblina da noite eterna;
que cobre a terra,
sulcada por rios de negras águas;
que cobre as casas, fumegantes
do último fogo que agora se apaga.

Mesmo as montanhas são placas tectónicas que se movem, relevos que padecem perante as águas e todos os mecanismos de erosão, mais cedo ou mais tarde. Assim, a imortalidade deve apenas encontrar-se na memória. A memória não sofre de processos erosivos, mas perde-se meteoricamente nas avaliações que se fazem, medindo a todo o momento o que é realmente importante.

Restam ilhas sem nome –
sombras lunares de vontades perdidas –
e luzeiros moventes que se apagam
ou piratas que se embrenham
nas florestas,
em caçadas fortuitas
para matar a fome.

Os passos não conduzem a tudo o que possa matar a fome. Antes consomem as energias que a aumentam. Somos mais que energia aprisionada no corpo. Sou joguete dos meus próprios caprichos e rio, tão cientes da minha sapiência, como o cão que persegue o próprio rabo. A mente fomenta as distracções necessárias a que se tomem actos mecânicos. Assim, os passos dão-se rumo a nada, pelo traçar de metas inexistentes, quando outras se vislumbram já no horizonte, ou se sonham porque se têm de sonhar. A Liberdade não é matéria que se agarre, que se morda; é antes o espaço que está sempre quase ao alcance dos dentes, das mãos; o espaço que preenche o vazio entre cada passo, pela qual se passa inadvertidamente, que nem sequer preenche a cova que o pé deixou marcado na lama.

Pilharei tesouros de fátua utilidade,
pularei em virgens sem vontade.
Só desejo sangue,
só desejo carne
e o fim dos passos
de mim corpo,
de mim sonho…

Quarta-feira, Julho 1

Baladas da varanda fria (cont.)

Outono

O Outono já se havia anunciado; um sentimento, mais do que qualquer alteração climática digna de nota. As folhagens da flora perene, por exemplo, mantinham-se verdes – mantêm-se ainda hoje – como se não tivéssemos saído de uma Primavera cansativa. O sentimento de Outono persistiu desde esse primeiro instante de final de Agosto, quando o vento frio aflorou a pele seca, voltando noutros momentos similares em que a agudeza dos sentidos o proporcionava à interpretação melancólica. Hoje, definitivamente, chegou o Outono, suspenso numa neblina quente de pântano adormecido. Talvez por estar neste pântano suburbano que detesto, mas ocorre-me a possibilidade de tal acontecer em todas as paisagens. Sim, é verdade, as folhagens continuam verdes, mas os olhos dos transeuntes estão cansados, reflectem o escuro das suas vidas e não existe cor que combata esse ditame humano. Amanhã, ou outro dia próximo, levantar-se-á o vento saraivando a chuva forte contra a paisagem humanizada. Dentro de uma qualquer casa amar-te-ei rabiscando formas inexpressivas em folhas envelhecidas artificialmente. Ridículo!
Outono. Os amigos – diversos amigos – a gritarem Outono pelo telefone e eu, a árvore despida de folhas, a achar o óbvio, a silenciar o óbvio. Estou nu. Nada posso dizer além de trivialidades. Sou eu que acho que as minhas trivialidades são despidas, me expõem; para os meus amigos o essencial, a força necessária que lhes amaina o grito de
Outono.
Nem o chão que me rodeia tem folhas castanhas e vermelhas do fim de mais um ciclo. Eu, nu de verde… alguém varreu o Outono do chão onde estou. Sou já Inverno e os meus amigos a dizerem,
Outono.
Eu a responder, estou nu e eles a compreenderem,
Outono.
Eu a calar-me, a refugiar-me no teu corpo nu de Primavera. Querer esboçá-lo a traço fino de cor preta e hesitar, ter a certeza que não agora, por falta de força mais que pela ausência de pormenores. Conheço-os todos, com as sombras necessárias ao realce da tua pele branca, à evidência da tua robustez, da firmeza da tua pose. Deixar para mais tarde por não ter tempo. Ter tempo para tudo; para pensar a dissecação de tudo o que acontece aos outros, a mim que o absorvo sem interferência. Não estou a escrever nada de jeito. Parar.
Ensaiar um grito. Enviar-te uma mensagem escrita e receber de ti um sopro de vida, um beijo da saudade possível ou da pena provável. Acender um último pau de incenso para a noite inquieta que ainda resta, à falta de drogas; de drogas perfumadas que exultem o intelecto neste espaço descaracterizado de mim, de nós então nem se fala. Repousar numa inútil felicidade por não se saber o que fazer com ela. A euforia continuará presa à garrafa de vinho com o teu nome estampado, num suspiro que a abre antecipadamente ao jantar.
Até já tens tempo para me pedir distraidamente um abraço que te dou contraído. Podermo-nos amar então, mas o sonho ordena que saiamos para a rua, para a conversa despreocupada de estarmos.
O mar revolto,
as situações do costume. Regresso a mim e volto ao verde seco do sofá dobrando o corpo à minimalidade da dor. Não cederei ao impulso de abrir a janela e deixar o Outono entrar.

Baladas da varanda fria (cont.)

O silêncio

Deveria estar quieto e calado relativamente a este tema recorrente de todas as coisas que escrevo; de acordo com esta vontade que me acordou, me fez erguer do leito onde tentava ter um sono o menos agitado possível. Mas não; claro que não, tomar a hipótese de assim permanecer e erguer-me decidido a esperar eternamente que o computador se ligasse, que se deixasse que os documentos se abrissem, que a música cadenciasse o ritmo com que se escrevem as ideias parvas da insónia. Aumentar o volume do som; bater com as teclas com mais força, para que o seu som sobressaia a essa vontade expressa de aumentar os decibéis. Tanta conversa a ecoar na memória recente; tanto corpo estático, repetição de uma mesma busca por uma musa, musical ou não, não importa. Importa sim que se tocou no silêncio no instante antes do ruído se fazer notar e empurrar ao grito que agora se pretende escrever.
Alguém um dia verterá lágrimas pela constatação de realidade num tal quadro surreal. É a única constatação possível para interromper tão íntimo acto, tão vertiginosamente chocante verdade.
Chegar à imagem de ti numa situação quotidiana, profissional na impossibilidade de outras existirem; rumar à cadência desconcertada de tudo isto constatar pelo meio do ruído; de tudo isto conseguir abarcar pelo meio de outras imagens mais concretas, a família, o que se ilude das suas cores baças, do seu inverosímil resultado de sucesso pleno. A melodia a iludir a sensação de caos que se pretende, os tremores de terra sem quaisquer instrumentos receptores de tal manifestação.
Afinar o timbre pela pressa a que o bater da batuta impõe. Logo a acelaração cadênciada da timidez inerente à percursão. Logo o sonho impresso em palavras que vagueiam pelo espaço ocre. Logo todas as milhentas possibilidades de um Om aspirado para dentro, vindo de fora. A efemeridade de um acto tão simples quanto deixar em aberto todas as interpretações ao livre arbítrio de cada um.
Sou assim. Tu és certamente de outra forma. Conheces alguém igual a mim, pelo que te afastarei deste momento em diante, para que não dê azo a que encontre um dia esse meu igual. Não preciso disso. Sei agora – passados anos de andar a aprender coisas que se marcam na pele – que não o quero conhecer. Antes ficar pela cadência gradual com que os problemas se assumem na frágil recepção dos tons musicais, das cores plásticas, eventualmente das coisas mais complexas que a nossa disposição pretende definir de forma abstracta.
Do grito à paisagem bucólica de ser um simples que vive os dias como quem come fruta em cachos e esta a escorrer, esborrachada pelos dedos, pelos membros, causando um ténue impressão de nojo por ele abaixo, acima, de lado, em projecção geométrica de uma vontade informe. Do grito à paisagem bucólica – dizia eu – não me preocupar com o caos gramatical a que o desejo me induz. Para trás a orgânica forma de cansar o corpo, de o adormecer face a essa inquietude. Deixar o Tempo correr. Sempre a merda do Tempo agarrada à noção de som. Um paradoxo com o qual se tem de viver para que se marquem os pensamentos em caracteres virtuais de cor primária, de pensamentos secundários face a isso do fazer, do querer fazer, mesmo do já estar feito e não se ter pensado muito nisso.
Assim, confrontar a melodia calma das águas que correm. Há sempre águas a correr por perto de onde se vive, de onde se pode afirmar que se sente a água a correr. Picuinhices mais concretas, como olhar, pensar nos ínfimos pormenores da paisagem que nos compõe em efémeros fragmentos de tempo.
A merda do tempo a bombardear o pensamento ilógico a que se submete a vontade; a triste forma de gritar que se tem antecedentes, que estes são muito mais importantes que a rejeição teórica a que os sujeitamos. Um veneno de morte lenta, de enganoso olvido sobre as certezas que pretendemos conquistar...que coisa, que julgamos mesmo dominar com todos os sentidos bem apurados. Nós, donos das nossas verdades e pronto, cada um acredita nas suas, estamos combinados dessa forma.
Os acordos formais que a hipocrisia firma sucumbirem perante as catástrofes como quaisquer conceitos, fisicamente concretizados, de estar perante os outros, perante nós próprios. Talvez aí, depois disso tudo, esteja o silêncio de que dependemos cada vez mais, com o passar desse maldito Tempo a que se faz referência em repetitiva conclusão; a paisagem bucólica, estática de nós que se admira sem pressas, sem ruído na sala verdadeiramente iluminada pela benesse da luz solar.
Essa energia ser silêncio; ser paz e conflito; ser um ponto final no caminho que se acaba para que outro comece. Qual a novidade em tudo isto? Alguém percebeu? Percebi eu, antes da sobriedade me conduzir a essa realidade silênciosa de acordar comigo, só, no mesmo contexto espacio-temporal que todos os outros que me vão julgar pelo que silenciei até aqui?
Pensar. Pensar e agir compreendendo a inutilidade de tal acto – esse sim animal.
Esperar. Esperar e procurar mexer um músculo que seja, um pensamento ruidoso que seja, compreendendo a inutilidade de tal acto – esse sim humano.
Amanhã...
Amanhã...
Sempre para depois o concluir pautado de uma musicalidade minimalista de compreender, de nos compreendermos.
No fundo, alcançar as soluções fáceis que sempre se ofereceram ao raciocínio. Um murmúrio inseguro de sermos assim pelo prazo de vinte e quatro horas mais. Depois disso tudo será diferente...
prometemos a nós próprios que tudo será diferente. A insegurança de tal ruidosa certeza, de tal elíptica dedução humana.
O silêncio; a paz está ali, no fundo...
no fundo de mim...
no fundo do Tempo.

Terça-feira, Junho 30

Baladas da varanda fria (cont.)

O náufrago

Pintei uma cara numa garrafa de rum; um objecto escolhido entre os parcos víveres que sobreviveram à catástrofe. Encontrei esse acto vulgar na minha memória, fruto de leituras que fiz ou filmes que vi na civilização. Não deixo de o considerar um lugar-comum, mas, quando se náufraga, não consta das preocupações mais prementes ser original nos actos. De qualquer forma não serviu de muito, rapidamente a garrafa se tornou vazia de conteúdos que acrescentassem alguma coisa à minha infortunada existência. Um sorriso estilizado; uma forma arredondada de matéria translúcida; uma recordação de um bom momento, mas breve momento; rapidamente deixou de me fazer companhia para ser isso, um objecto inútil com um sorriso permanente. Dos outros objectos a utilidade prática repetitiva do servirem para o que foram feitos, nada mais. A partir deles organizar o espaço de acordo com os modelos que aprendi. Ridículo; ter tanto tempo e não me preocupar em reinventar as coisas de uma forma completamente diferente, com uma nova base de pensamento inerente aos resultados. Talvez ter dentro de mim a ideia de que assim a necessidade de sobrevivência não assume tanta urgência, tamanha gravidade.
A gravidade agarra-me ao chão mole do areal e, aqui, não tenho tempo de voar em sonhos pouco consistentes nos seus propósitos. Afinal, bastar-me a areia, a praia deserta de uma ilha ou continente – desconheço-o, admito, mas não tenho vontade de explorar o desconhecido quando nem este breve horizonte continental conheci ainda a fundo – para ter onde marcar os meus passos e os poder observar quando feitos; pensar neles, na profundidade da sua marca, na superficialidade do meu acto ao marcá-los. No fundo, agarrar agora esse sonho ocidental de estar numa praia deserta. Sim, lembrar aqueles exercícios estéreis de quem se levaria para uma praia deserta, para esta praia deserta, como se não fosse infortúnio ter naufragado, mas conquistado pela sorte a benesse de umas férias permanentes. O acaso de estar vivo tornar-se assim num acaso de ser afortunado por ter tal sonho à mão.
As mãos recusarem-se em marcar os dias, seja porque forma for, nem que seja para que se não baptize o primeiro selvagem que aparecer com nomes parvos; sobretudo quando já deve ter um. Não me preocupar muito com essa eventualidade. Tenho tempo para gozar a solidão merecida pelo cansaço, pela dor estampada na pele com marcas que outros iguais a mim me afligiram. Não esquecer isso quando grito boa noite às estrelas e uma sensação de vazio me estica a pele; quando um ruído animal me sobressalta na escuridão da noite ou quando corro a apagar a fogueira, para que o barco que navega o horizonte não me assista em socorro. Não me sinto uma alma perdida. Aliás, julgo mesmo que não tenho alma acoplada a este corpo; essa ideia absurda que me toldava os juízos e me travava os ímpetos selvagens a que o pensamento me empurrava; tudo em prol de uma salvação moral da memória de mim. A poesia ser pura, até no fresco das negras sombras do arvoredo basto. A imortalidade a que me conduz ser condicente com a sua essência etérea, como os raios de sol que me escurecem a pele, que me alimentam de vida muito mais do que essas células mortais que me compõem a existência. Não preciso escrevê-la à posteridade ou à estúpida garrafa que me sorri insistente. Basta-me tão só senti-la. Nas suas linhas que dão forma à irrealidade poderei naufragar sem limites, sem chão que me segure os passos ou sem força que me direccione à praia cobarde de ser eu, dia após dia.

Baladas da varanda fria (cont.)

VII – Escaladas na solidão
A montanha

A montanha; subi-la a esforço; parar de quando em vez. Deixar o suor escorrer e o ânimo sofrer abalos pontuais, nas passadas mais difíceis. Deixar. Chegar ao seu topo, mais tarde ou mais cedo, e então escolher um ponto dominante, uma pedra que aflore imponente, um ponto de mira para tudo. Daí dominar os quatro quadrantes de que sou feito, para além da infinitude que as linhas de horizonte oferecem, ou do que se pode pressupor existir para além delas. Mais próxima, a plataforma aplanada do topo da montanha, o chão reservado aos deuses e aos humanos inadvertidos dessa proibição.
A Norte montanhas mais altas se erguem, mas não me pertencem, nem sobre elas tenho qualquer pretensão que não seja percorrê-las sem este cansaço de que sou feito no momento. As montanhas altas e o azul profundo das suas sombras, ou a neblina que se ergue para proteger os seus habitantes. À noite, sem luz e com neblina, Deus não existe de certeza e os homens, ou se dedicam a temer os seus próprios medos e se encerram em abrigos, ou deambulam vertiginosamente sobre as escarpas, uivando às intempéries naturais como que em desafio. Eu também ainda cá estou, também ultrapasso as minhas escaladas e, quando for tempo disso – eu sabê-lo-ei –, uivarei da mesma forma, sem medo dos meus temores.
A Oeste o reino das águas e os seus deuses ocultos. Numa análise mais lacónica também as aventuras que o desconhecido oferece, seja qual for o seu estado físico. Caminhos possíveis para tudo o que se quer encontrar e, por inerência, para o que desejava não conhecer. Ergo o meu copo e brindo a isso. Que seja vivido quando possível. Não me reter nas questões do que torna as coisas possíveis ou não. A Vontade. Não questionar a Vontade.
A Este os abismos; os vales fundos onde o vento sibila. Grito mensagens com a esperança que sejam ouvidas. Quando o sol nasce, todos os dias, esta terra fendida parece uma vasta planície, como se o tempo não lhe tivesse enrugado as faces. Só mais tarde, a meio da manhã, é que toma a sua forma envelhecida, por isso inóspita de vida; pode suspeitar-se.
A Sul a união dos eremitas, o deserto, o calor e os maiores horizontes de vida. O silêncio associado aos feixes de luz forte que banham estas paragens. Ainda que no fulgor da civilização – os homens como formigas, portanto – haver espaço para um silêncio interior, uma profunda análise do que se é, do que se deve ou não fazer com isso. Logo, é a terra dos incompreendidos.
A toda a volta, no imediato a que se retira a escalada, porque essa é só minha, a civilização, disposta em conceitos arquitectónicos e outros sociais, mais complexos por isso. Os pensamentos aplanados, despidos de vegetação; os músculos tensos, como se um apocalipse prestes a acontecer; o ruído de fundo, o feed-back. Ter o prazer de vê-la decair e a pena de dela fazer parte. Ainda não decidi se vou ser carne para canhão ou canhão para a carne. Enquanto nisso penso vou respirando o ar puro da montanha, mais rarefeito, destinado aos eleitos, os que estão mais perto dos deuses, logo dos sonhos, logo de todas as possibilidades que a sua imaginação oferecer. Ao longe, Sodoma arde num banho de enxofre e Gomorra afunda-se num manto fétido; um chão que nenhum homem se atreverá a pisar tão cedo. O Tempo efémero que me é dado a viver para que não conheça o que vem a seguir.
Vista de qualquer ponto, a montanha é um rasgo branco na paisagem, uma ilha que se ergue, vertical, sobre uma base verde que se interrompe na subida; um labirinto de sombras entrelaçadas por entre as rochas. Com mais minúcia perceber uma clareira ligeiramente aplanada, um traço horizontal de cor contrastante, logo escura, para aí um cinza bafejado de azul. O traço ser alguém que repousa os seus pensamentos no ar gélido. Os pensamentos repousarem numa grande mancha vermelha, uma poça de sangue que anima de vida o quadro inerte.
Eu um traço horizontal que repousa os seus pensamentos.
Eu um quadro inerte, um observador alcantilado no seu cume, na sua poltrona lítica, firme nas bases das misérias humanas.
Eu um rasgo branco na paisagem; uma ilha que se ergue, vertical; um labirinto de sombras entrelaçadas por entre rochas.
O amor...
Distender-me numa impressão sobre o amor; incuba-lo em conceitos; expressá-lo com actitudes radicais; simbolizá-lo com linhas simples sobre fundos coloridos; destruí-lo pelo poder abstracto que confiro ao meu pensamento sobre o que não conheço.Viver. Desçer a montanha pedregosa em saltos esparsos de patamar a patamar. Pareço uma criança a imitar as cabras, enquanto segue a caminho de casa com elas. Talvez seja mesmo isso, mas já não uma criança, antes um homem, grande como os silêncios, pesado como o passar das horas, calmo como a dinâmica dos elementos que o rodeiam.